Kathrin Rosenfield e o enigma de Antígona

A leitura atenta de Sófocles e da tradução de Hölderlin (que auxilia a entender o texto grego), feita por Kathrin, mostra como funciona a produção de significação através dos modos (irônicos, sarcásticos, lacônicos, acusatórios, etc.) de dizer certas coisas

Kathrin Rosenfield é uma das mais prestigiadas estudiosas de literatura do Brasil atualmente

Lawrence Flores Pereira
Especial para o Jornal Opção

Kathrin Rosenfield lançou – 16 anos depois da primeira edição do livro rapidamente esgotado “Antígona: de Sófocles a Hölderlin” (LP&M, 2000) – uma versão condensada desse ensaio sob o título “Antígona. Intriga e Enigma. Sófocles lido por Hölderlin” (Editora Perspectiva, 2016).

É um ensaio de cerca de duzentas páginas, em vez das quase quinhentas da antiga versão, amadurecido por um longo diálogo com especialistas de Sófocles e outros tantos de Hölderlin, refinado também pela edição do livro na França e nos Estados Unidos (com a tradução realizada pela própria autora). Kathrin tem um notável dom para línguas – fala, escreve e leciona fluentemente em quatro idiomas.

Uma leitora “estrangeira-e-brasileira”

Ela conta, em entrevista, que provavelmente não teria escrito esse livro, não fosse pelo deslocamento para o Brasil e a reflexão sobre a complexidade de “Grande Sertão: Veredas”, de J. G. Rosa. No romance rosiano, Kathrin descobriu toda uma reflexão não só sobre o bem e o mal, Deus e o demo, o “homem humano” – ou seja, a condição trágica da humanidade; chamou-lhe atenção também como G. Rosa esconde, nas fábulas e lendas do sertão, uma reflexão sobre as entraves do Brasil contemporâneo – convicções superficialmente positivistas e progressistas em contradição com atávicas tendências da “cordialidade” brasileira, religião e ética em descompasso com as práticas sociais e políticas.

Título: Antígona, Intriga e Enigma
Autora: kathrin Rosenfield
Editora: Perspectiva
Páginas: 224
Ano: 2016

Além disso, Kathrin foi sensível (como somente um estrangeiro costuma sê-lo) a certas sobrevivências arcaicas tipicamente brasileiras: mitos, lendas e crenças ainda têm impacto vivo na sociabilidade contemporânea; ritos muito antigos como macumba e candomblé às vezes lembram as oferendas da Grécia antiga e práticas como a recitação da poesia de cordel, cortejos carnavalescos, desafios poéticos têm grandes afinidades com rituais que, há dois milênios e meio, contribuíram para o desenvolvimento da poesia trágica.

Tudo isso a levou a se voltar às tragédias de Sófocles – e às suas traduções, interpretações e encenações. Procurando esclarecimentos a respeito de certas passagens que, ainda hoje, são bastante obscuras, às vezes inexplicáveis, às vezes disputadas, Kathrin descobriu as traduções do poeta alemão Friedrich Höl­derlin, realizadas entre 1800 e 1804. São traduções consideradas revolucionárias, porque rejeitam os entendimentos “apolíneo”, racional e classicista da tragédia, propondo uma abordagem mais “dionisíaca” e selvagem.

Partindo do estudo seminal de Haroldo de Campos “A palavra vermelha de Hölderlin”, Kathrin descobriu que Hölderlin alcançou uma tradução mais sensível e abrangente não apenas em alguns versos isolados. Na verdade, a tradução oferece uma visão diferente, e talvez mais grega e mais trágica do que a maioria das traduções que hoje são consideradas como fiéis e boas. Um importante “porém”: essa versão obriga o leitor a ler diferentemente, ou, como salienta Kathrin, a abrir mão dos preconceitos cristãos que costumamos projetar sobre a tragédia:

“Uma das coisas mais difíceis é quebrar velhos hábitos. Por que mudaríamos a imagem de Antígona – a heroína piedosa que sepulta o irmão, e paga esse gesto louvável com a vida? Talvez porque Friedrich Hölderlin propôs exatamente isto. Há dois séculos, ele empenhou suas proverbiais afinidades com os trágicos para superar a imagem da tocante mártir cristã e desvelar, enfim, uma heroína grega. Sua tradução tentou devolver vivacidade (Leben­digkeit) a esse personagem enigmático, fazendo sentir novamente seus interesses mundanos, seu orgulho de princesa e seus estranhos desejos contraditórios.”

Uma interpretação inusitada

Para não aumentar o suspense, resumo aqui os achados realmente surpreendentes e novos dessa leitora de Sófocles e de Hölderlin. Ela mostra que Antígona não é uma moça piedosa cujo casamento com o noivo Hemon é impedido pela intolerância cruel de Creonte. O gesto heroico de enterrar o irmão contra o decreto expressa tanto sua piedade, como também seu orgulho dinástico e sua posição jurídica privilegiada. Ela seria, na Grécia clássica, uma filha epicler – herdeira do título monárquico do seu pai morto que pode e deve passar essa herança para o filho de sua linhagem. Para tal, ela deve ser casada num rito invertido, com seu mais próximo parente – Hemon, que assim perderia a descendência da linhagem de Creonte, tendo que produzir filhos para a outra linhagem de Édipo.

Mais surpreendente ainda é o modo como Kathrin vê Creonte – que normalmente rejeitamos como tirano vil, pai cruel, homem de poder insensível. Kathrin ao contrario mostra que, por pouco amável que termina sendo, esse personagem não deixa de ter motivos válidos, tocantes e humanos. Primeiro – ele avalia que o fratricídio dos irmãos constitui um miasma (poluição religiosa que ameaça a cidade, porque suscitará a ira divina); segundo, ele julga, corretamente, que o casamento do filho será duplamente infeliz – de um lado, porque Antígona é o fruto amaldiçoado de um incesto, de outro, porque extinguiria a própria linhagem dele. É esse o raciocínio que o pai tenta fazer compreender no longo diálogo com Hemon – ele tem mais e melhores motivos do que a exorbitante paixão pelo poder que normalmente projetamos sobre ele.

Não é aqui o lugar de comentar longamente todas as sutilezas da leitura inovadora que o ensaio de Kathrin explica com grande sutileza e erudição.

Mencionemos apenas a verdadeira arte com a qual a autora torna tangíveis as sutilezas do texto grego, de tradução alemã. Ela está atenta às matizes de tom, ênfase, ritmo que ocorrem em um nível não explícito: ao sentido que corre entre as linhas, nos jogos de palavras, nas ironias que se referem a uma situação que o leitor tem que imaginar.

À medida que Kathrin envereda pela sua leitura atenta de Sófocles, ela desvenda como funciona a produção de significação através dos modos (irônicos, sarcásticos, lacônicos, acusatórios, etc.) de dizer certas coisas, e como a tradução de Hölderlin auxiliou a compreender melhor o texto grego.

O estudo de Kathrin Rosenfield é ao mesmo tempo uma preciosa contribuição para a teoria e a prática de tradução. Hölderlin é geralmente compreendido como um precursor da prática tradutória de Walter Benjamin – famoso por introduzir as características da língua traduzida (o grego) na língua de chegada, produzindo assim efeitos de estranhamento que devem sensibilizar o leitor pela alteridade da cultura outra.

Kathrin mostra que certas passagens bizarras na tradução de Hölderlin não são alterações gratuitas. Ao contrario, ela evidencia nas estranhezas do texto hölderliniano uma visão abrangente e consistente da tragédia como um todo – um todo poético que tem que ser compreendido no seu contexto antropológico. Kathrin contribui para uma melhor compreensão da empreitada tradutória do poeta alemão, reunindo inúmeros detalhes da cultura grega que ainda não foram debatidos como chaves de leitura para uma melhor compreensão – tanto do poeta da antiguidade como do poeta alemão (nem tão louco quanto muitas vezes se pensa).

Lawrence Flores Pereira É professor da Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul. É autor dos livros “Engano Especular” (É Realizações, 2012), sob o pseudônimo Lawrence Salaberry, e inúmeras traduções poéticas. Foi vencedor do Prêmio Jabuti de Tradução de 2016, por ter vertido ao português “Hamlet” (Cia das Letras/Penguin, 2016), de William Shakespeare.

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