Jessica Jones mostra como sustentar uma série de super-herói sem uma “overdose de lutas”

Nova produção da Netflix consolida o mundo underground de Hell’s Kitchen, apresentado ao público por Demolidor, e cria expectativas para o futuro da Marvel nos cinemas

Arco “Alias”, da linha Marvel Max e que mostra a história de Jessica Jones abordada na série, foi lançado no Brasil pela Panini Comics, em 2003 | Reprodução

Arco “Alias”, da linha Marvel Max e que mostra a história de Jessica Jones abordada na série, foi lançado no Brasil pela Panini Comics, em 2003 | Reprodução

Marcos Nunes Carreiro

A Netflix lançou, na semana passada, a primeira temporada de “Jessica Jones” e a internet logo veio abaixo com várias críticas a respeito do novo produto da Marvel — algumas inclusive trataram a série como a que tem potencial para ser a melhor produção de super-herói já feita. Acredito não ser para tanto. Depende de quem assiste.

“Jessica Jones” veio para consolidar o mundo underground da Marvel apresentado por “Demolidor” no início deste ano. As duas séries se passam em Hell’s Kitchen, bairro de Nova York que também será compartilhado com “Luke Cage”, terceiro seriado da Marvel produzido pela Netflix e cuja data de lançamento está marcada para abril de 2016.

Os três super-heróis — Jessica Jones, Demolidor e Luke Cage — destoam das figuras clássicas dos outros heróis e a prova disso é a presença de intenso sofrimento em suas vidas. Veja Jessica: ela é uma super-heroína que não sabe lutar e que passa nove episódios, de 13, fugindo do vilão da série, se embebedando e sofrendo por suas ações. A razão disso: a trama de “Jessica Jones” é psicológica e tem como centro o trauma da heroína.

Jessica Jones é a personagem que abre o arco Alias (2001), um dos primeiros títulos da linha de HQs Marvel Max, destinada ao público adulto e que mostra o lado de menos glamour do mundo dos super-heróis. “Alias” é também o nome da empresa de investigações da qual Jessica é dona (veja recorte da HQ nesta página), termo que foi traduzido para português como Codinome Investigações. No Brasil, o arco foi lançado pela Panini Comics, em 2003.

Assim como em “Demolidor”, a série não gasta tempo mostrando como Jessica, personagem vivida por Krysten Ritter, ganhou sua incrível força e sua capacidade de voar — sim, ela voa. Aliás, pouco disso é mostrado. O foco é em deixar claro a quem assiste que seus poderes representam um pano de fundo, algo que está na superfície e que deverá ser explorado mais à frente.

Isso pode ser provado de duas maneiras. A primeira: nos nove episódios iniciais, o seriado é marcado por portas abertas. Jessica apenas abre as portas; nunca as fecha. Trata-se da parte da adaptação que visa dar luz à vida da personagem. O espectador precisa entender o porquê de seu trauma. Quando isso fica claro, Jessica começa a fechar as portas.

Há uma cena icônica: aos oito minutos do episódio 11, Jessica e Luke saem de sua casa, mas o vidro da porta está quebrado. Ela, que não havia trancado nenhuma porta até aqui, sai, passa a mão pelo vidro quebrado e a tranca. O que isso mostra? Que chegou o momento de a série frear o bisbilhotar na vida da personagem, começando a criar algum mistério para a segunda temporada. Isso é comprovado por Trish Wal­ker, irmã de criação de Jessica, em sua última cena na temporada, sugerindo que agora é ela, internamente, que irá desvendar o passado não mostrado da super-heroína.

A segunda prova é que os últimos quatro episódios — quando ela deixa de ser caçada e passa a perseguir — mostram isso: aumentam-se os flashbacks e o espectador começa a entender de maneira mais clara como a personalidade de Jessica foi formada. Ao começar pelo meio da história, “Jessica Jones” deixa o público sem saber quem é ela ou mesmo quem é Kilgrave, o Homem Púrpura, vilão que controla mentes. E isso é tão claro, que o rosto do vilão só é mostrado no fim do terceiro episódio.

O que não é mostrado: Kilgrave (David Tennant) assume o controle da mente de Jessica e a mantém assim durante aproximadamente oito meses. Nas HQs, Jessica era conhecida como Safira e Kilgrave era um dos antagonistas do Demolidor. Após se livrar do controle do vilão, Jessica abandona a vida de super-heroína e se torna investigadora particular. Esta parte é mostrada na série; aquela, apenas citada. O trauma de Jessica também serve de ligação para a entrada de Luke Cage (Mike Colter), herói de pele impenetrável e uma força comparável à de Jessica. Nos quadrinhos, os dois personagens acabam se casando e tudo indica que o mesmo deva ocorrer em um futuro distante da adaptação.

Como Jessica não sabe lutar, as cenas de luta são, no geral, fracas. Por isso, o forte da série é a trama psicológica, que prende o espectador. Não tenha uma má compreensão, leitor. Não critico aqui a presença de lutas, afinal, elas são parte importante em uma história de super-herói, mas não essenciais. Em “Demolidor”, por exemplo, as cenas de luta, aliadas a um roteiro muito bem escrito e a uma fotografia impecável, são aquilo que mantém o espectador assistindo — muitas vezes em maratona.

Tanto que a série é responsável por uma das melhores cenas filmadas nos últimos anos, e que é justamente uma de luta. No fim do segundo episódio da primeira temporada, Matt Murdock, o Demolidor, invade o cativeiro de uma criança para salvá-la. A cena, que dura pouco mais de três minutos, se passa em um corredor apertado e mal iluminado onde Matt enfrenta oito sequestradores. A cena é linda e foi filmada em plano-sequência (ação contínua, isto é, sem cortes), mostrando o tom cotidiano, de realidade, utilizado pela Marvel para ambientar esses heróis.

Afinal, como Jessica, Matt não é um daqueles heróis capazes de derrubar cidades, como Thor ou Hulk —, ou planetas, caso do Raio Negro. Matt, Jessica e Luke são daqueles heróis-protagonistas que sangram, que sofrem, e que utilizam dessas suas fraquezas para continuar lutando. E aí está o forte das novas séries produzidas pela Marvel, em parceria com a Netflix.

Voltando a “Jessica Jones”: as ferramentas de filmagem utilizadas na série também falam muito sobre a trama psicológica, sobretudo as takes com desfoque — presentes em todos os episódios, como cenas de passagem — e os depoimentos no início do 11º episódio.

Jessica Jones é a personagem que consolida o mundo underground da Marvel e o faz da melhor maneira: com uma série voltada ao cotidiano e que tem como foco uma trama psicológica | Netflix

Jessica Jones é a personagem que consolida o mundo underground da Marvel e o faz da melhor maneira: com uma série voltada ao cotidiano e que tem como foco uma trama psicológica | Netflix

Marvel nos cinemas

A ligação entre “Demolidor” e “Jessica Jones”, as duas primeiras histórias da Marvel filmadas pela Netflix, vai além de as duas séries dividirem o mesmo bairro. Claire Temple, a enfermeira de “Demo­li­dor” vivida por Rosario Dawson, a­parece no último episódio, sugerindo que Jessica e Matt podem se encontrar no futuro. Podem mes­mo e não apenas nos seriados, mas também no cinema. Por que não?

Nos primeiros materiais de divulgação do seriado, Jessica aparece em uma rua onde, ao fundo, é possível ver uma torre exibindo o que parece ser a marca de Os Vingadores. Nas HQs, Jessica se torna parte dos Novos Vingadores nos eventos que sucedem os mostrados na primeira temporada da adaptação.

Mais: é importante lembrar que, na mesma semana do lançamento de “Jessica Jones”, a Marvel divulgou o primeiro trailer de “Capitão América: Guerra Civil”. Do lado de Steve Rogers (Chris Evans) estão, neste primeiro mo­mento: Falcão (Anthony Mackie), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e o Soldado Invernal (Sebastian Stan). Por enquanto, do lado oposto estão o Homem de Ferro (Robert Do­wney Jr.) e o Má­quina de Combate (Don Cheadle). Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Pantera Negra (Chadwick Bose­­man) também aparecem no trailer, mas tudo indica que a primeira defenderá o Tony Stark e o último ficará neutro no combate.

A questão é que, no arco da Guerra Civil das HQs, esse lado underground da Marvel fica do lado do Capitão. Entre eles: Justiceiro, Demolidor, Luke Cage e Jessica Jones. Todos sabemos que a Guerra Civil — os filmes estão marcados para maio de 2018 e maio de 2019 — envolvem um número muito grande de heróis.

Como a Marvel não tem o direito de Quarteto Fantástico e X-Men, e logo não poderão colocá-los no cinema mesmo que eles sejam parte muito importante da história, é possível cogitar que os heróis desenvolvidos nas séries apareçam nos filmes. Por que não? Assim, teríamos um número muito maior de super-heróis na batalha de Infinity War, o que daria a amplitude necessária para o caos da batalha.

Uma resposta para “Jessica Jones mostra como sustentar uma série de super-herói sem uma “overdose de lutas””

  1. Avatar Epaminondas disse:

    Maldita hora que li esta crítica: Agora vou ter que assistir Jessica Jones inteiro novamente, só para observar o lance das portas.

    E fenomenal a menção da cena do corredor do Demolidor. Eu tinha assistido um ou dois episódios do “Agents of Shield” que me criaram preconceito com seriados de heróis com a Marvel — já o nutria com os da DC, graças aos seriados-aventura Smallville, Arrow ou Flash (e nem parei pelo Supergirl). Fui assistir Demolidor sem grandes expectativas e aquela cena do corredor me devolveu esperança em seriados de heróis. Graças a ela, fiquei com expectativa por Jessica Jones — personagem menor na Marvel — mas como no gibi, dá uma liberdade criativa sem precedentes para desenvolvimento.

    Deixe a telona para os heróis da primeira linha e que podem destroçar o planeta. Ali eles estão mexendo com cânones, mal podem se despentear durante uma luta. E que a Netflix continue com heróis que sangram quando cortados.

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