“La La Land” e por que são bobos os românticos

De Damien Chazelle, a obra não só inspira os sonhadores, como vai além ao contar que a vida é muito mais que uma história de amor

Estrelado por Ryan Gosling e Emma Stone, o musical foi o grande vencedor do Globo de Ouro, com 7 prêmios, e é um dos favoritos ao Oscar 2017 | Foto: Divulgação

“City of stars
Are you shining just for me?”

Justin Hurwitz

Yago Rodrigues Alvim

Quando crescer, o que quer ser? Muitos se lembrarão dos so­nhos guardados, da história de médico ou bailarina, das brincadeiras de astronauta ou professor de literatura. Eu não me lembro bem o que queria ser, mas hoje, já grande, vejo ainda muitas vontades para o amanhã. Tem sempre um projeto, um plano guardado no bolso. Essa coisa de Ano Novo traz isso mesmo: “Do seu 2017, o que vai ser?”.

E não só de sonhos, mas de amores muitos foram envoltos no passar dos anos. Sempre aquela coisa de encontrar a metade da laranja, dos contos de fadas. Não há quem não queira um amor dos bons. O que acontece, no entanto, é a vida, que vem e muda as coisas de lugar. Foi com esta sensação de reviravolta, coisa revolta, borboleta no estômago — como disse a poeta lisboeta Matilde Campilho, “ou é úlcera ou é amor” — que me vi nos créditos de “La La Land”.

Do diretor e roteirista estadunidense Damien Chazelle, o musical estrelado por Ryan Gosling e Emma Stone foi o grande vencedor do Globo de Ouro. Agraciado com 7 prêmios na cerimônia, é ainda apontado pelos críticos de cinema como um dos fortes nomes ao Oscar 2017 e certamente serão muitas as indicações, uma vez que o filme é feito de muitos filmes.

Para quem não conhece a historieta ainda, pois bem: am­bientado em LA, entre cafés de Hollywood e bares de jazz e cinemas já decadentes, o ro­mance entre o pianista Se­bas­tian (Gosling) e a então iniciante atriz Mia (Sto­ne) vive seu auge e dissabor na busca das realizações pessoal e profissional de ambos. E isso de sonhos e amores é só um dos filmes.

Ele ainda se amostra como uma obra fotográfica bem laborada, de uma luz não-natural e que, no entanto, com seus aparatos, cria universos e fala por si; é uma obra de canções singelas, estas escritas e produzidas por Justin Hurwitz e muito bem-interpretadas pelos mocinhos Gosling e Stone; e, dentre outras, de um enredo fílmico que causa o auê das borboletas.

Muitas são as obras de Hollywood que pecam na fotografia, ainda que o orçamento seja de cifras que para sempre eu hei de desconhecer — na verdade, a grande maioria peca nesse quesito. “La La Land”, no entanto, cativa e o faz por esta conversa das luzes, que contam dos sentimentos dos personagens, das intenções interpostas nas tais entrelinhas luminosas — mas não vá esperando uma obra do cinema francês de um grande diretor, nem nada assim.

São muitos os sentimentos da obra e talvez por isso exista o apelo sentimentalista da coisa, a tal “história de amor”. Gosling já tinha se destacado nos musicais adocicados. Talvez um tanto mais tristonho, “Blue Valentine” (2010), de Derek Cianfrance, angariou Oscar e Globo de Ouro. Ali, o ator já se demonstrava desenvolto com as cordas vocais para música e, portanto, para o tal gênero fílmico. Foi também em 2010 que Stone ganhou a graça do público. No entanto, não como muitas atrizes-mocinhas, ela foi além de “Easy A” e, na obra de Chazelle, surpreende com seus passos coreografados e timbre afinado, além da boa interpretação.

As canções de Hurwitz embalam certa melancolia, esta pretendida pelo filme. Cumprem bem seu papel, principalmente ao ficarem na mente mesmo depois dos créditos subirem. Na verdade, a temática “canção” é um dos marcos não só na produção. No enredo, o que se destaca é este grito pelo jazz, que não é tão sutil, nem tão em segundo plano. A vontade que move Sebastian é a de um clube que respire o que é a essência do jazz, aquilo de conversas surdas entre instrumentos que, em seus improvisos, respeitam-se mutuamente.

Um dos gritos é ouvir o jazz da cidade, da vida. É saber ouvi-lo. E nisso repousa a expertise do filme. Ele segreda, a quem o vê para além de uma explosão de cores e hits e mocinhos de Hollywood, que a vida é maior que uma história de amor. Simples, mas de mesa bem-posta. É na linguagem, na forma como constrói o filme que Chazelle diz disso. Que todos querem ser médicos, astronautas e bailarinas e que todos querem ainda um amor para toda a vida, ele já sabe. Isso vende. As cartomantes, que trazem o par ideal em uma semana e sobrevivem assim, também.

Só que um tanto além, ele também sabe que, em meio a desgastante indústria do cinema, existe quem prime pela arte, a vida — ainda que nas suas raridades. Sabe ainda que, na noite underground seja de LA ou de qualquer outro lugar, alguém se abre para o som que vem, como diz na obra, com paixão. E o que é feito com paixão por um chama sim os olhos e ouvidos do outro.

Talvez, nada disso valha a grande produção que é, de cenário e figurino e não sei mais o quê, “La La Land”; e, talvez, só por tal “parafernália” ela se destaque no Oscar. Mas há quem veja esse outro filme, longe dos blockbuster de adolescentes e jovens que, com ele, tomam um banho de água fria. Afinal de contas, o amor de uma vida pode não durar por ela toda. Não é preciso ser sonhador para vê-lo, nem romântico. É preciso só estar vivo, sempre a­ber­to. E, bobo mesmo, é quem não crê nisso.

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