Carlos Russo Jr.

No momento em que as realidades de massacres dominam o mundo, a literatura que vale faz explodir sob nossos olhos a carga moral dos fatos, para que reajamos.

“Devemos expressar a vida moderna em sua dureza, em seu ritmo e também em sua mecanicidade e desumanidade, para encontrar os verdadeiros alicerces do homem de hoje.” Afinal, “revolucionário é quem não aceita o dado natural e histórico e quer mudá-lo”, diz Italo Calvino em “Assunto Encerrado”.

O siciliano Elio Vittorini (1908-1966) escreveu “Homens e Não” (Cosac Naify, 264 páginas, tradução de Maria Helena Arrigucci) durante noites passadas nas montanhas do norte da Itália, enquanto combatia ao lado dos companheiros partigiani as forças de ocupação alemã e os fascistas da “República de Saló”, em 1944.

Vittorini vivenciou as ações, as emoções, os medos, a coragem, o amor e a entrega daqueles que junto a si combateram o mal. Por que resistir, se necessário, até a morte, a boa batalha? Para manter viva a esperança e a resistência humana diante dos horrores do nazi fascismo e da guerra. Ao lado de seus amigos Italo Calvino (camarada de luta), Cesare Pavese e Eugenio Montale, é considerado um dos maiores escritores da literatura italiana do século XX.

“Homens e Não”

A história possui um personagem central: o capitão da Resistência Ene 2. Sua determinação combatente, que chega à beira do suicídio, não o impede de sentir um amor intenso na sombria e triste Milão. Ao mesmo tempo, o sonho de um mundo solidário e fraterno sempre o impele para a ação, a capitanear seus companheiros na luta.

O mais velho do grupo dirige-se a Ene 2, logo após a ordem de fuzilamento, dada pelos nazistas: fuzilar 10 milaneses a cada alemão morto. “Não se lembra quando nada tínhamos para nos defender e golpear? Cada um de nós teria dado a própria vida para poder destruir um milésimo de um fascista. Queríamos a luta. Agora é a luta que temos.”

“Os guerrilheiros não possuíam nada atrás deles que os obrigassem a agir. Permanecia dentro deles o que faziam. Mas, afinal, por que matavam se não eram terríveis, por que lutavam se eram gente simples e pacífica? Por que, sem terem nada que os obrigasse, tinham entrado naquele duelo de dor e morte que aguentavam?”

“São os jovens loiros que matamos, eu e meus irmãos, diz Ene 2. Nunca gostamos disso, mas eles sempre o desejaram. Tivemos que os matar…. Quando um de nós morre combatendo, ele morre por todos.”

“Os homens podiam se perder por toda parte e por toda parte resistir. Não podiam se perder por toda parte e por toda parte resistir?”

Elio Vittorini vivenciou a resistência na vida real. O romance é contado em diálogos duros entre companheiros e, mesmo, do indivíduo com seu consciente. Os personagens se tratam por codinomes. Bicicletas cortam as ruas, como no novo cinema italiano. As fugas são por becos e telhados. Há amores interrompidos, apressados, por fazer.

Um dos trechos mais duros do romance é quando uma loba das tropas alemãs destroça e mata um operário cujo único “erro” havia sido reverenciar um guerrilheiro assassinado pelos nazifascistas. Os loiros soldados alemães riem e soltam pilhérias. Alguns membros da guarda fascista também, apenas um dele, conhecido do destroçado, se entristece. O que fazer? Dá de ombros, precisa do salário, seguirá vestindo o negro com a caveira com duas tíbias.

“Não havia somente luta e sobrevivência. Havia também lutar e se perder.”

Vittorini dá vida a cada um dos partigiani, todos por seu “nome de guerra”, o nome que importa. “Filho-de-Deus”, que amava os cachorros. “Coriolano”, que levava a família junto para os esconderijos de luta. “Foppa”, que gostava de cinema e dos chineses. “El Paso”, que havia lutado contra os fascistas na Guerra Civil Espanhola. Um operário que aderiu à resistência, mas não matou um soldado inimigo por considerá-lo triste. São homens concretos, de carne e osso, simples e que amam a vida, mas se entregam sem temor à morte em combate.

Um Homem

“Quando falamos em homem pensamos em quem cai, em quem está perdido, em quem chora e tem fome, em quem tem frio, ou em quem é perseguido, torturado, morto. Pensamos na ofensa que lhe é feita, em sua dignidade. Este é o homem.”

“Mas a ofensa, o que é? É feita ao homem e ao mundo. Por quem é feita? E o sangue que é derramado, a perseguição, a opressão?”

“Quem caiu também se levanta. Também o oprimido agarra os grilhões que tem aos pés e se arma. Porque quer se libertar, não se vingar. Este é o homem…. Qualquer coisa que venha do mundo dos ofendidos e combata pelo homem. Também ela é o homem!”

Mas tão pouco a ofensa é algo alheio ao homem. Um genocida como Hitler, ao tempo de Vittorini, ou um monstro como o sionista Netanyahu, nos dias de hoje. “Temos os fascistas, e o que é isso tudo? Podemos dizer que não esteja, também tudo isso nos homens?”

Aí o alerta do grande romancista: nunca poderemos empregar os métodos dos ofensores. Os fins não justificam os meios, pelo contrário, os meios justificam os fins.

Conclusão

O humanismo em nosso tempo deve aceitar o desafio que lhe é imposto pelo que ocorreu em Hiroshima e Nagasaki, pelos campos de concentração, pelos massacres impostos pelos imperialismos, pelas câmaras de tortura, pelo genocídio de crianças, mulheres e velhos, que hoje se repetem na Faixa de Gaza. Deve cerrar os dentes para não gritar, mas não fechar os olhos às piores imagens, nunca se deixar contaminar pelo hábito e pela indiferença cínica. Resistir é viver. É Ser um Humano.

Carlos Russo Jr. é escritor e crítico literário.