Impasse e hiato da Companhia Quasar permanecem

Edital de chamamento para a escolha da OS que ficará encarregada da gestão do futuro Corpo de Baile do Estado, entidade que irá incorporar a Quasar aos quadros da secretaria, será lançado em agosto. Informação da Seduce, no entanto, não é confirmada pela ex-produtora Vera Bicalho

“Sobre isto, meu corpo não se cansa”: último espetáculo apresentado
pela companhia em Goiânia| Foto: Layza Vasconcelos

Pelo visto, o tão almejado reencontro da Companhia de Dança Quasar com seu público, ávido pelo retorno aos palcos dos espetáculos que arrebataram o público aqui e acolá, está longe de acontecer. Após um hiato de quase dois anos, as atividades do grupo seguem suspensas por tempo indeterminado e o impasse quanto ao futuro da companhia persiste, sem qualquer lampejo de um desfecho iminente.

Em setembro de 2016, a Quasar Cia de Dança anunciou oficialmente a suspensão de suas atividades por dificuldades financeiras, surpreendendo a todos. Em dezembro daquele ano, chegava ao fim o contrato com seu maior patrocinador, o programa público Petrobrás Cultural, o que fez com que a companhia não tivesse mais condições de arcar com suas despesas. A principal delas era a manutenção do Espaço Quasar, que ficava localizado na rua T-28, no Setor Bueno, inviabilizando a produção de novos espetáculos. Funcionários foram dispensados e dançarinos foram forçadamente obrigados a pendurar as sapatilhas.

Questionado sobre a situação da Quasar em entrevista ao Jornal Opção, cerca de uma semana antes de deixar o cargo, o ex-superintendente executivo de Cultura da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce), PX Silveira, adiantou que o edital de chamamento para a escolha da organização social que ficará encarregada da gestão do futuro Corpo de Baile do Estado, entidade que vai incorporar a Quasar aos quadros da secretaria, será lançado no mês de agosto. O ex-superintendente afirmou que parte da demora se devia ao interesse dos ex-diretores da companhia Vera Bicalho e Henrique Rodovalho em montar uma organização social própria.

“Espero que a OS vencedora seja do agrado da Vera (Bicalho). Penso que a própria poderia ter solucionado esta questão se ela tivesse, lá atrás, aproveitado o ímpeto do governador. No entanto, ela não quis se associar a uma OS já existente, preferindo que o grupo dela montasse uma OS. Sei que houve conversações nesse sentido com a Elysium Sociedade Cultural, para se associar com a Vera para entrar no chamamento. Ele preferiu esperar um pouco, por opção dela, montar uma OS para competir, porque ela não tem a certeza de que a OS dela vencerá o chamamento”, condiciona PX Silveira.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Seduce confirmou a informação. De acordo com o órgão, o processo para publicação do edital de chamamento está sendo finalizado e será lançado em agosto. Questionados sobre detalhes da seleção, a Seduce não forneceu mais detalhes, alegando que a questão segue em tramitação interna.

Entretanto, a ex-diretora da Quasar, Vera Bicalho, não corroborou as declarações da Seduce e de seu superintendente. Procurada pelo Opção, Vera limitou-se a dizer que não havia novidades sobre o assunto. “No momento não tenho nada a contribuir, nossa situação é a mesma. Vamos aguardar até final de agosto”, afirmou por meio de aplicativo de mensagens. Questionada sobre o possível lançamento do edital de chamamento da OS, a ex-diretora afirmou não estar sabendo sobre a situação.

Retrospecto
Na época o encerramento das atividades da Quasar causou comoção por parte do público e personalidades do circuito cultural da capital. De imediato surgiram especulações em torno do destino da companhia. Sensibi­lizado com a questão, o Governo de Goiás propôs a criação da Companhia de Balé do Estado de Goiás como uma maneira de incorporar a estrutura da Quasar Cia. de Dança à Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce). A ideia foi recebida com surpresa pela direção da companhia de dança contemporânea, que logo deu sinal verde para a parceria com o Estado. No entanto, a situação ficou estagnada.

Em maio de 2017, o deputado federal Thiago Peixoto (PSD), na condição de presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados (CCult), conduziu uma audiência para tratar da situação. Na ocasião, o parlamentar se comprometeu, juntamente com o conselheiro Kennedy Trindade, presidente do TCE, a fazer uma articulação junto a empresários e entidades empresariais para conseguir patrocínio para a companhia. Na ocasião, Peixoto chegou a dizer que havia conversado sobre a questão com o então ministro da Cultura, Roberto Freire.

Os ex-diretores Henrique Rodovalho e Vera Bicalho: planos de montar uma organização social própria | Foto: Divulgação

A Quasar se apresentou pela última vez em Goiânia em outubro de 2016, dentro da programação da Mostra Giro Dança, levando aos palcos do Teatro Sesi o espetáculo “Sobre isto, meu corpo não se cansa”. A despedida definitiva se deu alhures, no mês de dezembro, com a apresentação do espetáculo “No Singular”, na cidade de Guadalajara, no México, completando a agenda de apresentações internacionais daquele ano.

Ao todo, foram 28 anos de existência da companhia, que tem em seu currículo diversos apresentações internacionais e prêmios conquistados. Entre eles, a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República Federativa do Brasil e o do espetáculo “Só tinha de ser com você”, eleito em 2010 pela revista Bravo! um dos dez mais importantes espetáculos de dança da década. Grande parte do sucesso da companhia se deu ao fato de que os bailarinos eram contratados, com carteira assinada, e desse modo podiam se dedicar exclusivamente à dança, afirmou Henrique. A manutenção do Espaço Quasar e a montagem de espetáculos – que envolve diversos profissionais para além dos dançarinos – também precisam do dinheiro que vinha desse patrocínio.

“Ócio indesejado”
Fundada em 1988, a Quasar completaria 30 anos de existência neste ano. Apesar da suspensão das atividades e de qualquer vislumbre de um possível retorno, a data foi lembrada no Facebook da companhia, com uma mensagem publicada no dia 2 de fevereiro. O texto menciona o período de suspensão como ‘ócio indesejado’ e, em tom de esperança, aposta no retorno da companhia, que “renascerá com ainda mais energia”. Leia abaixo a íntegra:
Há exatas três décadas nascia um complexo e heterogêneo agrupamento de pessoas dispostas a transformar seus corpos em linguagem, emancipando a dança contemporânea e criando texturas diferentes pra algo a que deram o nome de Quasar. Aqueles destemidos intérpretes-criadores só não imaginavam que, com eles, faziam nascer uma nova maneira de se fazer dança em Goiás.

A ideia era criar um tipo de fala que extrapolasse os limites do consensual, para expressar em movimentos mais do que o que vinha sendo colocado em cena. Inquietação, excitação, ebulição, entusiasmo por tudo que ainda não havia sido explorado nos palcos. Eles queriam e ainda querem mais.

Apesar do ócio indesejado, retomamos dia a dia nossa motivação, fazendo desta turbulência a instrução para uma base ainda mais sólida. Estamos fortalecendo nossas musculaturas para mais, novos e inquietantes saltos.

Comemorar nossos 30 anos é selar esse tratado, de que a arte que nos fomenta nunca cessará e que, portanto, é impossível interromper a trajetória desses corpos que estão no mundo para fabricar, diariamente, novas formas de existir em movimento.

A Quasar Cia de Dança continua agradecendo a todos que seguem acompanhando esta história, a todos que fazem parte desse construto e que de diversas formas apoiam o reestabelecimento de nossas atividades. Estamos certos de que, agora ou logo ali, este corpo celeste renascerá com ainda mais energia.

Feliz aniversário, Quasaria­nos, Quasarinos e Amigos da Quasar. Hoje todos nós somos trintões da arte.

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