[Terceira e última parte da resenha do livro ‘Holodomor — O Holocausto Esquecido’ (Vide Editorial, 336 páginas), de Miron Dolot]

Leitor, não se assombre com o que foi logo afirmado sobre a origem do conflito Ucrânia-União Soviética: o tão alardeado superávit da agricultura proclamado pela ditadura de Ióssif Stálin foi construído por meio da perseguição soviética aos produtores rurais da Ucrânia.

Na verdade, por traz da imposição das fazendas coletivas, Stálin decidiu destruir por completo uma classe altamente produtiva. Nesse sentido, tudo indica que a fome que ceifou a vida de 4 milhões de ucranianos resultou de uma mente maligna, que usou e abusou de instrumentos restritivos voltados a único fim: aniquilar não só toda uma classe de produtores, mas todo e qualquer ucraniano que representasse ameaça ao poder imperial oriundo do Kremlin. Tudo meticulosamente planejado.

Posto isso, transcrevo algumas determinações do regime voltadas para eliminar não só fazendeiros, mas também todo e qualquer indivíduo que ousasse contestar o poder constituído. Sobre esse assunto, aponta o autor para medidas como as abaixo citadas:

1

Suspender o fluxo de todas as mercadorias e todo comércio estatal e cooperativo nessas localidades [localidades que conduzem a práticas de atividades criminosas]; fechar todas as lojas do Estado e de cooperativas e remover todos os fornecimentos de mercadorias.

2

Proibir o comércio de bens alimentícios essenciais, comércio esse que, até aquele momento, havia sido conduzido pelas fazendas coletivas e propriedades individuais.

3

Suspender todos os créditos destinados a essas localidades e retirar de imediato todos os créditos já dados a elas.

4

Fazer uma revisão completa da composição do pessoal que integrava as organizações administrativas e econômicas e delas remover todos os elementos inimigos.

Fome: a tragédia do comunismo na Ucrânia | Foto: Reprodução

5

Fazer o mesmo com as fazendas mediante a remoção do seu interior de todos os elementos envolvidos na sabotagem.

A paranoia da ditadura stalinista via inimigos onde não existiam. Aniquilados pela opressão do regime, os fazendeiros ucranianos estavam literalmente no chão, bem como estava no chão todo um país enclausurado nas fazendas coletivas onde a alimentação era limitada; e isso em um país no qual o inverno é um dos mais rigorosos da Europa. Nesse contexto, a fome foi matando gente por todo a Ucrânia. A barbárie de um regime levou o país a deixar feridas no coração de milhões de ucranianos, mesmo passados 90 anos do ocorrido.

Geografia da fome assassinada

Enfim chegamos ao término destes escritos. Contudo cabe aqui uma conclusão.

A guerra entre a Ucrânia e a Rússia faz parte do processo histórico que se inicia quando Stálin impôs a política de socialização dos meios de produção.

Ciente do preço que pagaria, a poderosa, porém desorganizada classe dos fazendeiros ucranianos acabou sendo derrotada pelo exército da União Soviética. A partir daí, a máquina de governo stalinista passou a impor metas cada vez mais ousadas voltadas para elevar a “produção”, assim, caracterizando uma espécie de mais-valia social direcionada a incrementar o excedente apropriado pela União Soviética. Esse contexto de escassez de alimentos e de frio intenso foram decisivos para incrementar os milhares de cadáveres expostos de um lado a outro de certas estradas da Ucrânia. Eis aí aquilo que chamamos, neste ensaio, de geografia da fome. Esta foi ceifando, ao longo das estradas, paulatinamente, a vida de pessoas que caminhavam à procura de qualquer alimento — ratos, gatos, carne humana, excrementos — enfim: qualquer coisa comestível que salvasse da morte. Infelizmente, essa tragédia anunciada ceifou a vida de 4 milhões de ucranianos.

É num ambiente como esse que devemos inserir a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. As feridas continuam abertas, mesmo passados 90 anos do Holocausto de Holodomor.

Vladimir Putin, presidente da Rússia | Foto: Reprodução

O apoio que a Ucrânia deu ao exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial, permitindo que o exército de Hitler atravessasse seu território para lutar contra os russos, evidencia que as feridas do passado se mantêm vivas no coração daquele povo eslavo. Feridas essas que se mostram vivas na atual guerra da Ucrânia. De um lado, a Rússia de Vladimir Putin, representante dos valores nacionalistas daquele imenso e poderoso país, de outro, a Ucrânia, que mostra que velhos fantasmas shakespearianos se mantêm mais vivos que nunca. Para onde vai a guerra da Ucrânia? Essa é uma indagação para qual não se tem resposta precisa. Assim como muito pouco se sabe sobre o holocausto esquecido, pouco se conhece do atual conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Conflitos regionalizados como esse têm lá seus apoiadores. No caso dessa guerra, os Estados Unidos dão sinais de que apoiam a causa do povo ucraniano. A China tem um estilo próprio de avanço-recuo. Os chineses agem lentamente. Como dizia Mao Zedong, a rica e longa história de seu país, com mais de sete mil anos, um dia para o Ocidente são como cem anos para os chineses, por essa razão que acredito que a solução desse conflito regional passará pelo entendimento entre as superpotências — China e Estados Unidos. No âmbito regional, esse entendimento muito depende de saber se ucranianos e russos serão capazes de perdoarem a si mesmos e aos outros que tantos sofrimentos lhes trouxeram. Perdoar não é esquecer. Quem perdoa ressignifica suas dores a ponto de as lembranças do passado não fomentarem o ódio interior.

Trechos do livro sobre o Holodomor

Fome na Ucrânia: uma tragédia do comunismo | Foto: Reprodução

Nos trechos seguintes, o autor descreve a derrota do ser humano que luta desesperadamente pela vida, mas que é derrotado pela fome e pelo frio. O cenário é absolutamente desolador.

1

“À nossa direita estavam os corpos daqueles moradores que aparentemente haviam tentado chegar à cidade em busca de trabalho e comida. Enfraquecidos pela fome, não conseguiram fazê-lo e acabaram se deitando ou caindo à beira da estrada, para nunca mais se levantar. A neve suave cobria os seus corpos misericordiosamente com o seu cobertor branco.”

2

“Os amplos campos abertos do kolhosp [fazenda coletiva na antiga União Soviética], estendendo-se por quilômetros em ambos os lados da estrada principal, pareciam um campo de batalha após uma grande guerra. Entulhados nos campos estavam os corpos dos fazendeiros famintos que haviam vasculhado, vezes sem conta, nas plantações de batata na esperança de encontrar ao menos um pedaço de batata que pudesse ter passado despercebido ou deixado para trás na última colheita. Eles morreram no lugar em que desmaiaram em sua interminável busca por comida.”

3

“Espalhados aqui e ali por todo o esgoto se encontravam corpos congelados. Jaziam sós ou em grupos, ou simplesmente empilhados uns sobre os outros, como os destroços que se seguem a um desastre. Alguns estavam cobertos pela neve, deixando se projetar apenas braços e pernas; outros estavam cobertos por esgoto depositado havia pouco tempo. As crianças invariavelmente apareciam apertadas ao seio das suas mães sob a cobertura de casacos tecidos em casa.”

4

“A primavera já vinha sendo anunciada pelos rouxinóis que cantavam nos pomares que desabrochavam. Mas este ano ela não trouxe a alegria costumeira ao nosso povo, pois a fome havia atingido o seu ponto culminante visto que qualquer coisa de comestível estava sendo consumida pelos moradores, os cães e os gatos se tornaram uma mercadoria muito desejável”

5

“A inanição na nossa vila agora alcançava agora alcançava um ponto no qual a morte representava um alívio desejável. À nossa volta, muitas casas haviam permanecido por muito tempo sem dar sinais de vida. À medida que a neve derretia vagorosamente, cadáveres humanos ficaram expostos `a vista por toda parte: em quintais, nas estradas, nos campos. Aqueles corpos mortos representavam para os vivos uma dificuldade que nos dava dó. À medida que o tempo ia esquentando, os corpos começaram a descongelar e a se decompor. O fedor resultante nos importunava, e não podíamos fazer nada a respeito.”

Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, é mestre em Energia pela Unicamp. É autor de oito livros relacionados aos assuntos Energia, Política Desenvolvimento Regional e Literatura. É colaborador do Jornal Opção.