Marcos Carvalho Lopes

Para Murilo e Eduardo Ferraz

“Procurei a mim mesmo”, Heráclito de Éfeso

Lançado pela editora da Universidade Federal de Goiás em 1997 o livro “De Como Fazer filosofia Sem Ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio”, de Gonçalo Armijos Palacios, completou 25 anos, mas, infelizmente, não perdeu sua atualidade e nem teve uma resposta efetiva. É certo que as sucessivas reimpressões e reedições desta obra parecem indicar que é uma obra de sucesso, porém, paradoxalmente, talvez este interesse reafirme o problema contra o qual o autor se lançou: de que a filosofia não é tomada como um campo de debate sobre problemas, mas como uma formação erudita, que serve para criar um público capaz de comprar (e ler) livros.

A questão “para que serve a filosofia?” ou “qual a sua utilidade” quando colocada em uma sociedade de passado escravagista e de desigualdade persistente e naturalizada é geralmente recebida com desdém e uma resposta evasiva (sobre a utilidade da inutilidade ou serventia de não servir) ou autoritária (por repetir, com arrogância, algo dito por um filósofo canônico, considerado gênio e geralmente morto). Ora, o primeiro programa de pós-graduação do interior do Brasil foi criado na UFG em 1993 e, efetivamente, precisava se justificar produzindo resultados em termos de produção e formação de qualidade.

Esse “debate implícito” pode ser reconstruído pela série de publicação daqueles anos iniciais da pós-graduação em filosofia dos quatro autores que, além de Gonçalo Palacios,  eram seus pilares: José Nicolau Heck publicou duas edições de seus “Estudos de Terminologia Filosófica” (UFG, 1992 e 1996) e a coletânea de ensaios “Materialismo e Modernidade” (UFG, 1994), além da organização, com Adriano Naves de Brito, do importante “Ética e Política” (em dois volumes, UFG, 1997); Jordino Marques publicou a tradução de sua tese de doutorado “Descartes e Sua Concepção de Homem” (São Paulo: Loyola, 1993) e Joel Pimentel de Ulhôa também publicou sua tese “Rousseau e a Utopia da Soberania Popular” (UFG, 1996) e “Reflexões Sobre a Leitura em Filosofia” (UFG, 1997).

Gonçalo Palacios: professor de Filosofia da Universidade Federal de Goiás | Foto: Reprodução

Se olharmos para a publicação de artigos e ensaios, o questionamento da tarefa e sentido da filosofia permaneciam uma tônica em escritos endógenos, como o ensaio “Novo Mundo, Velhas Filosofias” publicado por Gonçalo Palacios em 1994 (na revista “Ciências Humanas em Revista”, v.4 n1/2 – jan./dez. 1993). Neste texto seminal, Gonçalo Palacios se afastava da ideia de uma filosofia tomada a partir da cultura (latino-americana, brasileira etc.), sua pergunta é sobre a filosofia na América-Latina, no Brasil etc. Isso significava se afastar da oposição em relação a filosofia europeia ou norte-americana: “O problema não é fazer filosofia nossa, mas nós fazermos filosofia, ou fazermos filosofia por nós mesmos” (1993, p.47). Isso significa, avaliar e produzir filosofia a partir de nossos temas e problemas, movimento que na busca por aceitação da Europa ou do litoral-sudestino (aqueles que se acham bandeirantes do universal), “diminuímos o sertão, o cerrado, e preferimos a neobarbárie paulistana ao abandono e solidão do interior do Brasil” (Idem). Em contraste, “Villa-Lobos, João Gilberto, Borges, Gabriela Mistral, Candido Portinari, Guayasamín forjam a música, as letras e as artes propriamente latino-americanas porque eles gostam e ‘curtem’ o que os rodeia, veem arte, poesia, beleza nesta terra e nesta gente, nestas paisagens; porque eles gostam de si mesmos, se curtem e curtem a sua criatividade, a sua originalidade, a sua potencialidade. Eles têm tido amores pelos quais se apaixonaram e nos apaixonaram” (p,49-50).

Existe uma tensão entre o tipo de tecnicismo acadêmico e modelo de exigência de publicação que faz parte das exigências redobradas para criação/manutenção de programas de pós-graduação que não estão nos grandes centros e a busca por uma forma de filosofar que responda as questões e temas de seu tempo e lugar. De certo modo, as exigências do academicismo copiavam o modelo dos scholars e da profissionalização da filosofia, afastando o modelo “elitista” do intelectual crítico anterior à ditadura. (O golpe militar de 1964 fechou na UFG um programa inédito de graduação em Estudos Brasileiros — o tipo de proposta de pensamento contextualizado que é, em contextos de formação colonial, inevitavelmente subversiva.)

Joel Ulhôa foi professor e reitor da Universidade Federal de Goiás | Foto: Jornal da UFG

Ao mesmo tempo, tendo dois doutorados em filosofia, o primeiro no Equador e o segundo nos Estados Unidos, Gonçalo incorporava em suas reflexões uma crítica ao academicismo da filosofia tomada como profissão, que assustava e destoava do tipo de reflexão padrão no Brasil: cordial (sem debates, como diagnostica Paulo Margutti), distanciada, erudita, obscura, autoindulgente e voltada para o aplauso externo. Gonçalo Palacios tem formação tanto na chamada filosofia continental, quanto na filosofia analítica, tendo inclinações pragmatistas. Na época, dado o desconhecimento do contexto analítico e o preconceito quanto a qualquer filosofia norte-americana (expressão vista como um oxímoro), as críticas de Gonçalo Palacios quanto ao uso excessivo das citações e a falta de posicionamento e recontextualização dos textos, é respondida — na maior parte das vezes — com o silêncio.

Por isso mesmo, a revista “Filósofos”, criada em 1996, se fosse nominada seguindo a vontade de seu editor, o professor Gonçalo Palacios, seria chamada “Polemos”, nome que marcaria o sentido de debate que ele queria que a revista tivesse: o pré-socrático Heráclito de Éfeso considerava que é o conflito (polemo) pai de todas as coisas, é ele que separa humanos, deuses, escravos e libertos.

Para Gonçalo Palacios a filosofia não se faz ou se desenvolve sem debate de ideias, e é por intermédio do jogo público de pedir e dar razões que podemos aperfeiçoar nossos argumentos. Pondo em prática essa perspectiva, no primeiro número da revista “Filósofos” Gonçalo publicou o artigo “Filosofia, impossível defini-la” em que dialogava criticamente com o texto “Refletindo sobre o trabalho de filosofar” de seu colega de departamento Joel Pimentel de Ulhôa, publicado no ano anterior.

Em seu texto Joel trouxe uma definição extremamente estreita da filosofia como sendo “um sistema coerente de conceitos e princípios teóricos, muito bem articulados entre si e voltados para a explicação da essência da realidade e para a fundamentação crítica do próprio conhecimento” (Ulhoa, 1995, p.5). 

Hugo de Carvalho Ramos: autor de “Tropas e Boiadas” | Fotos: Reproduções

Gonçalo Palacios mostra como essa definição não se sustenta, por pressupor em seus termos um tipo de atitude fundacionista e essencialista que não abarca todos os autores que nomeadamente são reconhecidos como parte da história da filosofia. É necessário reconhecer a pluralidade de filosofias e realidades históricas distintas, nas quais encontramos diferentes problemas que nos movem para filosofar. Ao mesmo tempo em que fala da impossibilidade de definir a filosofia, Gonçalo Palacios descreve e demonstra um tipo de atitude performática que procura mostrar que o filosofar se faz em debate diante de problemas. 

Neste sentido, o autor descreve uma encruzilhada necessária: a que distingue quem faz filosofia — construindo um sistema próprio para resolver as questões que lhe afligem — daqueles que adotam o sistema e as respostas de outra pessoa. Nesta segunda categoria estavam a maioria dos professores de filosofia do Brasil, que são “comentadores e especialistas em filósofos não-brasileiros. Dificilmente tem alguma novidade filosófica, a não ser uma novidade de interpretação, alguma novidade hermenêutica. Ou são excelentes historiadores. Mas, convenhamos, um historiador de arte não é artista, um historiador de literatura não é um literato, assim como um historiador da ciência não é um cientista” (p.41).

Embora não concorde com a tese de Joel Ulhôa, é a tentativa de propor uma definição que permite que esse debate aconteça. Isso é saudado por Gonçalo Palacios como abertura para filosofar.

No entanto, Joel Ulhôa tinha uma concepção distinta da filosofia. De formação uspiana, o professor ao mesmo tempo tinha críticas ao modelo estruturalista de leitura, mas incorporava a certeza (do departamento de Filosofia, mas não da turma da Filosofia do Direito) de que o tema da filosofia brasileira ou de filosofar no Brasil estava fora de lugar. O filosofar originário seria tarefa de gênios (que traduzem seu tempo e pensamento), restando aos que trabalham com a filosofia no Brasil manterem uma relação “viva” com a história da filosofia, compreendendo os problemas que originaram aquelas respostas canônicas. É certo que Joel Ulhôa, aos se afastar do modelo de leitura imanente e estrutural, que havia sido padrão na USP, propunha um tipo de desvio criativo (que, depois, vai chamar de “leituras”), que respondia a uma pergunta que Gonçalo Palacios qualifica como crucial.

Diz Joel Ulhôa: “O que é que eu, que estudei tanto, e tanto ‘assimilei’, eu, que conheço as obras de tantos filósofos, o que é que eu devo fazer, e como devo fazer para assumir a ‘atitude filosófica’? O que é, na prática, filosofar? …Se eu tivesse que me manifestar, como filósofo… sobre um dado assunto, como farei? o que direi?…” (Ulhôa citado por Palacios, 1996, p.50).

Curiosamente, Gonçalo Palacios termina seu artigo sobre a impossibilidade de definir a filosofia concordando com a resposta dada por Joel Ulhôa quando ele diz: “Farei filosofia quando compreender a tensão existente entre eu e meu mundo, quando identificar os problemas filosóficos que me perturbam e mobilizam e procurar eu mesmo resolvê-los ao meu modo”.

Porém, Gonçalo Palacios acrescenta: “Desde que tais problemas sejam realmente novos ou tais soluções sejam diferentes” (Idem, p.50). 

O que Joel Ulhôa chamaria de “a meu modo” inclui o diálogo e recontextualização da história da filosofia, seu problema não era a “angústia da influência”, mas a “angústia do silêncio” (diferença que descrevi no meu “Máquina do Medo”, PUC/Kelps, 2012): o drama da originalidade na periferia se entorta como as árvores do cerrado. Da mesma forma, o debate público não tem no Brasil um ambiente fértil e as críticas tendem a se dissolver em comentários de corredor ou são vistas como ataques pessoais.

Talvez por isso, Joel Ulhôa tenha se esquivado de dar uma resposta e mantido seus argumentos, pedindo truco e dobrando a aposta com a publicação de “Reflexões Sobre Leitura em Filosofia” (UFG, 1997). Este livro provocou Gonçalo Palacios a escrever, em um final de semana prolongado, como resposta, “De Como Fazer Filosofia Sem Ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio”. O livro de Gonçalo Palacios foi dedicado na primeira edição “aos meus colegas, pelo ambiente estimulante para o exercício livre das ideias”.

Não vou neste texto reconstruir o debate entre os autores, mas ressaltar a dificuldade e importância daquele empreendimento que estes professores fundaram. Vou fazer isso lembrando das dificuldades de desenvolvimento das Letras em Goiás e de seus caminhos incertos.

Em crônica de 1866 Machado de Assis saudava, com alguma galhofa, a criação de um Gabinete Literário Goiano na cidade de Goiás: “Veio a notícia em questão pelo último correio de Goiás. A imensa extensão deste país coloca a nossa rica província de Goiás muito além da Europa; para os que veem no Pão de Açúcar as colunas de Hércules da civilização, Goiás assemelha-se àquela região inóspita e escura que os antigos imaginavam existir além do mundo até então descoberto. Sem meios fáceis de comunicação, arredada dos centros populosos, extensa e quase deserta, Goiás parece condenada a receber da sede do Império, apenas os presidentes e as circulares eleitorais. Pois bem, já recebeu mais alguma coisa; Goiás possui uma sociedade literária, criada há pouco menos de um ano, e sustentada pela vontade enérgica dos seus iniciadores”.

Machado de Assis relata a dificuldade de manutenção do referido Gabinete, o apoio financeiro de deputados da província e ressalta sua função para o desenvolvimento das letras pátrias: “Parece que o Gabinete Literário reduz por enquanto sua missão a oferecer leitura fácil, e animar as vocações literárias. Já não é pequena tarefa; e nós acreditamos que com os elementos que tem, isto é, a perseverança e vontade de seus fundadores, o Gabinete Literário Goiano pode cumprir muito à vontade seu programa. Quando mesmo o Gabinete não oferecesse à província mais do que uma ligeira distração literária, ainda assim devia ser sustentado, em favor dos nossos patrícios goianos. Que o Gabinete Literário não esmoreça na sua tarefa; modesto e limitado, ainda, pode desenvolver-se até prestar à província de Goiás serviços de imenso alcance”.

Talvez o papel deste Gabinete Literário Goiano não fosse mais do que “animar as vocações literárias”, mas como notícia Gilberto Mendonça Teles, o escritor Hugo de Carvalho Ramos foi dele um assíduo frequentador. Foi Carvalho Ramos quem recontextualizou o sertão de Euclides da Cunha para pensar a paisagem local, dando abertura a uma trilha seguida por Bernardo Élis e, depois, por Guimarães Rosa. Quem sabe nossa pós-graduação em filosofia, ao animar as vocações filosóficas, esteja gerando silentemente resultados semelhantes. Mas, por ora, o que se ouve é a primavera das cigarras. 

Marcos Carvalho Lopes é professor da Universidade Federal de Jataí.