Harry Potter sob o peso das expectativas

Novo volume da saga chega às livrarias já muito bombardeado. Ainda assim, é um momento de alívio para fãs que nunca concordaram em abandonar o universo de J.K. Rowling

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Ilustração que ganhou a capa da obra “Harry Potter and The Cursed Child” | Reprodução

Bruna Aidar

É seguro dizer que em algum momento de 2007, todo ávido leitor de Harry Potter se viu desconsolado ao terminar de ler as 590 páginas do último volume da série, “Harry Potter e as Relíquias da Morte”. Encerrava-se, naquele ano, a saga de sete volumes iniciada pela britânica J. K. Rowling, em 1997. Uma década separava o primeiro e o último lançamento e isso significou, na prática, uma geração que literalmente cresceu acompanhando a história do “Menino que Sobreviveu”. Superar dez anos de história não é tarefa fácil e aquele último capítulo, sucinto, não muito ajudou na assimilação do fim.

Nele, Rowling dá uma indicação de como as coisas se encaminharam para os personagens principais, mas sem muitas novidades e sem que não pudessem ser, logicamente, deduzidas. Harry se casa com Gina Weasley e tem três filhos, todos batizados em homenagem a figuras importantes na vida do protagonista, como seus pais, Tiago e Lilian Potter, o padrinho Sirius Black, o professor Severo Snape e o diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore. Seus melhores amigos, Hermione Granger e Rony Weasley, resolvem a tensão que sempre existiu entre eles e da união também nascem dois filhos, Rose e Hugo.

Lançado mundialmente no domingo, 31, data que marca o aniversário de Harry e de sua criadora, “Harry Potter and The Cursed Child” é um suspiro aliviado. Depois do turbilhão de questões que o derradeiro capítulo suscitou, o texto teatral dá aos órfãos da saga a chance de passar mais 300 páginas em um universo que eles nunca concordaram em abandonar. Mesmo relativamente curto (afinal, é o texto de uma peça), o novo livro dá a sensação de que as coisas ficaram menos abertas que naquelas últimas páginas de 2007.

Nove anos depois do fim, “The Cursed Child” esclarece, mesmo que brevemente, algumas das dúvidas que restaram com “Relíquias da Morte”. Aqui, cabe ressaltar que, para quem passou dez anos acompanhando a vida de um personagem, é extremamente difícil deixar de fazê-lo. Queremos, precisamos de mais. Sabemos que Harry se casou, é pai de três, enfim, tudo bem; mas e o que mais? Como foi o casamento? Como Harry lidou com as perdas da Batalha de Hogwarts? Como é sua vida como auror do Ministério da Magia? E mais: como ele se saiu sendo pai? como seus filhos lidam com o peso de serem herdeiros daquele que salvou o mundo bruxo?

É esta última questão, na verdade, que inspira a obra. Nela, somos melhor apresentados a Alvo Severo Potter, o filho do meio do casal Potter-Weasley. Ao contrário de seus irmãos, James e Lily, Alvo se sente massacrado pela pressão de suceder o famoso Harry. Enquanto a trajetória de seu pai, em Hogwarts, envolve integrar o time de Quadribol já em seu primeiro ano, se tornar capitão do time, salvar a escola diversas vezes, vencer um Torneio Tribruxo arquitetado para matá-lo, entre outros feitos, Alvo se vê desconsolado ao ser sorteado para a infame Sonserina, não ser muito popular, ter dificuldade nas aulas e não conseguir nem tirar sua vassoura do chão, nas aulas de voo. Se Hogwarts era o melhor lugar do mundo para Harry, seu filho fica deprimido só de pensar em ir para lá ao final de cada verão.

Além da dificuldade em se ajustar, Alvo e Harry têm uma relação delicada e, por vezes, hostil. O filho rejeita a herança que seu sobrenome traz e sente a frustração de não corresponder aos anseios que todos têm para ele. A relação dos dois, apesar da tensão, é tocante por nos fazer lembrar do próprio Harry, lá atrás, quando o conhecemos: sufocado pela fama que o precede enquanto sujeito, tentando lidar com o constante julgamento e com as expectativas que os outros tinham dele. Alvo é, mesmo que não perceba, o filho mais “Potter”, dentre os três.

O desenrolar da história, aliás, começa aí. Depois de ouvir seu pai conversando com um amargurado Amos Diggory, que ainda não superou a morte de seu filho, Cedrico, e que tenta revivê-lo, Alvo decide fazer a vontade de Amos e trazer de volta o jovem, morto por ordem de Voldemort, durante o Torneio Tribruxo. Para ele, fazê-lo seria uma maneira de vingar as vidas inocentes que foram tomadas durante os anos que Harry lutou contra o “Lorde das Trevas”. No seu entendimento, seu pai arrastou muita gente para o conflito e, por isso, o sangue estava em suas mãos.

Amos procura Harry ao ouvir que o Ministério confiscou um Vira Tempo, artefato proibido depois da Batalha de Hogwarts. Arrastando seu melhor amigo, Scorpius Malfoy e a suposta sobrinha de Diggory, Delphi, com ele, Alvo invade o escritório de Hermione e rouba o item, mesmo vendo os esforços de Harry e Hermione para impedir que ele fosse usado.

Outra vez evidenciando sua semelhança com o pai, Alvo precisa colocar a mão no fogo para confirmar se queima: ele aprende na marra, assim como Harry, Rony e Hermione fizeram, no passado, a não brincar com o tempo. Usar o Vira Tempo para mudar o curso da história cria realidades alternativas e coloca Alvo e Scorpius em mundos muito diferentes daquele que eles conhecem.

Harry

Encerrava-se, em 2007, com “As Relíquias da Morte”, a saga de sete volumes iniciada pela britânica J. K. Rowling, em 1997 | Reprodução

É nestas viradas que “The Cursed Child” se revela, mais uma vez, uma obra sobre “como”, no plural; como o universo de Harry seria se nada disso tivesse acontecido? E, assim, o casamento de Rony e Hermione, a derrota de Voldemort, a redenção de Malfoy. As respostas vêm em cenas curtas e mesmo superficiais, mas elas estão ali, nas realidades vivenciadas pelos filhos de Harry e de Draco. Nestes breves momentos, já no terceiro ato, sabemos que Snape seguiria fiel a Dumbledore, ajudando os rebeldes Rony e Hermione a se esconderem dos dementadores, que Malfoy ocuparia o cargo que hoje é de Harry e que Dolores Umbridge seguiria no comando de Hogwarts.

Se motivo de muita reclamação e críticas negativas por parte dos fãs, decepcionados com a semelhança entre o texto e as chamadas “fanfics”, histórias escritas por leitores a partir do universo de uma determinada obra, “The Cursed Child” tem pelo menos um mérito indiscutível: o destaque para o carismático filho de Draco, Scorpius. Enquanto o pai era um adolescente arrogante, preconceituoso e mesquinho, Scorpius surpreende pelo caráter e pela personalidade doce. E sua amizade com um Potter é um momento de trégua na conturbada relação entre seus pais, que, até mesmo no novo volume, tem seus problemas.

Draco, por sua vez, talvez seja quem nos tenha deixado mais curiosos ao final de “Relíquias da Morte”. Um dos mais complexos personagens da série, estrangulando-se entre a herança dos pais Comensais da Morte e o terror de ver um mundo dominado por Voldemort, Draco foi destaque no último livro. Tendo passado aquele ano na escola, trabalhando para que o vilão Voldemort conseguisse invadir Hogwarts e, assim, terminar o que havia começado, quando tentou matar Harry e não conseguiu, Draco demorou, mas reuniu coragem para recuar, ao vislumbrar o que o futuro reservaria.

Em “The Cursed Child”, ele conta um pouco do que sua atuação ao lado de Voldemort trouxe para sua vida. Casado, isola-se do mundo, e, mesmo assim, vê-se vítima de rumores sobre seu filho: Scorpius seria, na verdade, filho do próprio “Lorde das Trevas”, visto que não seria capaz de engravidar a esposa, Astoria. Os boatos dizem qeu eles teriam utilizado um Vira Tempo para que ela voltasse no tempo e tivesse um filho de Voldemort.

O herdeiro de Voldemort, aliás, é o ponto mais polêmico da obra e, na verdade, quase dispensável. Se das ações de Alvo e Scorpius decorrem algum problema, o maior é relacionado a este personagem, que, na verdade, é uma mulher (e não, como diziam as más-línguas, Scorpius; e o nome do personagem fica resguardado, aqui, por conta de spoilers). Ao descobrir o Vira Tempo, ela tenta impedir seu pai de falhar ao matar Harry e, assim, perder muito de seus poderes. É difícil imaginar um volume de Harry Potter sem um verdadeiro vilão para combater, mas talvez introduzir uma filha de Voldemort na história tenha sido forçar a barra. De todo modo, apesar do destaque que uma personagem do tipo deveria receber, ela nem de longe é o principal assunto do livro e serve mais para aproximar Harry do filho que para fazer algum tipo de dano permanente. Por isso mesmo é que acaba sendo meio inócua.

A despeito de quaisquer críticas quanto à construção dos personagens ou mesmo quanto ao caráter dito amador do texto, entretanto, “The Cursed Child” vale a leitura de quem está ávido por mais do universo de Hogwarts. Não é fácil para Jack Thorne satisfazer, no pequeno espaço de tempo de uma peça, as expectativas acumuladas por anos pelos fãs da história. Mas, embora muitos tenham se decepcionado e achado o livro uma fanfic, ele não é.

A obra carrega, ao contrário dos textos que pipocam pela internet, a chancela de oficial. E, mesmo com uma ou outra falha, trabalha bem os dois principais temas que se propõe discutir: o mundo bruxo pós-Voldemort e o Harry adulto, com tarefas não tão complicadas como encontrar partes da alma de um vilão, mas, finalmente, terrenas: lidar com papeladas, com um filho adolescente e com as dores que o passado traz.

Depois de tantos desafios, perdas, enigmas e batalhas, no entanto, um pouco de normalidade faz bem. Convenhamos, assim como Harry, nós crescemos. E, agora, os conflitos são outros.

Foto: Reprodução

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