Rafael Oliveira Faria e Solemar Oliveira

Especial para o Jornal Opção

No Brasil, onde o frio é escasso, nunca entenderemos o que significa a neve molhada. E reside aí, nessa simplicidade, a essência dostoievskiana do livro “Memórias do Subsolo” (a novela foi traduzida pela Editora 34, por Boris Schnaiderman, e pela Penguin/Companhia das Letras, por Rubens Figueiredo).

Fiódor Dostoiévski (1821-1881 — viveu 59 anos) não é, há muito tempo, o escritor apenas. É uma espécie de oráculo, profeta, arauto de futuros e “criador” de bases filosóficas e científicas hoje consolidadas. Quase na mesma proporção da Bíblia ou do “Poderoso Chefão” (o livro de Mario Puzo levado ao cinema, com título homônimo, por Francis Ford Coppola), as obras de Dostoiévski tem respostas para tudo, segundo seguidores mais entusiasmados. A verdade é que o grande escritor russo era um contador de histórias. E, muitas vezes, por ser polifônico, suas histórias são contadas pela voz de suas personagens.

Não é diferente em “Memórias do Subsolo”. O narrador é, nas palavras de Vladimir Nabokov (que ironicamente diz que o título deveria ser “Memórias de debaixo do chão” ou “Memórias de um buraco de rato”. No Brasil chegou a ser traduzido como “Notas do Subterrâneo”), um homem-rato, que se autodefine como “um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Parece que sofre do fígado.” Mas não podemos colocar a culpa de seu comportamento, repulsivo e egoísta, na bílis. Ou seja, o homem-rato não é um homem-biliar, no sentido de Sigismund Krzyzanowski.

Fiódor Dostoiévski: um dos mais importantes escritores russos | Foto: Reprodução

Pode-se perguntar: essa personagem é complexa ou mal executada? Pois, ela oscila entre extremos, tem mudanças profundas de humor, parece autista ou paranoico. A resposta: é um caso de uma personagem peculiar e, extremamente, complexa.

A primeira parte do romance (ou novela), cujo título é “O Subsolo”, é um solilóquio denso, que trata do auto-entendimento e da teoria do narrador sobre sua natureza ensimesmada e solitária. Culpa-se por não ser coisa alguma, “nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto”, e ainda, “não tenho sequer maldade”. Vai ao âmago de sua amargura para entender e justificar o homem que se tornou, uma vez que essa primeira parte trata do presente da personagem. Conclui teses pessoais e afirma, intimamente: “Agora, vou vivendo meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso — que para nada serve — de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem”.

O narrador acredita ser um homem culto e evoluído. Um homem inteligente. Mas é, na verdade, infeliz e frustrado. Aqui há, ainda, discursos sobre temas intensos, no estilo Dostoiévski de lançar mão de filosofias e interpretações sociais, como culpa, justiça, vingança e outros.

A segunda parte, cujo título lírico é “A propósito da neve molhada”, é essencialmente maior e melhor. É um livro de memórias e o narrador as escreve, segundo Nabokov, para “explicar as alegrias da degradação”. Nas primeiras páginas percebemos que o problema do narrador, que o leva à “não se dar com ninguém e evitar conversar” não é a arrogância, mas uma inquietação e uma insatisfação consigo mesmo. “Detestava, por exemplo, o meu rosto, considerava-o abominável, e supunha até haver nele certa expressão vil;” Não há, exatamente, uma explicação para o humor do narrador, mas há pistas. Poucas. Ele próprio as destaca: “Riam cinicamente do meu rosto, do meu vulto desengonçado” e “órfão, oprimido, já pelas suas censuras”, quando fala daqueles que o cercavam na infância. Toma a si próprio por uma vítima.

Contador de histórias e mensagem à humanidade

Dostoiévski é um contador de histórias. Fato. Mas o faz com a intenção, pouco humilde, de comunicar uma mensagem à humanidade. O episódio do enterro da prostituta serve de motivo para o narrador dar uma lição moralista à jovem Liza, “não confie na mocidade”, para que não siga trabalhando numa “casa de má reputação”. A neve molhada é uma metáfora para o sofrimento e a dificuldade em se livrar de tais situações melindrosas e difíceis em que as pessoas se metem por vontade própria ou falta de força de decisão. “No túmulo, estará uma lamaceira, uma sujeira, a neve molhada.”

Em “Memórias do Subsolo”, a neve pastosa, misturada com água, que tem que ser cavoucada para obter-se a cova funda para depositar ali o caixão, é a coisa mais densa e relevante existente ali para dar vazão ao discurso dostoievskiano, pessoal, moralista e baseado em suas crenças. É irônico que o narrador tenha dado uma lição em uma prostituta, que segundo ele era graciosa e cheia de vida, para que ela melhorasse de vida, depois de ter sido humilhado por seus supostos amigos em um jantar para o qual ele não foi convidado. E que, naquele momento, não tenha feito nada sobre isso. Há uma explicação.

O narrador tenta convencer o leitor de que fez com um propósito. Coisa de Dostoiévski. Em sua explicação está um motivo fundamental: uma crítica de Dostoiévski ao romantismo, que ele faz quando o narrador conta um sonho romântico com Liza, seu amor descoberto. Aqui temos a Literatura fazendo seu melhor papel: autocriticar-se! Por conta desta história, e de suas consequências, vemos nascer o germe de um grande texto dostoievskiano: “O Grande Inquisidor”, de “Os Irmãos Karamázov”. O autor reflete, primordialmente, sobre o controle.

No entanto, além da grandiloquência da narrativa literária de Dostoiévski que é além de seu tempo, é de suma relevância destacar o contexto histórico em que o autor escreveu a obra.

A analogia do subsolo em Dostoiévski carrega um simbolismo caricato e irônico do homem moderno. Quando Boris Schnaiderman observa o narrador como um “anti-herói”, pode-se interpretar este como um vanguardista de seu tempo. Por quê? Pode-se perguntar. O personagem e protagonista da novela é caracterizado como um homem comum vivendo em uma Rússia (cidade de São Petesburgo) que está passando pelo processo de modernização, em que a filosofia da Europa Ocidental se coloca como uma evolução intelectual na mentalidade dos cavalheiros letrados.

Ora, quando o narrador fala sobre “belo e sublime” de Kant, como uma análise da consciência humana em relação aos atos efetuados por ele, ou, melhor dizendo, como “um homem instruído do nosso infeliz século XIX” e, também, quando este cita um trecho das Confissões de Jean- Jacques Rousseau: homme de la nature et de la vérité (homem em toda a verdade da natureza) tem o objetivo de destacar o que é o subsolo. Para isso, ele utiliza a imagem do sujeito que renunciou o solo dos princípios morais populares e se lançou em um turbilhão de indagações fazendo com que este cave mais, mais e mais.

Nesse sentido, em relação às indagações, trata-se da ciência: é uma característica do subsolo, pois ela apresenta o resultado (por exemplo, a matemática, a física e a química) pronto e acabado através do cálculo, completamente exterior ao indivíduo. A respeito dessa observação, há uma crise existencial: com os resultados de todos os problemas definidos, não haveria uma espécie de banalização da humanidade? O homem moderno, por mais que ele tenha todas as armas para resolver os males da humanidade, ele acharia muito enfadonho realizar o ideal do progresso por completo, em que todas as pessoas serão felizes, isto é, preferirá procurar consolos subjetivos e individualistas para sanar seu existencialismo.

Assim, além de fazer uma crítica ao romantismo, o narrador também critica o modernismo, caracterizado pelo ingênuo otimismo em relação ao destino humano. Há uma espécie de paradoxo dos principais movimentos artísticos dos novecentos: o modernismo e o romantismo.

Logo está o anti-herói dostoiévskiano perfeitamente narrado pelo homem que se considera “malvado” e individualista por conta do fato de que em seu tempo isso é muito comum e banal, como uma dor de dente que gera prazer ao portador porque com seus gemidos pode incomodar os seus semelhantes. No entanto, como exposto anteriormente, o narrador afirma não ter maldade, isto é, como se ele fosse uma vítima de seu tempo… a modernidade.

Enfim, Dostoiévski desenvolveu uma excepcional análise dos caminhos traçados pela modernidade, no qual sua obra Memórias do Subsolo é tão atual quanto na época que foi escrita, um ótimo livro para entender a sociedade contemporânea. Justamente por conta do vanguardista, do homem de seu tempo, as desventuras do indivíduo moderno.

Para concluir, uma frase de Nikolai Tchirkóv sintetiza a obra: o homem do subsolo “fala do doentio processo de tomada e consciência acerca de suas vivências”. O homem-rato, o homem-bílis, o homem de debaixo da terra, é um ser ainda não compreendido na íntegra. Chamá-lo de frustrado, apenas, é simplificar o seu ser terrível e a razão de seu comportamento. Por incrível que pareça, sua revolta não é com a vida, “Até na aflição a vida é boa. É bom viver no mundo, ainda que se viva seja lá como for”. Nem com o fato de sua aparência não representar sua personalidade, intelectualmente evoluída. Pode ser que seja um falso, um mentiroso compulsivo. O homem do subsolo é, arriscando uma tese simples, o motivo de Dostoiévski para dar uma de suas lições. É o início desse profícuo exercício.