“Há uma grande lacuna na exploração artística das relações entre dois homens”, diz Tobias Carvalho

O vencedor do Prêmio Sesc de Literatura dá seus primeiros passos na carreira com sinais de que se trata de um escritor com uma perspectiva delicada sobre as relações humanas

Ricardo Silva

A literatura que tem como tema os afetos homoafetivos se caracteriza, majoritariamente, com histórias de descoberta desse desejo que gera tantos conflitos internos e externos. Tobias Carvalho, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2018 na categoria contos, no entanto, rompe com essa “tradição” e situa suas histórias no campo da vivência, dos desafios, das complexidades da vida homossexual.

Com forte tinta autobiográfica, “As Coisas” (Record, 144 páginas) toma para si a responsabilidade de retratar o afeto gay sem floreios, sem a intenção do choque gratuito. Os contos de Tobias Carvalho são atravessados de espontaneidade, sem afetação. É uma obra que tira da cortina da invisibilidade esses amores que existem, acontecem e que guardam seus próprios dilemas, como toda dimensão amorosa.

Tobias Carvalho escreve uma coletânea poderosa justamente porque carrega em si a força da naturalização dos afetos, de todos eles. Em “As Coisas” a dor, o desejo, o sexo, o tédio, as desilusões, os medos e receios, tão intrínsecos às relações amorosas, se engendram com tanta potência que o leitor fica com a impressão de ter lido um romance fragmentado em pequenas histórias que se costuram numa fina, mas coesa, linha narrativa.

As curtas narrativas de Tobias Carvalho misturam-se num mosaico realista, onde a prosa capciosa serve como subterfúgio para mostrar a beleza dos afetos existentes nas relações homoafetivas, mas não somente nestas. Os personagens gays do jovem escritor sulista apresentam-se ao leitor exatamente como são: humanos de carne e osso que sofrem por amor, se sentem rejeitados por este mesmo sentimento, e que também buscam na superficialidade da pele a casualidade do sexo que atende aos desejos mais imediatos. Não há pudor nas 23 histórias do livro. Não existe tentativa de camuflar a realidade que está estabelecida na vida dos seus personagens que, por vezes, soam tão próximos e compartilham experiências tão íntimas e semelhantes, que parecem se tratar de desdobramentos da mesma persona.

A realidade homoafetiva que o escritor coloca na sua sucinta coletânea é límpida, por vezes cruel e, em outras tantas vezes, profundamente solitária. Outras vezes, essa realidade mostra-se assim, sem muitas reflexões ou buscas filosóficas e existenciais. Ela está ocupada tão somente com aquilo que existe no presente, no agora, sem nada a acrescentar.

Tobias Carvalho, autor de “As Coisas” | Foto: Reprodução

“Falta isso, né? Histórias para falar dessas relações que existem. Tem uma caralhada de filmes com dois caras se descobrindo, isso já vimos. Mas e depois? As relações das bichas são diferentes. A gente já não se encaixa nas regras, não precisa se encaixar em padrão nenhum”, afirma um dos personagens de Carvalho no conto “Um não esquece o outro”.

Leitura breve e reveladora, o curto livro de Tobias Carvalho é de uma beleza ímpar e nos inspira reflexões perenes sobre os afetos e suas dimensões mais profundas. Para saber mais sobre “As Coisas” e seu autor, entrevistei Tobias brevemente onde ele fala sobre literatura, política, e seu próximo projeto.

Entrevista

Uma das características essenciais da sua coletânea de contos é a de que não se trata de uma obra que aborde as vivências das experiências homoafetivas a partir de um viés de descoberta da própria orientação sexual, tão comum em livros com protagonistas e/ou narradores gays. Como se deu a escolha dessa abordagem nos seus contos? Existe(iu) uma intencionalidade nessa construção? Se sim, como ela aconteceu?

Sim, existiu. Comecei a pensar que a arte que trazia essa temática ainda estava muito centrada na aceitação. Para mim, ainda existe uma lacuna grande de exploração artística das relações entre dois homens. Às vezes, as pessoas estranham o fato de, na maioria dos meus contos, a homossexualidade não ser uma questão. Os personagens apenas vivem as relações. É uma naturalidade imposta mesmo. Não porque eu quisesse tocar uma agenda; foi uma escolha estética que permitiu que os contos explorassem outras coisas.

Em muitas de suas entrevistas, você evita classificar “As Coisas” como uma obra de autoficção. Existe uma fronteira na qual você consiga distinguir, na sua produção literária, o que é oriundo da sua experiência pessoal e o que está no campo da pura abstração ficcional? Considera a auto-ficção como um gênero em si ou tende a estar ao lado de Jorge Luis Borges que acreditava que toda literatura, no fundo, é autobiografia?

Para qualquer tipo de literatura, a resposta é a mesma: por um lado, tudo o que um autor escreve parte dele; não há como escrever algo que esteja 100% em outro lugar. Por outro, tudo o que se escreve é uma reelaboração, uma visão determinada. Mesmo que se escreva sobre uma experiência pessoal, já se está fazendo ficção. Juntando as duas pontas, percebemos que os escritores estão sempre misturando tudo: vivências, ideias, passagens perdidas no subconsciente, histórias que nos contaram. Me interesso pela autoficção porque ela deixa evidente ou mesmo radicaliza essa ideia de ficção como uma determinada visão de um acontecimento. E faz sentido pensar na questão do autor neste momento de fragmentação do indivíduo, redes sociais, etc. Mas é claro: acho que autoficção continua sendo ficção apenas. Não acredito que uma obra tenha mais ou menos valor apenas porque reflete algo que aconteceu de verdade. Até porque, como sabemos através da ficção, a verdade é um conceito amplo.

“Falta isso, né? Histórias para falar dessas relações que existem”, afirma um dos personagens do seu livro. Num país como o Brasil, com histórico fortemente anti-minorias e com um recrudescimento de discursos de natureza homofóbica sendo propagados por lideranças políticas, até que ponto você considera que “falar dessas relações que existem” no ato da escrita literária é tomar uma posição política? O que você pensa a respeito dessa noção que mistura a arte e a política? Acredita que o discurso da literatura pode estar desatrelado do discurso político ou que a literatura pode adotar uma postura “neutra” diante de uma realidade social efervescente como a nossa?

Há mais de uma resposta para esta pergunta. Quando escrevi “As Coisas”, falar em Bolsonaro como presidente ainda era uma piada (há, inclusive, no livro, um personagem machão descrito como “um provável eleitor do PSDB”). Ninguém esperava estar vivendo neste mar de obscurantismo. No contexto de agora, parece que o livro tomou outro significado. No Brasil de 2019, estar do lado da arte é tomar um lado. É político. Mas o livro nunca foi pensado como uma reação a uma situação política. E não acredito que devesse ser. Na minha opinião, a arte é forte quando a liberdade de criação é total. Me parece que o resultado é mais eficiente (no sentido de trazer um grãozinho de humanidade às pessoas) quando a literatura não mira em um objetivo.

Há certo debate no meio acadêmico e literário sobre as vantagens e desvantagens a respeito do rótulo “literatura gay” — o mesmo acontece a respeito da considerada “literatura lésbica”. Como você considera essa classificação? No que ela pode limitar ou interferir nas interpretações ou ainda na experiência de leitura daqueles que se encontram com as obras que estão sob esse rótulo? Você considera que a literatura que você produz pode ser considerada a partir dessa perspectiva?

Acredito que esse rótulo tem um sentido: dar um espaço de destaque a um tipo de literatura rechaçado justamente porque essa parte da população foi, desde sempre, rechaçada. É inegável que esse espaço é importante. No entanto, acredito que essa adjetivação da literatura é um limite. Nunca ouvi falar de “literatura hétero”, por exemplo, porque livros assim são chamados apenas de “literatura”. O que eu faço também é literatura. E ainda pretendo escrever sobre muita coisa ainda. É importante que não haja essa distinção dentro da arte, e que as narrativas que centralizam o queer sejam vistas como quaisquer outras, ou seja, como universais.

Você está preparando um romance que tem previsão de lançamento para 2020. A quantas anda o projeto? Como tem sido a experiência na produção da sua primeira narrativa longa? Quais os desafios que você tem enfrentado na escrita do seu romance que sente não ter tido na elaboração da sua coletânea de contos? Qual é a diferença que tem sentido na escrita de gêneros tão distintos e com exigências tão específicas?

Não é raro que eu fale de um projeto e que depois desista dele, ou que ele mude substancialmente (isto é, não sei ainda se vai ser em 2020 ou em 2025, mas continuarei esperançoso). A aventura pela narrativa longa, ao contrário do que alguns dizem, me pareceu muito mais difícil do que pelo conto. Mergulhar em uma história por tanto tempo pode ser desgastante. Além disso, a estrutura do romance exige que o escritor seja responsável por muitos detalhes a serem concatenados ao mesmo tempo. Uma mudança pequena pode gerar uma série de outras mudanças em cadeia. Ainda estou me adaptando, e achando, ao mesmo tempo, um barato e um inferno.

Ricardo Silva, crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

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