John Reed, o primeiro escritor jornalista moderno

O repórter americano esteve no México de Pancho Villa e estava na Rússia no período da Revolução Russa de 1917, que retratou num livro clássico

Carlos Russo Jr.

John Reed: repórter que acompanhou a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Mexicana e a Revolução Russa | Foto: Reprodução

Walter Lippmann, o editor da revista “New Republic”, escreveu, em dezembro de 1914, uma matéria intitulada “O gegendário John Reed”, numa tentativa de desacreditar aquele que, sem a menor sombra de dúvida, era o melhor escritor-jornalista de seu tempo: “Por temperamento, ele não é um escritor profissional ou repórter. Ele é uma pessoa que gosta de si mesmo” E desferiu um golpe: “Reed não é imparcial e tem orgulho disso”. Reed respondeu-lhe: “Se imparcialidade significa conivência com a elasticidade na versão dos fatos contados pelos poderosos e pelos sanguinários, então sou parcial, pois estou sempre do lado da verdade e da civilização”.

John “Jack” Reed (Johh Silas Reed — 1887-1920; viveu 32 anos) nasceu numa rica e influente família de políticos e magistrados do Oregon. Inteligente e astuto, amante de livros, muito prometia desde a infância e por isso foi enviado a Harvard destinado a ser um cortejado advogado, quiçá um congressista.

É claro que, em 1910, jamais seus parentes imaginariam que o jovem Reed um dia seria o primeiro jornalista realmente moderno, suas matérias disputadas pelos mais importantes jornais e revistas, escritor e, sobretudo, um socialista.

Jack era um jovem que gostava de conviver com as pessoas, comer, escrever, beber, nadar, jogar futebol americano, poetar. E gostava de gente do povo, por isso distanciava-se de seus colegas de “família”, curtia mesmo encontrar-se com vagabundos, trabalhadores, gente distanciada da roda da fortuna. Profissionalmente, o adulto foi mudando… Após concluir seus estudos deixou a advocacia pelo jornalismo, começando por participar em uma revista política, a “Masses”, e no prestigioso jornal “The Metropolitan Magazine”, como repórter.

Em Massachusetts, mais de 25 mil operários entravam em greve, exigindo jornada de oito horas de trabalho. A repressão policial não economizava cacetadas e espadadas. O Reed repórter juntou-se aos manifestantes. Aprendeu com os grevistas, com eles esteve preso e foi um dos organizadores do desfile de mais de uma centena de milhar de manifestantes no Madison Square Garden em defesa do direito de greve.

O Jack Reed de então acreditava plenamente “na vida, na liberdade e na felicidade”, a base da declaração de Independência Americana e de sua Constituição.

Após Massachusetts, foi enviado ao México para cobrir a Revolução Mexicana de Pancho Villa. Em pouco tempo, tornou-se próximo do líder revolucionário. Os relatos apaixonados de Reed ajudaram a espalhar a notícia da revolta. Em contrapartida, foram os cactos, as montanhas rochosas, as morenas risonhas, a maldita poeira, a horrível cadência dos tiroteios na noite, os peões de voz delicada morrendo e matando, que ensinaram Jack como descrever as sublevações.

De sua experiência, de seus relatos jornalísticos, surgiria seu primeiro livro. “México Insurgente” (Boitempo, 336 páginas, tradução de Mary Amazonas Leite de Barros e Luiz Bernardo Pericas), editado em 1910.

Assim que Reed regressou aos Estados Unidos, no Colorado ocorreu um massacre. Mineiros em greve foram abatidos pela Guarda Nacional a mando da família Rockefeller. E lá estava Reed e os acontecimentos de uma verdadeira guerra entre classes sociais foram para sempre registrados num segundo livro, “A Guerra do Colorado”.

Foi num comício de protesto que Jack conheceu Emma Goldman, e ela seria sua fonte permanente de inspiração tanto para o forte movimento feminista americano, quanto para o anarquismo libertário de inspiração bakunista. Reed tornou-se, em seguida, membro do Partido Socialdemocrata Norte-Americano.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) encontrará o repórter John Reed na Europa. Escreveu: “Aqui estão nações que se lançam aos pescoços umas das outras como cães… e a arte, a indústria, o comércio, a liberdade individual, a própria vida são taxadas para sustentar monstruosas máquinas de morte!” Mesmo porque “guerras são feitas pelo lucro, não por ideais”.

Os grandes periódicos de Nova York disputavam suas reportagens de cobertura direta dos conflitos. Ele fechou contrato com a revista “The Metropolitan”. Esteve nos Países Baixos e na Alemanha, depois na França e nos Balcãs, presente nos campos de batalha: chuva, lama, destruição, dor, cadáveres.

Se alguém quisesse saber como era a guerra bastava ler seus artigos presenciais acerca da frente alemã, da retirada da Sérvia, por trás das linhas do abalado Império Czarista.

Acontece que Reed não tinha um lado. Seu lado era o dos alemães, dos franceses, dos russos, dos búlgaros, de todos aqueles que tinham seus corpos estraçalhados… Por que, afinal, que importava para que lado armas destruidoras de vidas apontassem? Os “donos da guerra” só queriam poder e dinheiro.

Em 1916, de volta aos EUA, editou seu terceiro livro: “A Guerra nos Balcãs”. Aos incessantes discursos sobre preparativos militares norte-americanos contra “o inimigo europeu”, ele respondeu que o verdadeiro inimigo para o trabalhador eram os 2% da população que recebiam 60% da riqueza nacional. “Nós defendemos que o trabalhador prepare-se para se defender do inimigo. Mas o verdadeiro inimigo está aqui, em Norte-América. Esse deve ser nosso preparativo.”

John Reed e Louise Bryant: união gerou escândalo | Foto: Reprodução

Foi naquele ano que John Reed conheceu Louise Bryant, escritora e, também, libertária; eles se apaixonaram imediatamente. Louise separou-se do marido e foi morar com Reed em Nova York. O escândalo na sociedade conservadora foi ainda agudizado por declarações de Reed na defesa do “amor livre”.

Quando, em abril de 1917, o presidente Woodrow Wilson pediu que o Congresso declarasse guerra à Alemanha, Reed escreveu: “A guerra significa histeria coletiva, crucificando os defensores da verdade, sufocando os artistas… Esta não é nossa guerra”.

Ao mesmo tempo, chegavam da Rússia as mesmas notícias que haviam pegado Lênin no seu exílio suíço de surpresa: o czar fora deposto e uma revolução estava em marcha. “Finalmente, toda uma população se negou a continuar a carnificina e se revoltou contra a classe governante”, escreveu Reed.

Com Louise Bryant partiu para a Finlândia, onde foi preso e todos seus papéis roubados. Por interferência dos socialistas russos, conseguiu novo visto e seguiu viagem para Petersburgo.

A coisa séria

A revolução avançava à sua volta com operários tomando o poder nas fábricas, soldados recusando-se a combater, manifestando-se contra a guerra e organizando os próprios sindicatos. O Soviete de Petersburgo elegeu uma maioria bolchevique. Afinal, entre 6 e 7 de outubro, ocorreu a tomada das estações ferroviárias, telégrafo, telefone e correios, e os trabalhadores e soldados concentravam-se junto ao Palácio de Inverno. Era nem mais nem menos, a Revolução Socialista.

“As janelas do Smolny (onde se instalara o Soviete) refulgem, ao rubro branco, como a bocarra de um forno, pois não se dorme em Smolny. Smolny, o laminador gigante, funcionando 24 horas, laminando homens, nações, esperanças milenárias, impulsos, temores”.

Jack rapidamente se tornou próximo dos dois maiores líderes soviético: Lênin e Trotski. E correndo de cena em cena tomou notas com uma velocidade incrível, reuniu cada folheto, cartaz e proclamação e, então, no início de 1918, voltou aos EUA disposto a escrever sua maior história.

Com o prefácio de Lênin, o livro “Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo” (Companhia das Letras, 504 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg) ganhou uma primeira edição americana. O livro é não somente um testemunho vivo narrado no calor dos acontecimentos da Revolução Russa de 1917, como também a obra que inaugurou a grande reportagem do jornalismo moderno, eleito pela Universidade de Nova York como um dos maiores livros do século 20. Um ano após, surgiria a edição soviética, prefaciada também por Lênin e por sua mulher, Krupskaia.

Reed percorreu os Estados Unidos de ponta a ponta palestrando tanto sobre a Grande Guerra (a Primeira) quanto sobre a Revolução Russa, ambas por ele vivenciadas. Em setembro de 1919, depois de falar a uma plateia de 4 mil pessoas, Reed foi preso por desencorajar o recrutamento obrigatório nas Forças Armadas.

Uma vez em liberdade Jack Reed tornou-se elemento ativo na formação do Partido Comunista dos Trabalhadores Americanos e viajou à URSS como um de seus delegados para um encontro internacional: era o tempo da formação da Terceira Internacional.

John Reed: repórter atento aos fatos internacionais | Foto: Reprodução

Em Moscou, Reed encontrou sua grande amiga e companheira política, a anarquista Emma Goldman e escutou seu desabafo em relação a certos rumos que a revolução tomava. Logo, Jack se incorporou àqueles que se preocupavam com os rumos do governo dos bolcheviques, tais como com a necessidade de eleição de novos sovietes (a qual jamais ocorreria), a necessidade democrática de inclusão de partidos socialistas e grupos anarquistas nos novos sovietes (grupos que seriam exterminados inclusive fisicamente ainda nos anos 1920), assim como a necessidade de maior liberdade econômica para camponeses e operários e a restauração de direitos civis para todos os trabalhadores.

John Reed acreditava que o comunismo traria uma real democracia para a maioria da população. Repugnava-lhe que a ditadura exercida em nome do proletariado persistisse uma vez vencida a terrível guerra civil. Reconhecia, entretanto, que de todos os modos, a primeira república dos trabalhadores estava e permanecia em pé. Vencia uma pugna de morte contra quase todas as potências mundiais. E isto era o mais importante.

John Reed: o jornalista viveu apenas 32 anos | Foto: Reprodução

John Reed correu de reunião a reunião, de uma conferência em Moscou a uma reunião no Mar Negro e foi em sua passagem por Petersburgo que contraiu o impaludismo. Ficou doente, febril e delirante. Em outubro de 1920, ao lado do amor de sua vida, Louise Bryant, aos 32 anos, morreu em um hospital de Moscou.

Após a morte de Lênin, em 1924, o livro “Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo” foi condenado ao ostracismo na URSS por dezenas de anos, graças à sua não ortodoxia política. Nele torna-se claro que, contrariando a historiografia oficial soviética, Lênin e seu partido não criaram e tão pouco dirigiram o movimento de massas revolucionário de Petersburgo, mas souberam reconhecer o potencial da revolta espontânea, assumiram uma posição de liderança e ascenderam ao poder graças a isto, repetindo as palavras de ordem que o povo queria ouvir: pão, terra e paz.

Nos anos de 1960, após a abertura política de Kruschev, o livro ganhou um enredo teatral e foi encenado pelo grupo Taganká, em Moscou, sob a direção de I. Liubimov. O sucesso obtido foi tão grande que o tempo mínimo para se conseguir um ingresso chegou a ser de três meses, e isto por mais de dois anos. Calcula-se que meio milhão de espectadores assistiu ao espetáculo teatral.

Os principais livros de Reed seriam, na segunda metade do século 20, enormes sucessos de público e crítica. Em 1973, “México em Chamas”, sob a direção de Paul Leduc. Em 1982, “México Insurgente”, uma coprodução ítalo-mexicana-soviética, recebeu um Oscar.

“Reds”, produzido por Warren Beatty, foi uma das maiores bilheterias de 1981, quando trouxe às telas a vida e a carreira do escritor-jornalista e revolucionário John Reed. Beatty, que personifica Reed, contracena com Diane Keaton e Jack Nicholson, num verdadeiro épico cinematográfico moderno.

Carlos Russo Jr. é crítico literário.

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