Itinerário Poético de Gilberto Mendonça Teles

“E, fiel ao meu destino, mas sem pouso,/com o mesmo ideal de um cavaleiro-andante,/levo-a, todo feliz, como um diamante/inimitado e por demais valioso”

Eurípedes Leôncio

Resumo

O texto poético de Gilberto Mendonça Teles é seu mapa astral, sua antropologia e nele e com ele capta, revela, discute o próprio verbo, o verso, a poesia, numa metalinguagem, metavida, demonstrando a razão de sua veia criativa, artística e profissional. A palavra como expressão poética, no verso gilbertino, traduz o achado do momento, do tempo e do espaço, possibilitando assim, a partida e a chegada ao mesmo tempo, onde enlaça a sua circularidade: origem, itinerário e retorno, num vai e vem da consciência e da emoção.

O objetivo principal, neste estudo, é a tentativa de demonstrar que o eu lírico do poeta revela sua profissão sentimental sem se filiar a nenhuma tendência, escola ou geração, mas como ele mesmo confessa ser um sobrevivente do modernismo e pós-modernismo: “um sujeito romântico que contraiu o mal do século”.

Toma-se como livro básico os “Melhores Poemas de Gilberto Mendonça Teles”, seleção de Luiz Busatto e, como suporte desta pesquisa, as teorias de autores como Gaston Bachelard, Octavio Paz, Michel Foucault, José Fernandes, dentre outros.

O objeto é a palavra corporificada no texto poético gilbertino, no qual sob o caminho obscuro da linguagem gruda no poema como imagem e semelhança do poeta ou sua justificativa inevitável da necessidade de poetar, ou seja, registrar suas descobertas permeadas de lirismo, humor, crítica, questionamentos, numa vertente da poesia e da metapoesia para criar um novo estilo: poeta-crítico.

Em suma, os versos expostos consubstanciam o Itinerário gilbertiano ao revelar que sua poesia é emotiva-saudosista-filosófica-metalinguística e descortina  sua biografia diária, ou mesmo um diário poético da existência, registrando pela palavra sopro as tensões do choque eu versus mundo no tempo e no espaço provinciano e urbano e as dividindo com o leitor.

A palavra

A palavra não é apenas um efeito, torna-se a marca que ilumina e dissolve o poeta. Ele não a conduz, mas é conduzido por ela e desse encontro nasce um novo ser, uma nova poética, um novo saber, como ensina Foucault:

Como pode ele ser o sujeito de uma linguagem que, desde milênios, se formou sem ele, cujo sistema lhe escapa, cujo sentido dorme um sono quase invencível nas palavras que, por um instante, ele faz cintilar por seu discurso, e no interior da qual ele é, desde o início obrigado a alojar a sua fala e seu pensamento (FOUCAULT, 2011, p. 44)

O pensamento ao passar na órbita do eu lírico, a palavra o apreende e o possui num estalo que a razão não pode explicar o efeito, a escolha e a expressão resultante, depois vai se acercando de outros seres que a atrai para habitá-lo momentaneamente e ela se fecunda e ressurge, como nos versos de Carlos Drummond:

Pensa na doçura das palavras. Pensa na dureza das palavras.

Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam.

Que riqueza.

Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida (Andrade, 1967, p. 175)

Gilberto Mendonça Teles: poeta e crítico literário | Foto: Reprodução

A palavra é o corpo do pensamento lírico ou filosófico-reflexivo. A emoção é abstrata. Buscar o sinal, signo, para materializá-la eis a chave, o enigma, a questão, culminando no verso, no poema, como confessa Drummond, “LUTAR, com palavras/é a luta mais vã/Entanto lutamos/mal começa a manhã”(Andrade, 1967, p.126), em busca da expressão que filtra todas as emoções, sensações. Eis a descoberta, a perplexidade que se chama poesia.

Assim, procura-se argumentar, neste breve estudo, de como o poeta goiano Gilberto Mendonça Teles fora atingido pela palavra, tomando-a como aura dos escolhidos, pois ‘no princípio era o Verbo’. Assim, o eu lírico do poeta não se coloca em fuga diante do estranhamento silencioso  que o possuía, tirando-o da quietude para desvendar o seu próprio mapa astral que é o seu itinerário poético, numa luta diária, quer como poeta, quer como estudioso e crítico, carregando consigo a palavra e seus enigmas como registra nos versos do poema “Palavra”:

As palavras engendram suas próprias

Aventuras no espaço. Sendo neutras.

Circulam como sombras devolutas

Surpresas nos seus altos ministérios (GMT, Palavra, p.75)

Em Gilberto Mendonça Teles, observa-se que um eixo metapoético percorre a realidade que cerca e ameaça o seu eu-lírico, e se afasta, para que um terceiro elemento imponha ditando uma nova realidade que abrirá uma cortina de lampejos ao novo reino que se instaura na veia criadora, onde a palavra é o começo desse itinerário no tempo e no espaço, e também o deslumbramento da alma que o secreto, o abstrato, o indizível povoa, como no poema LINGUAGEM que vai tecendo e mapeando as correntes, pensamentos, filosofias, estruturas, numa síncrese poética com muito de tudo:

Eu caminho seguro entre palavras

e páginas desertas. Nas retinas:

sonhos de coisas claras e a lição

de outras coisas que invento

para um só testemunho

de minha construção

imaginária

de pedra

sobre

pedra

e cimento

e silêncio.

Da sintaxe invisível a certeza

e o desdobrar tão limpo das imagens

na vereda serena que dói fundo

no olhar preciso e vago consumindo

seu faro entre palavras.

Na estrutura

da língua se desgasta o meu segredo,

 

se desgastam meus dedos, a mais puras

moeda que circula desprezível

no cio deste ofício de buscar-te

na usura de ti,

nudez segura,

absoluta canção

e voz perene,

inicial. (GMT, Sintaxe invisível, p. 61)

Gilberto Mendonça Teles, Bernardo Élis, Afonso Félix de Sousa e José J. Veiga: companheiros de jornadas literárias | Foto: Reprodução

Sob o caminho obscuro da linguagem, a poesia alça seu prumo sobre a palavra buscando alçá-las, apalpá-las, trazendo-as para o verso, em forma figurada ou realisticamente combinadas, como esclarece o crítico José Fernandes: “Uma das preocupações dos poetas deste século é seu instrumento de trabalho: as palavras” (Fernandes, 2005,p.45).  Conscientemente aproveita o espaço vazio, o jogo gráfico, assim concretamente; ou a rima, a métrica, parnasianamente; ou ainda o registro da emoção, do individualismo, romanticamente e mergulha no abstrato, no onírico, atingindo o impalpável, o transcendente, simbolisticamente.

A técnica utilizada no poema em referência é toda modernista, num jogo cinematográfico, coreográfico, musical das palavras que dançam de acordo com o registro do poeta, dando força expressiva à linguagem. Coloca verso sobre verso, palavra sobre palavra, engenhosamente constrói o edifício artístico para vislumbrar da torre uma nova arte poética e demonstrar o itinerário metalinguisticamente justificado, explicado, numa construção imaginaria do caminho a percorrer como poeta e mestre. Está consumada sua sintaxe vinda do invisível sopro criador.

Gilberto Mendonça Teles consegue traçar poeticamente seu Itinerário poético, impulsionado pelo seu currículo biográfico. Confirmando essa visão, o crítico e poeta Affonso Romano de Sant’anna sentencia: pode-se, portanto, dizer que a poesia é a melhor biografia que um poeta consegue de si mesmo. Aí ele se transcendentaliza, revertendo-se numa imaginação de si próprio. Isto não torna a poesia menos verdadeira que a vida. Acontece uma integração tal, que a vida é que passa a ser imaginação em torno de uma obra concretamente realizada. A poesia é a biografia do poeta (Sant’anna, 1972, p. 28)

O poeta

De aluno do curso de madureza a livre-docente, poeta, crítico renomado internacionalmente e professor consagrado em Montevidéu, Lisboa, Chicago, Paris, Rio de janeiro, Goiás. Foi tecendo versos por todos estes caminhos e deixando nos quadros e nas anotações dos alunos um universo de cultura literária e humanismo, sem nunca esquecer da origem (Goiás, Bela Vista). Não se confessa bom poeta, pois, a humildade é a arma dos grandes gênios. Sua confissão é o amor e dedicação a sua musa que universalizou nas morenas, loiras, mulatas, índias e tantas outras de tantas cores e belezas. Sua poesia é emotiva-saudosista-metalinguística-filosófica. Busca a forma tradicional, modernizando-a, numa linguagem fácil, rítmica, gostosa, envolvente, emocionante, trazendo o leitor para a cumplicidade do seu itinerário, como manifesta no poema “Currículo”:

Fiz o meu curso de madureza,

passei nos testes com bom conceito:

conheço tudo de cama e mesa,

tenho diplomas dentro do peito.

 

Aluno médio de neolatinas,

Vi línguas mortas, literaturas…

Mas eram tantas as disciplinas,

as biografias, nomenclaturas.

 

tanto os rumos na encruzilhada,

tantas matérias sem conteúdo,

que eu acabei não sabendo nada,

embora mestre em quase tudo.

 

Doutor em letras, as minhas cartas

são andorinhas nos vãos dos templos:

ensino o fino das coisas fartas

e amores livres com bons exemplos.

 

Livre-docente, sou indecente

e nunca ensino o pulo-do-gato;

esta a razão por que há sempre gente

contra o meu jeito de liter-rato.

 

Com tantos títulos e uma musa,

sou titular, mas jogo na extrema:

o ponta-esquerda que nunca cruza,

que sempre dribla nalgum poema.

 

Sou bem casado, mas já fiz bodas;

já fui cassado, tive anistia;

e, buliçoso, conheço todas

as coisas boas de cada dia.

 

Só não conheço o que mais excita,

o que me envolve por todo lado:

talvez a essência da coisa escrita,

Talvez a forma de um mau-olhado. (GMT. Currículo, p. 188)

Gilberto Mendonça Teles: um dos maiores intérpretes da poesia de Carlos Drummond de Andrade | Foto: Reprodução

Nos versos do poema exposto, Gilberto Mendonça Teles demonstra sua habilidade de grande poeta que é e com muito senso de humor conta o seu itinerário biográfico: fatos da realidade, amores, confissões, cassado pela revolução de 64, anistiado, no exílio lecionou no Uruguai e na França, divulgou a poesia brasileira,  publicou obras, consagrou-se como crítico, poeta, consolidou sua notável intelectualidade e depois retornou ao Brasil para continuar a sua peregrinação empunhando sempre a palavra como fonte de inspiração e sobrevivência.

Gilberto Mendonça Teles estreou em 1955, com o livro de poemas “Alvorada” e possui mais de quarenta obras publicadas no Brasil e no Exterior, de poesia, crítica, estudos. Pertenceu, na década de cinquenta ao chamado Grupo dos Quinze, em Goiânia. Nessa época surgia o Concretismo, 1956, portanto na chamada terceira fase do modernismo, ou neomodernismo. Logo depois, no início da década de 60 teve início o praxismo. A geração que marcou essa nova fase de nossa literatura foi a de 45, tendo como grande destaque o poeta João Cabral de Melo Neto. Gilberto não se considera poeta ligado a nenhuma tendência, escola, geração ou modismo, mas um crítico de todos estes movimentos do século XX. Sua poesia, por isso mesmo, torna-se profundamente metalinguística, questionando o próprio fazer poético, as teorias, os clichês e com isso criou um novo estilo, o do poeta crítico, como se define, na primeira estrofe do poema “Geração”:

Sou um poeta só, sem geração,

que chegou tarde à gare modernista

e entrou num trem qualquer, na contramão

e vai seguindo sem sair da pista. (GMT, Geração, p.114)

No mesmo poema em pauta, depois de justificar a sua não filiação a nenhum movimento, volta às fontes do coração e da origem, no seu itinerário do retorno:

Eu sei, minha Maria, que o verão

já vai passando trêmulo nos dias

e sei que é muito bom ter geração.

“que as glorias que vêm tarde já vem frias”

O itinerário

O poeta se volta para seu próprio itinerário que o sopro criador apontou e se vê perdido entre tantas gerações e movimentos como confessa lembrando o poeta Tomás Antônio Gonzaga “que as glórias que vêm tarde já vêm frias”. Como no verso de Drummond, ele prefere ser o “anjo torto”, seguindo sua própria aventura de criar, recriar, se expor com um novo estilo “o poeta da palavra”, na busca da expressão poética que traduza o achado do momento, mas questionando a dificuldade desse achado e do próprio instante, daí ter o humor-metalinguagem-filosofia-memória-cultura-metapoesia-metavia, para atingir a sua criação.

Assim, demonstra que rebelar-se é o princípio da grandeza interior, da autorreflexão, da busca de um estilo próprio, de um caminho, do retorno às fontes do coração, trajetória nesse vai e vem espacial que nunca o abandonou, como ele mesmo se descreve, no poema “Modernismo”:

No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado

No fundo, nada, eu sou romântico de todo jeito.

Eu sou romântico de corpo e alma,

Dentro e fora,

de alto a baixo, de todo lado: do esquerdo e do direito.

 

Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,

um individualista confesso, que adora luares,

que gosta de piqueniques e noite das festivas,

mas que vai se esconder no fundo dos restaurantes.

 

Um sujeito que nesta reta de chegada dos cinquenta

sente que seu coração bate tão velozmente

que já nem aguenta esperar mais as moças

da geração incerta dos dois mil.

 

Vejam, por exemplo, a minha cara de apaixonado,

a minha expressão de timidez, as minhas várias

tentativas frustradas de D. Juan.

Vejam, meu pessimismo político,

meu idealismo poético,

minhas leituras de passatempo.

 

Vejam meus tiques e etiquetas,

meus sapatos engraxados,

meus ternos enleios,

meu gosto pelo passado

e pelos presentes

minhas cismas,

e raptos.

 

Vejam também minha linguagem

cheia de mins, de meus e de comos.

Vejam, e me digam seu eu não sou mesmo

um sujeito romântico que contraiu o mal do século

 

E ainda morre de amor pela idade média

das mulheres. (GMT. Modernismo, p.236)

Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Mendonça Teles e Plínio Doyle: o poeta de Itabira admirava a crítica literária do bardo goiano | Foto: Reprodução

Gilberto Mendonça Teles revela sua profissão sentimental, no poema acima: ser romântico. Não faz segredos, nem se ausenta. Fala direto numa confissão reiteradamente dirigida ao leitor, assumindo o ensinamento de Bachelard: “Mas o homem não se engana de exaltar-se. A poesia é um dos destinos da palavra” (Bachelard. 2009, p.3). Mostra-se em tudo e por tudo um “romântico inveterado”, com seu jeito desajeitado de ser, estar, amar, com seus medos, seus gostos, suas manias, matreirices, medos, paixões. Eis aí, uma das chaves-mestras para o entendimento da poética do autor e seu itinerário: um autorretrato sentimental e espontâneo. Confirmando o pensamento de Octavio Paz quando afirma: “A palavra do poeta se confunde com ele próprio” (Paz, 1982, p.55). Assim, o seu modernismo é ser honesto com o seu eu-poético, totalmente assumido, confesso.

Dentro do pós-modernismo, no alto de sua maturidade e consagrada  intelectualidade,  GMT ousadamente assume sua alma romântica: transborda o seu lirismo, individualiza-se ao confessar que o poeta consagrado, o pesquisador renomado, o crítico aclamado, o estudioso incansável, o professor admirado e respeitado se define como “um sujeito romântico que contraiu o mal do século”, tanto que o eu lírico do poeta vai se explicando, numa fenomenologia da criação e da palavra, com isso, a forma metalinguística do discurso do autor  alcança o itinerário da metavida.

Gilberto Mendonça Teles se vê em Goiás, corpo e alma, pois a origem é o seu tronco, o seu oxigênio, coração, na vida celebrada, o espírito romântico assumido.

O seu espaço físico presentificado no seu “Itinerário Poético” é a sua antropologia: sua origem, seu lirismo, sua força, resistência ao sofrimento, ‘a solidão, sua altivez, sua crença e dignidade pessoal, que mesmo diante da tristeza que o toma como nômade de tantos espaços consegue se transmutar numa ressurreição anunciada, na sua circularidade poética onde o ponto de partida é o mesmo da chegada, como registra no poema Goiás:

Só te vejo, Goiás, quando me afasto

E, nas pontas dos pés, meio de banda,

Jogo o perfil do tempo sobre o rasto

Desse quarto-minguante na varanda.

 

De perto, não te vejo nem sou visto.

O amor tem destes casos de cegueira:

Quanto mais perto mais se torna misto,

Ouro e pó de caruncho na madeira.

 

De perto, as coisas vivem pelo ofício

Do cotidiano – existem de passagem,

São formas de rotina, desperdício

E abstrações por falta da linguagem.

 

De longe, não, nem tudo está perdido.

Há contornos e sombras pelo teto.

E cada coisa encontra o seu sentido

Na colcha de retalhos do alfabeto.

 

E, quanto mais te busco e mais me esforço,

De longe é que te vejo, em filigrana,

No clichê de algum livro ou no remorso

De uma extinta pureza drummondiana.

 

Só te vejo, Goiás, quando carrego

As tintas no teu mapa e, como um Jó,

Um tanto encabulado e meio cego,

Vou-te jogando em verso, em nome, em GO (GMT, Goiás, 2007, p. 130)

Gilberto Mendonça Teles | Foto: Reprodução

A revelação(confissão) do poeta, nos versos acima confirma o seu itinerário poético, a circularidade espaço-temporal de sua geografia sentimental, retornando as fontes do coração. Saudosista canta sua terra, como Gonçalves Dias no Romantismo. Vai jogando a saudade em quartetos rimados, não na redondilha maior gonçalvina, mas no decassílabo, comprovando sua maestria no manejo com a arte de poetar. Assim vai rememorando os tempos que só hão de voltar na poesia. Um quadro lírico de quem deixou a terra natal e se fez vassalo e senhor da linguagem, do alfabeto.

Em suma, “O Itinerário Poético” de Gilberto Mendonça Teles é também a história do ato de escrever. A profunda reflexão sobre a vida, a partir da linguagem resultado da essência humana escondida atrás de um rosto, de um olhar, de um suspiro. O mundo continua o mesmo, de 1931, nascimento do poeta em Bela Vista de Goiás, aos nossos dias, mas o eu lírico do poeta é capaz de transmutá-lo, ao obedecer o sopro poético que o faz prosseguir, caminhar como nômade, mas como fizera Drummond; “Não estou vazio,/Não estou sozinho,/pois anda comigo/algo indescritível”(OC, p.142). Assim, o eu lírico do poeta Gilberto Mendonça Teles não se assujeita ao mundo, pois a palavra poesia o toma e o leva a um caminho novo para digladiar entre estar na verticalidade lírica, ou na horizontal expiação. GMT consegue preencher tamanho mistério que ele confessa no livro “Estrela D’Alva”, de 1956, nos versos do poema “Vida”: “E, fiel ao meu destino, mas sem pouso,/com o mesmo ideal de um cavaleiro-andante,/levo-a, todo feliz, como um diamante/inimitado e por demais valioso” (GMT, “Vida”, p.23)

Finalmente, Gilberto Mendonça Teles consegue unir as duas pontas da vida, maturidade à infância e toda a sua sabedoria é renovada nesse itinerário, com o sonho e a pureza da alma do menino que só o eu-poético pode despertar no adulto para poeticamente responder num canto feliz.

Eurípedes Leôncio Carneiro é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-GO, professor de Literatura, poeta, crítico literário, membro da UBE-GO, do Icebe e da Academia de Letras e Artes de Brasília. Publicou os livros “Todos os Momentos para o Amor” e “Sexto Sentido: A Arte e o Artista no Contexto Político”.

Referências bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond. Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar Editora, 1967.

BACHELARD, Gaston. A Poética do Devaneio. Trad. Antônio de Pádua Danesi. 3ª ed. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2009.

FERNANDES, José. O Selo do Poeta. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2005.

FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 9ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

TELES, Gilberto Mendonça, Melhores Poemas, seleção de Luiz Busatto, 4ª ed. São Paulo: Global, 2007.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Drummond, O Gauche no Tempo. Rio de Janeiro: Editora Lia S.A., 1972.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.