Jornalista a cavalo: brasileiro lança livro sobre cavalgada de 13 mil quilômetros

A aventura desmedida e cheia de cintilantes emoções do caubói que viajou do Canadá ao Brasil montado a cavalo, com apenas um curto percurso (proporcionalmente) pegando avião

Filipe com um de seus cavalos: ele e os três animais foram recebidos como heróis em Barretos, a capital do rodeio no Brasil, depois de uma aventura atravessando dez países | Foto: Reprodução

Entre 2012 e 2014, o brasileiro Filipe Masetti Leite, de 30 anos, atravessou dez países, viajando 16 mil quilômetros, do Canadá ao Brasil, com seus cavalos. De toda essa extensão, ele cavalgou mais de 13 mil quilômetros. Da Costa Rica ao Peru, teve de pegar avião com os animais porque seria impossível atravessar a região selvagem de Darién, no Panamá, conhecida como barreira natural entre as Américas do Norte e do Sul.

Do Peru, ele e os cavalos vieram de caminhão até Corumbá, na fronteira do Brasil com a Bolívia, de onde retomaram a marcha, cavalgando até chegar a Barretos, onde foram recebidos com festa e loas de heróis.

A aventura inteira foi narrada no livro “Cavaleiro das Américas: A Incrível e Inspiradora Jornada de um Brasileiro e Seus Cavalos do Canadá até Barretos” (Harper Collins, 2017, 328 páginas), que será lançado em Goiânia na quinta-feira, na Livraria Saraiva. O texto é bem apurado, com uma dicção marcada pelo ritmo da narrativa americana.

A jornada de Filipe alternava en­tre a solidão absoluta e a companhia de pessoas interessantes que preenchiam o vazio das longas distâncias, desde os familiares que iam ao seu encontro a almas muito boas que o acolhiam nas fazendas e vilarejos.

Para realizar a viagem, Filipe le­vou dois anos de planejamento, en­quanto trabalhava limpando mesas de restaurantes. Ao longo do trajeto, ele usou seis cavalos: Daredevil, Clyde, Texas, Bruiser, Frenchie e Dude (três de cada vez); os três últimos chegaram ao Brasil. Os outros ficaram pelo caminho, mas não morreram, só foram trocados por razões de necessidade, segundo consta nos relatos.

Vai morrer
Obviamente, não foram só flores na viagem. As dificuldades eram tantas e tão visíveis que Filipe ouviu várias vezes pessoas dizerem que temiam por sua morte pelo caminho. Ainda no Canadá, pouco antes de partir, teve problemas com os cavalos recém-apresentados. O dono do haras lhe disse: “Fique aqui e treine com esses cavalos. Você vai morrer nas estradas.”

Em outra passagem, mais adian­te, uma mulher que ele co­nheceu no Novo México, nos EUA, disse: “Quando soube da sua viagem enquanto você estava ainda em Montana, disse pra mim mesma: ‘se esse garoto chegar ao Novo México vivo, vou cavalgar com ele.’”

Nenhuma dessas pessoas conhecia a fortaleza construída em torno do sonho de Filipe, tampouco sabia que tipo de preparação havia por trás de toda aquela vontade. Antes da partida, ele adquirira a consciência da aventura e a linguagem de aventureiro. Buscou os mais experientes, pediu conselho, sugestão. Foi prudente.

Sabia o que estava fazendo. Não era só impulso e espírito. Era também articulação mental, exercida desde a infância, e coragem. Embora a coragem de vez em quando se espalhasse pela seara do medo. Apesar de pregar a bravura de espírito acima de tudo, o valente cavaleiro também descreve seus momentos de pavor.

Teve medo de ser “brutalmente assassinado no México”, pelos cartéis, e se sentiu aterrorizado em Honduras, com a sensação de que levaria um tiro a qualquer momento, ao ter de cavalgar com traficantes que mandavam na cidade de La Luna, onde todos andavam armados, até crianças de dez anos, incluindo o homem em cuja casa Filipe ficou, sendo muito bem recebido, aliás.

Boas pessoas

A jornada de Filipe alternava entre a solidão absoluta e a companhia de pessoas que preenchiam o vazio das longas distâncias, de familiares que iam ao seu encontro a almas acolhedoras | Foto: Reprodução

Filipe partiu de Calgary, no Canadá, e atravessou EUA, México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Peru, Bolívia e Brasil. A travessia do México foi tão longa e aventurosa que nosso cavaleiro começou na página 119 e só cruzou a fronteira na página 198.
Entrou na Nicarágua com uma carga imensa de histórias de coragem e temor para contar. A essa altura já havia passado por “montanhas, rios, desertos, neve, florestas e muitos vilarejos e cidades.” Ainda no Canadá, comera testículos de novilhos assado, num prato chamado “ostras da pradaria.”

No Estado americano de Wyoming, passara por uma cidadezinha de 25 habitantes, Savery, que tinha museu e jornal local. No Texas, havia sentado sobre um cacto, enchendo a bunda de espinhos. Pequenos dramas e comédias como estes relatos se misturam a macrodramas, como frio, calor, sede, medo da violência e muitas histórias comoventes de solidariedade.
Seu livro nos mostra uma faceta tida como esquecida da humanidade, pessoas dotadas de generosidade. Gente de prontidão para ajudar, de coração aberto. São inúmeras as passagens em que Filipe comenta sobre as abordagens e convites para passar a noite, uns dias, ficar por lá, enfim.

Em uma entrevista por e-mail para o Jornal Opção, Filipe diz que nessa viagem aprendeu “que 99% das pessoas são boas. A cada 30 quilômetros, eu precisava de apoio, de todo tipo; desde algum ser humano a me ajudar com água para os cavalos, até um lugar para dormir ou comida. Essa jornada me mostrou o verdadeiro espírito da humanidade”, diz.

Ritos e gestos
Quem atravessa países, atravessa culturas, descobre novos hábitos, outros ritos, novas maneiras de ler o mundo. “A quatro quilômetros por hora, no alto do lombo de um cavalo e em silêncio, é possível realmente sentir os lugares por onde se passa”, diz o caubói jornalista.
Entre os incontáveis aprendizados, o encontro com novas perspectivas culturais deixou muitas marcas na memória de Filipe. Nos EUA, o que o mais encantou foi o modus vivendi dos pecuaristas. “Várias vezes participei de castrações nos ranchos, em que cowboys e cowgirls da região se reuniam para laçar, castrar e vacinar os animais, e depois celebravam com um almoço gigantesco e muita cerveja gelada”, diz Filipe, no e-mail.

Do México para baixo, cativam “o calor humano, a música, a arte, a culinária, a felicidade de viver. No México, sofri muito com a comida apimentada, mas aprendi a amar a música rancheira.”

“Na Guatemala, fui ver as pirâmides de Tikal, que foi um dos maiores centros populacionais e culturais da civilização maia. No Peru, me fizeram comer um porquinho da índia. Costume na região mon­tanhosa. Foi terrível”, exclama. O livro de Filipe pode ser uma boa maneira de se começar a cavalgar, mesmo que seja num Rocinante imaginário.

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