Juventude, transgressão e arte em Patti Smith

“Só Garotos”, livro lançado em 2010, põe em evidência os múltiplos talentos da artista americana, considerada um dos ícones do movimento punk; a autora relata sua trajetória rumo à efervescente Nova York do final dos anos 1960

Patti Smith (1946): cantora, compositora e poetisa, estreou na música com o álbum “Horses”, em 1975, a partir do qual tornou-se uma das mais influentes mulheres do rock ‘n roll

Flávia MF
Especial para o Jornal Opção

Precursora e um dos grandes nomes do movimento punk, Patti Smith (71 anos), que além de cantora é também poetisa, estreou na música com o álbum “Horses”, em 1975. Este álbum foi a porta de entrada para a carreira de uma das mais influentes mulheres do rock ‘n roll.

Seu livro não ficcional “Só Ga­rotos” (Companhia das Letras, 2010, 280 páginas, tradução de Alexandre Barbosa de Souza) coloca em evidência os múltiplos talentos da artista. Por meio de uma escrita bastante descritiva, e ao mesmo tempo fascinante, Patti relata sua trajetória rumo à efervescente Nova York do final dos anos 1960 em busca de uma sonhada carreira no mundo das artes.

Ao longo dessa jornada, ela conhece Robert Mapplethorpe, com quem compartilhou seu sonho, e que seria seu grande companheiro, incentivador e amante. A obra, conta ela, é fruto de uma promessa feita ao amigo: escrever a história de amor e companheirismo que trilharam juntos, parte fundamental do percurso de ambos como artistas.

Trata-se tanto de uma autobiografia quanto de uma biografia, visto que Patti narra a sua história de vida ao mesmo tempo que também escreve a de Mapplethorpe. A divisão em capítulos explora cinco momentos que sintetizam as diferentes fases vividas pelos dois: “Filhos da Segunda-Feira”; “Só Garotos”; “Hotel Chelsea”; “Juntos em Caminhos Separados”; e “De Mãos Dadas com Deus”.

Patti aborda inicialmente a sua infância, que se passou parte em Chicago, parte em Nova Jersey, com uma criação simples, calorosa, em que teve o início de sua paixão por livros e pela escrita. Foi durante um passeio com a família até o Museu de Arte da Filadélfia que, pela primeira vez, teve contato com um lugar inteiramente dedicado à cultura. Encantada, acredita ter compreendido, naquela ocasião, sua disposição para o mundo da arte. Restava um temor: seria ela a escolhida para o chamado artístico? Teria o dom?

Aos dezenove anos, ficou grávida de um garoto com quem não cogitava se casar. A decisão de doar o bebê a pais adotivos foi o gatilho para a reviravolta em sua vida: abandonou a faculdade de formação de professores e o horrível trabalho em uma fábrica na cidade de seus pais (execrada em sua canção “Piss Factory” – ou “Fábrica de Mijo”, em português), decidida a nunca olhar para trás. Cansada do ambiente restritivo e de pensamento limitado do interior, a partir de então, procurou se tornar, de uma maneira ou de outra, uma artista.

Solitária e perdida

Na primavera de 1967, mudou-se para Nova York. O dinheiro necessário para a viagem, encontrado dentro de uma carteira esquecida em uma cabine telefônica, foi o sinal encorajador do destino. Patti, assim, saiu em busca de seu sonho por empregos instigantes, amigos e muitas oportunidades.

As primeiras semanas, contudo, não foram como esperava. Solitária e perdida em meio a uma cidade imensa e vibrante, permaneceu um tempo sem conseguir trabalho, sem ter o que comer e onde dormir. Ainda assim, considerava que a liberdade obtida por estar ali era seu maior presente, e continuava a busca, até que finalmente conseguiu uma vaga como caixa de uma livraria. A sorte estava começando a virar.

Desde cedo, inspirada pelos livros que lia, idealizava a vida na “fraternidade dos artistas”: ansiava pelo modo de vestir, pelas produções, até mesmo pelos dias restritos, de pouco dinheiro e posses. Além disso, fantasiava ser parte de um casal como Frida Kahlo e Diego Rivera, parceiros na vida e no trabalho criativo.

Como o universo costuma ouvir os pedidos a ele direcionados, Patti encontrou Robert Mapplethorpe enquanto tentava escapar de um encontro malsucedido com um cliente da livraria. Sem pensar duas vezes, mentiu que o rapaz era seu namorado e, assim, começaram juntos uma história que duraria o resto de suas vidas.

Nascido em 1946, no distrito do Queens, em Nova York, Mapple­thorpe teve uma criação fortemente católica. De família tradicional, sua infância se pautou pelo apego à mãe e o precoce fascínio pela beleza. Estudou design gráfico na Univer­sidade de Pratt e dividia com Patti a paixão pela arte. Também sozinho na cidade, seu comportamento evidenciava a busca por um caminho na mesma direção em que o de Patti seguia.

Os dois passaram a se apoiar mutuamente, dividindo o pouco que conseguiam em meio à pobreza contínua. A roqueira descreve as várias vezes em que precisaram escolher entre comer ou comprar algum material de trabalho — lápis, canetas, magazines para recortes. Em grande parte delas, a segunda opção era a privilegiada. “Tínhamos nosso trabalho e um ao outro”, afirma. A estrela azul era o símbolo de seu destino juntos.

Logo percebeu o grande talento de Mapplethorpe, no qual ele mesmo acreditava de forma veemente. É descrito por Patti como alguém ao mesmo tempo másculo e protetor, feminino e submisso. Seu modo de se vestir e se portar eram meticulosos, assim como sua técnica de trabalho, que foi se aprimorando com o tempo.

Mapplethorpe produzia colares, brincos, desenhos, gravuras, mandalas. Fazia altares e trabalhava com símbolos religiosos e de magia. Logo também começou seu interesse pelas revistas de nudez masculinas, com as quais fazia montagens.

Hotel Chelsea

Foco principal do livro, a relação dos dois teve estágios diversos. As descobertas pessoais foram acontecendo em paralelo ao desenvolvimento de suas habilidades. De amantes inseparáveis a afastados pelas crises existenciais de Mapplethorpe, veio à tona o entendimento, por parte dele, de que era homossexual.

Mesmo essa revelação não os manteve separados por muito tempo, apesar dos relacionamentos que tiveram com outras pessoas. Após uma viagem de Patti para Paris, prometeram não mais se separar até que estivessem prontos para esse momento. Foi quando passaram a morar no Hotel Chelsea.

O Hotel Chelsea, no final dos anos 1960, substanciava todo o espírito daquela geração, juntamente com seus mais importantes personagens. Lá, figuras como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan, Salvador Dalí, Gregory Corso, Allen Ginsberg e William Burroughs, admiráveis para qualquer aspirante a esse meio, circulavam pelos corredores. O ambiente era apinhado deles, que eram moradores ou apenas hóspedes, em uma atmosfera de novas ideias e criação que entusiasmava o jovem casal.

Ao mesmo tempo em que explicita o universo rico que frequentava e as personalidades importantes que conheceu, Patti evidencia dois pontos: o primeiro, que, na época, muitas vezes não teve a maturidade necessária para compreender a importância do cenário que se desenvolvia e do qual já fazia parte. O segundo é que o culto à celebridade ainda estava em seus primórdios, de forma que muitos dos que hoje são lendas se portavam com relativa simplicidade naqueles dias.

Um dos grandes ídolos de Mapplethorpe, e que fortaleceu a ideia de reverência às figuras da cultura pop, era Andy Warhol. Esse aspecto demonstra sua diferença para com Patti: ela acreditava que a arte deveria criticar as manifestações de seu tempo, e não as reproduzir, a exemplo de “The Factory” (A Fábrica) de Warhol; Mapplethorpe ansiava pela fama, pelo reconhecimento público, pelo retorno financeiro por meio de seu trabalho, como via na figura de Andy.

As constantes idas ao bar Max’s Kansas City também fazem parte das tentativas de conhecer War­hol pessoalmente. O local era tido como um dos grandes redutos alternativos da cidade. Também eram vistos por lá muitos de seus protegidos: os integrantes da banda Velvet Under­ground, as pioneiras da arte drag queen (que era contra a lei, na época) Holly Woodlawn e Jackie Curtis, e a transsexual Candy Darling, estrela de dois filmes de Warhol, entre outros.

Apesar de viver em um meio historicamente conhecido por cultuar as drogas como se fossem um combustível para a produção artística, Patti se mostra alheia ao que foi uma forte característica dos anos 60 e 70. As experiências narradas foram em ocasiões muito específicas, como o dia em que colocaram LSD em sua bebida sem seu conhecimento, ou as poucas vezes em que fumou maconha.

Até o álcool é mencionado em raras passagens. Esses fatos contribuem para traçar uma imagem de certa maneira conservadora, o que é contraditório quando se considera que Patti seja uma das representantes do anárquico movimento punk.

Mapplethorpe, por sua vez, é descrito como adepto de substâncias psicoativas. De acordo com a narrativa, seu envolvimento pelo submundo de bares sadomasoquistas se intensifica, e ele chega até mesmo a se prostituir, alegando que necessitava de dinheiro, mas, aparentemente, por razões que extrapolam as financeiras.

É com a mistura de necessidade e desejo de estar submerso nesse meio que sua vida pessoal e sua expressão artística se fundem, gerando as bases para o que seria uma das mais fortes características de suas obras — o homoerotismo.

Robert Mapplethorpe (1946-1989), com quem Patti Smith compartilhou seu sonho, e que seria seu grande companheiro, incentivador e amante

Abnegação

Patti evita descrições sobre o assunto, e não dá detalhes sobre o que pensa e sente em relação à conduta do parceiro, contrastante com suas próprias atitudes perante a vida e com a perspectiva primordialmente monogâmica que parecia seguir. Era uma é­poca em que o a­mor livre constituía uma filosofia de vida com forte representatividade.

Contudo, em muitas passagens, o leitor se questiona se Patti não estaria suavizando as atitudes do companheiro, com o objetivo de preservar a imagem do mesmo. No fim das contas, a promessa era de escrever um livro sobre os dois. Mas parece que mais do que explicitar toda a verdade, a escritora prefere conservar a ideia que buscou desde que deixou sua terra natal: a de fazer parte de um casal de artistas.

Apesar de destacar a constante preocupação de Mapplethorpe com dinheiro e o sustento de ambos, foi Patti a provedora na maior parte do tempo em que estiveram juntos. Tinha empregos fixos, que complementava com críticas de álbuns escritas para revistas, compra e revenda de objetos em sebos, economia com transporte, voltando do ofício a pé para casa. Em alguns momentos parece, inclusive, valorizar mais a carreira dele do que a própria, pois não se importava em trabalhar o dia todo para que ele ficasse em casa às voltas com suas criações.

O questionamento sobre a conduta de Mapplethorpe é inescapável ao leitor. Desde o início da leitura, apesar das tentativas de Patti em atenuá-la, o sentimento que fica é o de incômodo. A sensação é de que ela sempre foi o esteio de ambos, e em muitos momentos o que parece é que, percebendo sua fragilidade e carência, aquele acabava por sacrificá-la em benefício do objetivo que perseguia com tanta obstinação. Sem a luta, o esforço e, em muitos momentos, a renúncia de Patti, só é possível concluir que nenhum dos dois teria chegado a lugar algum.

No fim, Patti é verdadeiramente a grande artista do livro. Apesar de sua personalidade introspectiva, com frequência chamava mais atenção que Mapplethorpe nos meios sociais, fosse pelo seu corte de cabelo, feito no banheiro do Hotel Chelsea, fosse por seus desenhos, poemas ou mesmo pela representação na única peça de teatro de sua carreira. Teria ela o dom? Sua carreira com trabalhos tão diversificados e reconhecidos mostram que é uma das artistas mais completas da atualidade.

O papel de Robert Mapple­thorpe, contudo, não pode ser esquecido: foi ele o grande incentivador do trabalho de Patti. Foi o primeiro a encorajá-la a cantar, e insistiu até que concordasse em apresentar seus poemas nos chás com microfone aberto que aconteciam ocasionalmente na cidade. No decurso desses eventos, ela começou, pouco a pouco, a incrementar as suas apresentações, inserindo um guitarrista, aperfeiçoando a performance, até chegar ao ponto de montar sua própria banda, Patti Smith Group.

A fama, enfim

“Jesus died for somebody’s sins but not mine” (“Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus”), frase que abre seu primeiro álbum, “Horses”, é uma declaração da autonomia e responsabilidade sobre seus próprios atos.

Composto por canções majoritariamente autobiográficas, o trabalho teve críticas positivas em seu lançamento, e conseguiu um su­cesso co­mercial modesto, mesmo com a pouca divulgação nos meios de comunicação. A icônica foto da capa, de estilo ao mesmo tempo simples e intenso, foi tirada por Robert.

Um dos pontos altos da carreira de Patti foi a música gravada com Bruce Springsteen, “Because the Night”, que chegou ao 13º lugar nas listas da Billboard. Quando soube desse fato, num misto de orgulho e inveja, Mapplethorpe comentou: “Patti, você ficou famosa antes de mim”.

O colecionador de arte Sam Wagstaff foi apresentado a Map­ple­thorpe por conhecidos em comum. Cada um tinha algo que atraía o outro. Mapplethorpe tinha o talento, e Sam, a disposição necessária para ser seu mecenas. Foi esse homem mais velho e já resolvido com sua sexualidade que permitiu que o trabalho do rapaz chegasse à plenitude.

O investimento em câmeras fotográficas, equipamento e obras foi a manifestação de como Wagstaff amava o trabalho de Mapplethorpe, que, antes, era feito com uma Polaroid dada por uma amiga.

As primeiras páginas do livro contam a morte de Mapplethorpe por aids, e formam um elo com o último capítulo, descrevendo o processo cíclico que resume sua vida. Conseguiu a carreira de sucesso com a qual tanto sonhou, em que fotografou personalidades como Carolina Herrera, Paloma Picasso, Iggy Pop e Arnold Schwarzenegger e até seu grande ídolo, Andy Warhol.

Com uma técnica apurada e majoritariamente em preto e branco, pretendia “elevar aspectos da experiência masculina, imbuir a homossexualidade de misticismo” – e muitos acreditam que alcançou esse intento.

Em seus últimos dias de vida, fez registros de Patti, já casada com Fred Smith, e sua filha recém-nascida. Ao analisar as fotos, o marido da cantora comentou: “Não sei como ele faz isso, mas, em todas as fotos que fez de você, você está se parecendo com ele”. E, assim, em 9 de março de 1989, seus caminhos se separam para se reencontrarem, algum dia, em sua estrela azul.

“Em um dia de veranico vestimos nossas roupas favoritas, eu com minha sandália beatnik e uma velha echarpe, e Robert com suas amadas miçangas e o colete de ovelha. Pegamos o metrô até a West Fourth Street e passamos a tarde na Washington Square. (…). Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho.

‘Oh, tire uma foto deles’, disse a mulher para o marido distraído. ‘Acho que são artistas’.

‘Ora, vamos logo’, ele deu de ombros. ‘São só garotos’.”

Flávia MF é graduada em Relações Internacionais (PUC-GO), em História (UnB) e mestranda em Educação (UFG)

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