Harold Bloom e os fantasmas de Homero e Shakespeare

O pensamento do crítico estadunidense se enfeixa sob a rubrica geral da literatura comparada a partir de sua formulação em torno da teoria literária a que ele denomina de angústia da influência

Gismair Martins Teixeira *

O último dia 23 de abril assinalou no calendário comemorativo da cultura mundial o Dia Internacional do Livro. Um dos motivos da escolha da data é o fato de nesse dia ter falecido o poeta e dramaturgo inglês, William Shakespeare, em 1616. Para o crítico estadunidense, Harold Bloom, o autor de “Hamlet” representa uma força da natureza, um verdadeiro deus encarnado, cuja produção incompreendida em seu tempo representa uma espécie de profecia cultural e, ao mesmo tempo, formativa do gênero humano em seu caráter civilizacional.

O pensamento crítico de Bloom se enfeixa sob a rubrica geral da literatura comparada a partir de sua formulação em torno da teoria literária a que ele denomina de angústia da influência. Em linhas gerais, trata-se do conflito íntimo que cada autor acalenta em relação a um grande nome do passado em sua área de criação, o que o leva a admirá-lo como expressão máxima enquanto alimenta o secreto desejo de superá-lo, num mecanismo freudiano que faz lembrar o parricídio simbólico. Assim, por exemplo, quando James Joyce escreve o seu clássico “Ulisses”, no início do século 20, não só presta uma homenagem literária a Homero, como tenta superá-lo.

Harold Bloom e seu conceito de angústia da influência, conflito íntimo que cada autor acalenta em relação a um grande nome do passado em sua área de criação | Foto: Divulgação

As exemplificações, no entanto, poderiam ser multiplicadas ao infinito. O próprio Homero, segundo Bloom em “Gênio: Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura”, padeceria da angústia da influência. Embora sua obra praticamente inaugure a literatura ocidental, as narrativas da “Ilíada” e da “Odisseia” – assumida a premissa de que se trata historicamente do mesmo autor -, representariam a tentativa homérica de superação relacionada aos narradores orais que o antecederam, ignorados pela história humana por ausência de registros, o que põe em relevo a importância da escrita no contexto da cultura em seu desenvolvimento no tempo e no espaço.

Infere-se da exposição do crítico norte-americano, ao longo de diversas obras em que explora sua formulação em torno da angústia da influência, que a tarefa de suplantar o autor modelo é uma empreitada das mais difíceis do ato criativo, redundando muitas vezes em fracasso. Por sua gigantesca força cultural, Homero representa um dos modelos que mais inspiraram autores de diferentes épocas e lugares. Os épicos que lhe sucederam, como os de Virgílio, Dante Alighieri, John Milton e Luiz Vaz de Camões, prestam seus tributos ao poeta helenista.

A grande força dramatúrgica e poética de William Shakespeare, no entanto, poderia ter conferido a ele uma quase excepcionalidade em termos de angústia da influência. Para Harold Bloom, de fato, o poeta inglês seria a exceção de sua regra teórica. A possível concessão que Bloom faz em sua vasta produção teórica é representada por um grande “talvez”. Talvez Shakespeare tenha padecido, em maior ou menor escala, da angústia da influência em relação a algum nome anterior.

Pátroclo e Hamlet
A narrativa da “Ilíada” traz em suas páginas a história do cerco da cidade de Ílion, situada na região de Troia, por parte dos gregos, ou aqueus, em virtude do rapto de Helena, a esposa de Menelau, por Páris. A guerra envolve homens, deuses e semideuses. O semideus Aquiles, filho da ninfa Tétis com o rei humano Peleu, é o guerreiro imbatível, que durante a guerra fica ausente dos combates por conta de sua desavença com o rei Agamênon, que lhe usurpara um prêmio de guerra, a bela Briseida.

Aquiles pede a interferência materna junto a Zeus para que a guerra se torne difícil para os gregos; assim, Agamênon teria de implorar sua ajuda. O pai dos deuses atende ao pedido de Tétis. Mas os desígnios do Olimpo são traiçoeiros. No auge da guerra, Aquiles envia seu companheiro, Pátroclo, para a batalha. Ele é assassinado em combate por Heitor, líder dos troianos. A ira de Aquiles atinge o auge. Ele entra na guerra, assassinando Heitor em combate, arrastando o seu cadáver de forma desonrosa. O corpo de Pátroclo é mantido sem dar prosseguimento aos ritos funéreos.

Nos versos de 60 a 110, do canto 23, Homero narra a visita da alma de Pátroclo a Aquiles durante o sono. O amigo morto solicita que o semideus complete a cremação para que ele realize sua passagem definitiva para o além, pois se encontrava na condição de alma que estava entre o mundo dos vivos e o Hades, a mansão dos mortos, impossibilitada de lá adentrar de vez por conta de seu corpo estar insepulto. Aquiles encerra o diálogo com estas palavras da tradução lusitana de Frederico Lourenço: “Ah, é verdade que até na mansão de Hades subsiste/uma alma e um fantasma, embora sem vitalidade alguma!/Pois toda a noite a alma do desgraçado Pátroclo esteve/junto de mim, chorando e lamentando. Sobre cada coisa me/deu recomendações, assombrosamente a ele se assemelhando”.

Pátroco solicita a Aquiles as exéquias completas para que descanse junto aos demais fantasmas. Em “Hamlet”, por sua vez, William Shakespeare retoma o etos de Pátroclo e Aquiles desses versos homéricos com a aparição do fantasma de Hamlet-pai. A alma penada shakespeariana, todavia, acrescenta um elemento da construção do humano, da referência de Harold Bloom, que é bastante presente na humanidade: o da vingança. Hamlet-pai se apresenta a Hamlet-filho na condição de alma penada a Pátroclo, que necessita não das exéquias completas para descansar em paz, mas sim da vingança em relação a seu assassino.

Na peça de William Shakespeare aparece, ainda, outro dado que representa um transcender, característico das proposições bloomianas da angústia da influência, de um autor que suplanta o seu modelo. Aos trechos esparsos pela peça que reproduzem a fala do fantasma, que apresenta minudências de sua situação no além, Hamlet-filho aduz que ninguém sabe sobre a vida além-túmulo, pois jamais alguém voltou para falar sobre ela, numa franca contradição com sua angústia existencial de vingança orientada pela alma defunta de seu pai, que lhe solicitara a punição a seu padrasto-tio, Cláudio, usurpador fratricida do trono da Dinamarca.

Conforme Harold Bloom, o assassinato de Hamlet-pai pelo irmão ecoa o etos bíblico de Caim e Abel, não chegando, todavia, a constituir uma angústia influenciadora na composição de “Hamlet”. O fantasma de Pátroclo, a quem Homero-Aquiles apresenta como “assombrosamente a ele se assemelhando”, é retrabalhado por William Shakespeare, que detalha em sua peça a assombrosa semelhança do fantasma hamletiano arrematando a narrativa com a suprema ironia da asserção de que jamais alguém voltara do mundo pós-morte para dar notícias dele. Em seus escritos, o crítico norte-americano vai definir a ironia como o dizer algo com a intenção de exprimir um significado oposto ao que é dito.

Uma abordagem comparatista entre as características dos fantasmas apresentados por Homero e William Shakespeare permite, portanto, que a angústia da influência, que envolve ambos os autores exponenciais da literatura universal, seja posta em perspectiva para que pesquisas mais detalhadas sejam realizadas em uma abordagem intertextual.

* Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO, doutor em Letras e Linguística pela UFG, professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.

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