Jorge Amado é tema de livro de memórias familiar

Escrita pelo sobrinho Roberto Amado, obra constrói painel de momentos que revelam intimidade do autor baiano

Por Luiz Prado

“Tio Jorge e séquito iluminavam nossa casa de alegria, de histórias e passagens engraçadas, de muita confusão com a imprensa, com estudantes e curiosos, e enfim, a vida se transformava numa festa permanente. Jorge não era apenas uma celebridade admirada e adorada. Era carismático. Por onde ia, as atenções voltavam-se para ele e ele nunca se negava a tratar bem e carinhosamente a todos.”

Esse é o tom afetuoso, leve e íntimo que percorre Jorge Amado, meu tio, livro de memórias de Roberto Amado. Escritor, jornalista e doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP com uma tese sobre o romance da década de 1930 centrada em Jorge Amado, Roberto resolve agora registrar memórias íntimas de quase quatro décadas de convivência com o tio.

O autor esclarece logo no início da obra que não pretendeu escrever uma biografia exaustiva, mas compor um painel com suas próprias memórias. Em vez das tradicionais pesquisas documentais, entrevistas com familiares e a famigerada tentativa de isenção do escritor, o caminho adotado por Roberto foi o das lembranças e julgamentos pessoais, temperados de saudade, admiração e histórias cotidianas que revelam Jorge Amado em sua intimidade familiar.

“Verdade que a memória é fugidia, traiçoeira, inventiva, descomprometida”, justifica-se Roberto no prólogo do livro. “Memórias se confundem com a ficção e esta é talvez a beleza literária delas. Isso não quer dizer que os fatos aqui narrados não aconteceram. São todos verdadeiros. Apenas são memórias de um autor, exercendo sua autoria, e não um pesquisador atrás da precisão dos fatos.”

Ao transitar pelos capítulos organizados por temas, o leitor conhece a trajetória do escritor baiano não de maneira linear, mas através de recortes daquilo que Roberto considera os aspectos mais significativos da vida de Jorge Amado. Estão lá a militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), sua passagem pela Câmara dos Deputados e a desilusão com o stalinismo, o sucesso internacional de Gabriela, cravo e canela, a amizade com outros grandes nomes da cultura como Vinicius de Moraes e Carybé, o exílio político na França e na Tchecoslováquia, a história com a esposa Zélia Gattai e a convivência com os irmãos e, sobretudo, com o próprio sobrinho Roberto.

“Nesse momento, aconteceu um fato marcante na minha vida, do qual tio Jorge foi testemunha e permaneceu como mais um segredo entre nós dois”, relembra o autor durante uma passagem do livro. “Apareceu na minha vida a primeira deusa que conheci e reconheci como tal. Pena que não lembro o nome dela e, ao longo de todos esses anos, não me preocupei em fazer pesquisas sobre ela para que a fantasia não se desvanecesse. Quem apareceu porta adentro foi a então mulher de Vinicius [de Moraes] – uma morena linda de olhos verdes e um corpo digno da mais bela criação literária do poetinha. Uma deusa. Pelo menos no olhar do menino de precoce sexualidade. Fiquei embasbacado com a visão da musa e tio Jorge percebeu imediatamente. Começou a emitir uma série de sinais eloquentes apenas com o olhar que me lançava, erguendo a sobrancelha, girando a íris pelo globo ocular, fazendo uma espécie de mímica safada que para bom entendedor dispensa palavras. Safadezas era com ele mesmo.”

São essas pequenas histórias cotidianas que dão força e relevância para o volume, ao registrar facetas do Jorge Amado só capturadas por olhares privilegiados, como sua fixação por sapos, traduzida pela coleção de versões do anfíbio em pedra-sabão, ferro, madeira e papel, espalhadas por sua casa no Rio Vermelho, na Bahia. Ou então o afeto familiar testemunhado pelo jovem sobrinho acompanhando a sessão de autógrafos de Dona Flor e seus dois maridos em São Paulo:

Foi uma noite marcante. A pequena livraria estava lotada e uma enorme fila saía do seu interior e se perdia rua afora. Tio Jorge estava numa pequena mesa, com uma pilha de livros, tia Zélia ao seu lado. Eu observava de longe. Ele parecia muito ocupado, falando com as pessoas, mas lançava olhares para sua família, como se tivesse pedindo apoio. Nossos olhares se cruzaram algumas vezes e lembro que ele fazia uma espécie de careta divertida para mim. Sua mão direita estava negra, talvez de tinta.”

Essa cumplicidade é o que também inspira Roberto a desfiar considerações sobre sentimentos e atitudes do tio, amparado na longa convivência e proximidade familiar. É o caso do prêmio Nobel de Literatura que nunca veio e para o qual Jorge Amado fora mais de uma vez cotado nas apostas:

“Tio Jorge foi sempre comedido ao abordar esse assunto e assumia uma humildade exagerada, na minha opinião. Dizia que não era merecedor do prêmio, muito embora já tivesse ganhado praticamente todos os prêmios literários mais importantes do mundo. Nos momentos mais íntimos, no entanto, eu sentia um certo amargor da parte dele por não ter sido escolhido. Esse era o prêmio que ele queria de fato ganhar e trocaria todos os que acumulou ao longo da vida pelo Nobel. Não só pelo dinheiro, pelo prestígio ou pela fama. Mas principalmente porque ele e todos nós da família, e também muitos leitores e críticos, acreditávamos que o escritor Jorge Amado mais do que ninguém o merecia.”

A saída do PCB também é tema dessas interpretações de Roberto. Membro ativo do partido durante as décadas de 1940 e 1950 – tendo sido inclusive deputado constituinte no brevíssimo período em que o Partidão esteve legalizado, logo após a queda de Getúlio Vargas ao final da Segunda Guerra Mundial –, Jorge Amado abandonou a militância quando as denúncias contra o stalinismo começaram a aparecer. Segundo o sobrinho, o escritor jamais deixou de se considerar um socialista, mas guardava sentimentos agridoces de seu período engajado:

“Nas vezes em que conversamos sobre o assunto, sobre o fato de ele ter se afastado tanto do Partido Comunista, ele se transformava. Adquiria um olhar distante, como se estivesse vendo cenas do passado e se emocionava de maneira discreta. Dava para perceber que era uma emoção confusa, uma mistura de sentimentos bons e ruins cicatrizados ao longo de uma etapa da vida, da juventude, de seus primeiros momentos de sucesso.”

Obviamente, é impossível para o leitor esquecer toda a fama e o talento que orbitam o nome de Jorge Amado. Se o relato de Roberto humaniza o escritor, as histórias prosaicas e as hesitações servem mais para complexificar sua figura do que diminuí-la. Apresentado como um homem comum, generoso, bem-humorado e ligado à família, o Jorge Amado de Roberto não deixa de ser uma figura que causa admiração – agora, pelo conjunto da obra.

“Por mais que ele fosse famoso, assediado constantemente, admirado com gestos intensos de afeição, por brasileiros e estrangeiros, nós, no convívio familiar, não o encarávamos como celebridade. A sensação é de que ele era a nossa celebridade, exclusiva. Por trás dele, sim, havia o grande escritor, o grande brasileiro, o grande homem. Mas isso estava em segundo plano. Em primeiro plano estava aquele tio maluco, generoso, carinhoso e muito divertido.”

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