La Serpiente Emplumada: uma história de ascensão ao infinito

Com base em mito mexicano, a escritora goiana Maria Luiza Pires Medeiros lança novo livro, o romance “Elo — O Tempo e A Vida”

Ouvir Estrelas

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas”.

Olavo Bilac

Mineira, Maria Luiza Pires Medeiros, além de se dedicar à escrita, criou na capital goiana a Fundação Logosófica. O romance “Elo” é seu quarto trabalho publicado

Mineira, Maria Luiza Pires Medeiros, além de se dedicar à escrita, criou na capital goiana a Fundação Logosófica. O romance “Elo” é seu quarto trabalho publicado

Yago Rodrigues Alvim

Abandonado pelos pais, devido difíceis circunstâncias, o menino Elo cresce ansioso e inquieto pelo mundo. Quer saber da vida, do por quê da Terra, de onde veio o homem, aonde vai, o que faz por aqui. Assim, cresce Elo. De suas viagens, conhece a lenda de “La Serpiente Emplumada”. Também ansiosa em ser plena, infinita, a serpente deixa de arrastar-se pelo chão. O réptil ganha, então, asas e se ascende aos céus.

Editado em Goiânia, pela Editora América, o livro “Elo — O Tempo e a Vida” é um romance de Maria Luiza Pires Medeiros. Nascida em Minas Gerais, a escritora tem outros três trabalhos, entre livros de poesia, contos e crônicas. Na capital goiana, além de cursar Letras, criou a Fundação Logosófica. Já aos 86 anos, aguarda paciente, frente à ansiedade da vida, o lançamento do livro, marcado para daqui a pouquinho: a quarta-feira, 9 de março.

O livro conta de sua viagem, do que aprendeu Elo e o que pôde fazer com os conhecimentos adquiridos. “Ele pôde realizar seu sonho, sua vontade, completar lacunas de anseios. Quanto aos pais, se descobre mais ou não, eu não poderia falar; é um dos mistérios do livro”, sorri Maria Luiza. A escritora viajou ao México e, por isso, trouxe a lenda da serpente para o livro. Da Alemanha, por onde também perambulou, criou outro personagem do livro. Maria Luiza conta até de planos futuros; ela deseja escrever um novo livro de sua viagem ao Egito. “Espero muito contar sobre lá.”

Autora

Após casar-se com um goiano, a escritora mineira viveu cinco anos em Belo Horizonte, onde conheceu a Logosofia, termo criado pelo pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche, que quer dizer “ciência da razão”. Mas foi em Goiânia onde cursou Letras e seguiu com seus escritos. A vinda se deu pelo marido e pela Logosofia. Queriam fundar na capital goiana uma filial — hoje, a Fundação Logosófica tem mais de uma unidade na cidade.

Na Universidade Federal de Goiás (UFG), teve o privilégio de aprender com Brasigóis Felício e, entre outros grandes professores, José Mendonça Teles. Após concluir seus estudos literários, se dedicou por sete anos a uma oficina de escrita. “Eu cursei a oficina até que Bernardo Élis a fechou. Isso, na década de 1980. Ainda assim, nós demos um jeito de continuar o grupo e continuar a escrever”, brinca.

Suas publicações vieram, então, com o fim de suas capacitações, quando também a Fundação estava em outras mãos, os filhos casados e quando o marido já havia falecido. “Momentos”, de 2003, é seu primeiro livro; à escritora, por seus poemas, escreveu Paulo Coelho:
“Maria Luiza, obrigado por suas belas palavras, continue escrevendo seus trabalhos, siga a sua lenda pessoal, porque esta lenda está contando com você.

Abraços

As publicações se seguiram com o livro de contos e crônicas “Na garganta do Monte Agha”, lançado em 2010. Já “Oscilações”, sua segunda obra poética, veio ao público em 2012, com um prefácio de Aidenor Aires.

Maria Luiza conta que sempre leu muito. Dois de seus filhos moraram na Inglaterra e, assim, leu muito da literatura inglesa. Outra filha, casada com um boliviano, trouxe-lhe um pouco desta cultura e literatura. “Mesclei, então, com o meu conhecimento de es­critores brasileiros. Eu lia Castro Alves, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e muitos outros poetas. No primário mesmo, que fiz em Juiz de Fora, aprendi muito da poesia brasileira. Eu as decorava e, de algumas, ainda me lembro”, diz.

Rememorando, a escritora conta uma historieta:

— Um de meus amigos de classe era irmão de Marieta Telles Machado. Médico aposentado atualmente, ele foi meu vizinho. Íamos sempre de carona para a faculdade. Às vezes, ele escrevia alguma coisa e, por isso, brincava comigo, dizia que, como ele, eu era uma escritora bissexta, já que de tempo em tempo que escrevíamos. Pois bem, agora lanço mais um livro, uma lenda dos astecas; Elo, mesmo que se arrastando, ganha asas e sobe ao infinito. Uma história sobre o tempo e a vida, que estão sempre juntos.

Trecho do livro “Elo — O Tempo e A Vida”, de Maria Luiza Pires Medeiros

A obra conta a história de Elo, um menino abandonado pelos pais que, como “La Serpiente Emplumada” ,deseja ascender na vida

A obra conta a história de Elo, um menino abandonado pelos pais que, como “La Serpiente Emplumada” ,deseja ascender na vida

Doce Laura

Na chácara do Sr. Caetano conheci Laura, sua neta. Uma adolescente de olhar tranquilo e sereno.
Certa manhã a vi ao longe, quando chegava. Nem sabia que o Seu Caetano possuía família ali com ele. Sempre o vi sozinho, por isso estranhei estar ali uma jovenzinha… Mas, realmente soube que ele morava apenas com o caseiro, e às vezes recebia visita do filho ou da neta. Única neta que tinha.

Chovia e ela caminhava pelo pomar, calmamente. Eu fui ao seu encontro apressado sem saber quem era ela.

A chuva estava muito forte quando cheguei naquela manhã na chácara, por isso era inacreditável, para mim, ver uma garota passeando tão tranquila debaixo d’agua. Perguntei seu nome. Queria saber quem era aquela criatura que transparecia serenidade…

— Olá, ainda não a tinha visto por aqui. Como se chama?

— Sou Laura, neta do Sr. Caetano.

— Ah, eu sou Elo e sou muito amigo do seu avô.

— Sim, eu sei. Ele já me falou de você.

— Pois então, avistei você de longe e me preocupei ao vê-la passeando na chuva… Você não tem medo de adoecer? Vejo que a chuva está forte!

— Ah, está como eu gosto! Adoro andar na chuva, deixar seus pingos grossos caírem sobre mim, vindos lá do alto, das nuvens!
— Então, não tem medo, nem cuidados…

— Pois é, não tenho medo nem cuidados – disse rindo – de tudo que vem do alto!

Aproximei-me mais um pouco; agora sim, nos cumprimentamos e sentamos juntos no beiral da varanda.

Ficamos por ali muito tempo. E enquanto os raros relâmpagos cortavam o ar de uma chuva que chegava ao final, falamos de nós mesmos e trocamos nossos gostos e afinidades. Eu, tão tímido, tão calado, sentia-me a vontade e falei de quase toda a minha vida, quase… quase.

De repente, um pensamento amigo me advertiu: “Cuidado, você está quase ultrapassando os limites”.

Então, disse-lhe:

— Agora, fale-me de você.

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