Isaac Babel, contista inspirador de Rubem Fonseca, foi torturado e assassinado por Stalin

A literatura era sacrossanta para esse judeu de Odessa. Viveu e sondou todas as profundezas da barbárie humana e apenas sua visão da literatura o protegeu do cinismo e do medo de seu tempo de trevas

Isaac Babel

Por Carlos Russo Jr.*

“Sabendo o que era a verdadeira literatura, Babel jamais se sentiu superior aos demais”, escreveu Elias Canetti.

 Isaac Babel nasceu em 1894, na cidade ucraniana, então parte do Império Russo onde, por ordem do Czar, alguma liberdade e segurança os judeus poderiam desfrutar. Sua família vivera o inferno dos pogroms antissemitas em terras dominadas por cossacos, tendo diversos de seus parentes sido assassinados antes de se estabelecerem em Odessa.

Justamente ele, Babel, que na juventude, com documentos falsos, lutaria clandestinamente ao lado dos Cossacos Vermelhos na guerra civil, tropas comunistas, mas igualmente antissemitas.

Na adolescência, Babel entrou na Escola do Comércio. Além das matérias normais, estudou teologia (“em casa estudo A Bíblia e o Talmude, descanso na escola”) e música. Abraçou precocemente o marxismo e principiou a escrever contos sobre a vida no gueto judaico de Odessa.

Em 1915, Babel se mudou para o centro cultural da Rússia, Petrogrado, clandestinamente, pois como judeu não tinha autorização para deixar Odessa. Na busca por um editor, conheceu Máximo Gorki. Tornaram-se amigos e Gorki publicou algumas de suas primeiras histórias na revista que dirigia. Gorki ainda fez mais, orientando o aspirante a escritor que buscasse mais experiência da vida real.

E ele buscou! Anos mais tarde, Babel escreveu em sua autobiografia: “O nome por quem possuo maior amor e admiração é o de Gorky”.

Babel, embora seja, reconhecidamente, um dos mais brilhantes representantes do jornalismo literário da geração dos nascidos na década de 1880, teve sua obra ficcional muito prejudicada pelas vicissitudes da vida.

Seu apogeu literário ocorreu nos anos 1920, primeiro com a publicação dos “Diários de Guerra”, que, posteriormente produziram o clássico “A Cavalaria Vermelha”, de 1926. Assinalou Martin Berman que um dos temas centrais do livro é a ideia de que, para ser ele mesmo o herói tem que aprender não só a enfrentar, mas de alguma forma internalizar seu antiego, dado que tanto o eu quanto sua antítese giram em torno da violência.”

Se o ego do autor é o de um intelectual racional, com natural tendência para a melancolia e introspecção, seu antiego é o de um homem de ação animalesco, primitivo, irrefletidamente cruel. Um homem fiel ao espírito de seu tempo.

Quando o personagem de Bebel na “Cavalaria Vermelha” se integra ao Exército de Budieni, o herói de óculos e estudos é desprezado pelos cossacos iletrados e broncos, e para ser aceito deve praticar alguma crueldade, preferentemente com uma mulher. Ele aceita o desafio em “Meu primeiro ganso”. Mas quando fracassa numa luta por haver-se esquecido de municiar o revólver, um superior o espanca e ele “implora a Deus que lhe dê competência para matar meu semelhante.”

Poucos artistas souberam tratar de modo tão real e tão completo, fragmentos do real como fez o gênio de Babel. Muitos de seus contos em “A Cavalaria Vermelha” são desenvolvimentos de relatos de realidades por ele vivenciadas em guerra. Existe em todos os relatos a franqueza, a turbulência, o tom incontido, angustiado e explosivo da voz do autor.

Diversas dessas histórias foram publicadas na “Revista de Esquerda” por seu fã, Vladimir Maiakóvski.

Também é verdade que a descrição brutal da realidade da guerra lhe angariou inimigos geralmente pertencentes à da burocracia partidária. Contudo, a influência de Gorky garantiu sua publicação, e no exterior, o livro foi um “best-seller”, traduzido para mais de quinze idiomas.

Marxista-leninista militante, Babel serviu como voluntário na Primeira Guerra, depois esteve presente nos combates de 1917 para a implantação do socialismo; liderou a resistência vermelha na cidade de Petrogrado quando esta estava cercada pelos Brancos e pelos Poloneses e o Governo Soviético tivera de retirar-se para Moscou; participou de expedições de confisco no campo para trazer cerais para as populações famintas das cidades.

Na Guerra Civil, juntou-se ao único agrupamento de cossacos que permaneceu no Exército Vermelho, a Cavalaria Vermelha de Budiene e o fez sob uma identidade falsa fornecida pelo Partido Comunista, de tal forma que se evitasse sua identificação como judeu. Com isto não teve de suportar o antissemitismo cossaco.

A campanha da cavalaria de Budiene passou por Galícia, um dos povoados judeus mais cultos da Europa de então. Cidades como Chernobyl, Kovel, Brody e a própria Galícia sofreram assassinatos em massa, incêndios criminosos, estupro, tortura, e a matança de mais de cem mil judeus, principalmente pelas mãos dos Exércitos Brancos e Poloneses.

Entretanto, atrocidades também foram cometidas pelos cossacos vermelhos e narradas por Babel, muitas delas descritas pela pena incorruptível de Babel. Um dos personagens de Babel diz: “Isto não é uma revolução marxista, é uma rebelião cossaca”. E ainda: “Sinto muito desgosto pelo futuro da Revolução… Nós somos a vanguarda, tudo bem, mas do que mesmo?”

E mais: “Por que não consigo vencer minha tristeza? Porque estou longe de minha família, porque somos destruidores, porque avançamos como um furacão, como uma língua de lava, odiados por todos, a vida se estilhaça, estou numa imensa, numa interminável campanha a serviço de fazer nascerem os mortos.”

Nos tempos de Lênin e Lunascharski, havia mais liberdade de expressão dentre os comunistas.

Em “A Cavalaria Vermelha”, Babel cria personagens prototípicos do futuro.

O primeiro é Gedali, o jovem judeu que se interroga sobre os ideais primevos da Revolução: “Onde está a Revolução que espalharia a alegria? Quero uma Internacional de boa gente. O que eu queria era que toda alma estivesse na lista de prioridades para receber suas rações de comida. Toma aqui, alma, coma e goze os prazeres da vida”.

O segundo personagem é Prishchepas, um oficial vermelho. Ao retornar a sua aldeia que havia sido invadida pelos Brancos, percorre casa a casa de seus vizinhos em busca de utensílios domésticos que haviam pertencido à sua mãe, assassinada pelos inimigos por ser mãe de um oficial vermelho. E todas as famílias que haviam se apropriado de algo, ele as matava. E depois, incendiava as propriedades.

Prishchepas são os homens da vingança, das limpezas étnicas, da violência sem limites.

Além de combatente no front de lutas por quase quatro anos, foi o correspondente de guerra mais lido em toda a URSS e suas crônicas e ensaios publicados no “Soldado Vermelho” eram disputadas quando publicadas. Deve-se à sua pena a documentação sobre os horrores inacreditáveis da Guerra Civil, assim como o heroísmo de tantos.

Com o final da Guerra Civil, serviu nos quadros do serviço secreto Tcheka, sob as ordens diretas de Dzerzisnki e, na qualidade de tradutor, participou de interrogatórios e execuções de contrarrevolucionários. Integrou-se também ao Comissariado para a Educação, onde aportou contribuições para as normas de administração escolar.

Por todos os serviços prestados foi, em meados da década de 1930, condecorado com o título de “Defensor Vitalício da U.R.S.S.”.

Por esta época, Babel escreveu “Contos de Odessa”, uma série de histórias curtas de inspiração autobiográfica, narrando, a princípio, sua infância na comunidade judaica, no gueto de Moldavanka. A tônica de seus contos consiste na articulação do humor com o grotesco, imagens delirantes e surreais, linguagem popular e culturas exóticas, mantendo o distanciamento do autor de cenas que primam pela brutalidade. No destaque a comunidade judaica, e para estes, a vida fora da lei vigente era quase uma imposição de sobrevivência, quando não de resistência. Nos Contos nota-se claramente uma transição profunda entre os períodos pré e pós-revolucionários.

Em 1930, Babel trabalhou na Ucrânia, e foi testemunha da brutalidade do processo de coletivização forçada das propriedades agrícolas. Os kulaks, pequenos proprietários, que haviam sido estimulados durante a crise de fome dos anos vinte a produzir, agora eram expropriados de seus bens e os resistentes, enviados a campos de trabalho forçado, os famosos “Gulags”.

Este foi um dos fatores que fizeram com que Babel se afastasse da vida pública.

Em 1932, após várias tentativas, foi permitida uma visita à sua esposa Eugênia e à filha Natália que viviam em Paris e Babel teve diante de si a decisão de retornar ou não à Rússia. Em conversas e cartas aos amigos expressava o desejo de ser um “homem livre”, mas também o medo de não ser capaz de viver apenas escrevendo.

Em 1933, Babel decidiu-se e retornou a Moscou. Na volta, começou um relacionamento com Antonina Pirozhkova, com quem teve outra filha, Lidya Babel.

Passou a colaborar com Sergei Eisenstein e trabalhou em diversos roteiros para filmes de propaganda soviética, dentre eles “Encouraçado Potenkin”.

Foi duramente criticado no Congresso de Escritores Soviéticos, de 1934, o mesmo encontro que estabeleceu a política do “realismo socialista”, por publicar muito pouco.

Babel observou ironicamente, que estava se tornando “mestre de um novo gênero literário, o gênero do silêncio.”

Escreveu, entretanto, em 1935, a peça teatral “Maria”, um retrato dos excluídos da sociedade socialista.

Foi repreendido diretamente por Máximo Gorky, que retornara à U.R.S.S., por sua “baudelaireana” predileção pela “miséria humana”. Gorky preveniu seu amigo sobre as “consequências políticas” que lhe seriam “prejudiciais”, mas Babel decidiu prosseguir. Programada para ser encenada em no teatro Vakhtangov, a peça foi cancelada pela KGB.

Babel era um velho conhecido da mulher do temido número um da KGB de Stalin, Nicolai Yagoda. Eram amantes e ele frequentava saraus literários na casa do casal, dos quais participavam intelectuais e artistas como Eisenstein. Babel não sabia, mas já estava sob a vigilância da polícia do Estado.

Na morte prematura de Gorky, em 1936, Babel expressou dúvidas sobre a causa oficial da morte por pneumonia do amigo e chegou a comentar: “Agora eles virão até mim”.

Apesar de sua longa folha de serviços e sua lealdade ao Partido, foi preso após a queda e prisão do temível Nicolai Yagoda. Em maio de1939, por ordem direta de Béria, substituto de Yagoda, Babel foi sequestrado em sua “dacha” em Peredelkino, e apenas pode gritar para a Antonina: “Por favor, deixe a nossa garota crescer feliz e fora disso tudo”.

Seu processo e julgamento ocorreram entre 1939 e 1940. O fuzilamento, em janeiro de 1941.

O processo Babel é dos casos em que se possui praticamente toda a documentação dos interrogatórios, petições e cartas do acusado. Por exemplo, sua presença em uma extensa lista de condenados para execução (Babel era o de número 12) preparada por Béria, com o “de acordo” assinado por Stalin.

Babel foi torturado na sede da KGB, na casa do terror situada da Rua Lubianka. Sua prolongada tortura, que durou sete meses, aparentemente levou-o ao enlouquecimento.

No princípio Balel tentou negar todas as absurdas acusações que assacaram contra ele, como o de ser agente de Trotski e de ter sido recrutado pelo escritor francês André Malraux para espionar para a França.

Quando, semidestruído aceitou as acusações e também comprometeu metade da intelectualidade de Moscou. Semanas após, entretanto, escreveu dezenas de retratações públicas e pedidos de desculpas, que pese poucas haverem chegado a seus destinatários, cada uma delas pode ser considerada por si mesma como pequena peça literária.

Um de seus inquisidores foi B.V. Rodos, braço direito de Laurenti Béria. Rodos, quando foi inquirido no governo de Khruschov, em 1956, a respeito do caso Babel, revelou saber que o tal de “Babel” era um escritor. O juiz perguntou-lhe então: “o que você leu sobre seus escritos que o incriminassem?” O policial foi claro: “nada, e precisava?”

Babel foi reabilitado em 1956, em processo que teve por testemunhas o escritor Erenburg e I. Piechkova, viúva de Gorki. O Partido então reconheceu nele um dos maiores talentos literários soviéticos e assim como um fiel militante partidário, restituindo-lhe curiosamente o título de “Defensor Vitalício da U.R.S.S.”.

Para quem era criticado por pouco produzir, Na casa de Babel foram confiscadas pelos órgãos repressores pelo menos quinhentas cartas, dezoito cadernos de anotações, quinze pastas com manuscritos prontos para publicação. Foram necessários dois furgões para o transporte do material escrito. No último de seus trabalhos em preparação, tratava dos métodos dos serviços secretos soviéticos. Ademais, conforme as filhas de Babel, muito do material aprendido desapareceu.

No entanto, parte deste rico manancial criativo veio à tona com a Glasnost, e, aqui no Brasil, serviu de base para um romance de Rubem Fonseca: “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”.

*Carlos Russo Jr. é crítico literário

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