Fernando Martins dos Santos e Karinne Machado Silva

Especial para o Jornal Opção

O bicentenário da Independência do Brasil (1922-2022) nos remeteu, enquanto historiadores, a pesquisar como foi a repercussão nacional desta mesma data cem anos atrás. Nesse caminhar reverso chegamos à Exposição Internacional comemorativa do Centenário da Independência do Brasil (1822-1922), ocorrida no Rio de Janeiro, entre os dias 7 de setembro de 1922 e 24 de julho de 1923.

A Exposição do Centenário realizou-se em ano emblemático: da Semana de Arte Moderna, da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana (Movimento Tenentista), da fundação do Partido Comunista do Brasil e de acirramento dos embates que levariam ao fim da República oligárquica. Dessa feita, 1922 representa um momento histórico marcado pelas pinceladas da renovação futurista da Semana de Arte Moderna e pela violência coronelística da República Velha. 

Pavilhão dos Estados Foto: Reprodução

O certame foi balizado por eventos que entrariam para a História: a primeira transmissão de rádio no Brasil, que contou, inclusive, com um discurso do presidente Epitácio Pessoa (1865-1942); exibição de filmes nacionais como o “Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos; a fundação do Museu Histórico Nacional; congressos científicos, econômicos e religiosos. Além disso, ciências como Medicina, Economia, Agricultura, História e Engenharia foram discutidas nos 10 meses que se seguiram às comemorações.

Nesse ambiente de festividades, congressos científicos e econômicos, encontramos a participação de Goiás. E a pergunta que subjaz essa participação é: qual lugar o Estado ocupou no contexto das comemorações do centenário da Independência?

Pensar a relação da Exposição do Centenário com Goiás significa conectar um Estado essencialmente agrário, isolado e governado por oligarquias tradicionais a um acontecimento histórico nacional que procurou ressignificar o marco do Grito do Ipiranga.

Cabe destacar que as grandes exposições mundiais, ao longo dos séculos XIX e XX, representaram verdadeiras “vitrines do progresso”. As narrativas das grandes exposições vincularam-se aos ideais de civilização, progresso, modernidade e desenvolvimento econômico.

Panorâmica do Pavilhão dos Estados | Foto: Reprodução

A Exposição do Centenário não foi diferente. O eixo norteador foi a propaganda de um Brasil que desejava ser grande, industrial, economicamente promissor e aberto ao mundo europeu. A participação do Brasil nas exposições mundiais não era em si uma novidade da República, uma vez que desde o período Imperial o país participava desses eventos. Mas as comemorações dos cem anos de Independência deveriam alcançar altas expectativas.

Para contemplar os objetivos propagandísticos dos republicanos, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) liderou as iniciativas para aproveitar o momento e reforçar o tradicional marco político da identidade nacional: a Independência. Segundo o historiador Noé Freire Sandes, “a comissão organizadora não poupou esforços para que o evento ganhasse significado cultural e ao mesmo tempo pedagógico” (Sandes, 2001, p. 133).

Pavilhões nacionais contemplaram aspectos da nossa flora, fauna, minerais, metalurgia, educação, economia e práticas culturais das unidades da Federação. Os pavilhões internacionais — 14 ao todo — abrigaram as delegações estrangeiras, dentre as quais as do Japão, Holanda, Portugal, Tchecoslováquia, Inglaterra, Estados Unidos, Argentina e México.

Noé Freire Sandes: historiador | Foto: Reprodução

Segundo Noé Freire Sandes (2011. p. 130), “Um dos objetivos da exposição foi montar um painel das riquezas de todo o país. O Rio de Janeiro […] era visto como cidade cosmopolita e para lá se dirigiam as delegações dos diversos estados brasileiros que deveriam mostrar o que era genuinamente nacional”.

Houve, inclusive, toda uma remodelação arquitetônica urbana para que fosse possível construir os pavilhões que abrigariam os Estados e os palácios internacionais.

O morro do Castelo, antigo bairro carioca considerado berço da cidade, foi colocado abaixo para que as novas instalações fossem construídas. Transformações na morfologia urbana do Rio de Janeiro causaram críticas da população, que reprovava a destruição de antigos espaços. Mesmo com sérias dificuldades financeiras e debates calorosos, o presidente Epitáfio Pessoa investiu somas vultosas para que as obras fossem concluídas com êxito.

Criar uma identidade nacional significava, paralelamente, conectar o Brasil à modernidade e à industrialização mundiais. A imagem a ser construída deveria consistir em apresentar um país com riquezas naturais promissoras ao mercado internacional. Desse modo se explica a participação de países europeus, asiáticos e da América.

Hugo de Carvalho Ramos queria divulgar aspectos culturais | Foto: Reprodução

A grandeza arquitetônica e a beleza das edificações chamam atenção. O Pavilhão dos Estados, planejado pelo arquiteto Hippolyto Pujol Júnior (1880-1952), foi inspirado na Renascença Francesa e contava com cinco andares, mais de 6.000 metros quadrados e ainda uma torre de 45 metros de altura. A monumentalidade da edificação aponta para o que a Exposição deveria significar:  a promoção econômica do Rio de Janeiro e, por metonímia, do Brasil.

Cada Estado, por meio de uma delegação, escolheria o que seria mais representativo. Apesar do propósito da Exposição do Centenário ter sido mostrar todos os Estados e as suas riquezas, poucos foram realmente contemplados. Segundo alguns documentos, a dificuldade de levar os produtos até o Rio de Janeiro foi um dos principais empecilhos.

Os jornais noticiaram com bastante entusiasmo a participação de Goiás, avaliando que seria uma boa oportunidade para demonstrar seu potencial como unidade da Federação. Nesse sentido, o jornal “A Imprensa” noticiou: “O nosso Estado, como cellula que faz parte desse todo que se chama o Brazil, não pode furtar-se ao dever de comparecer a esse certâmen que se vae realizar no Rio de Janeiro, levando o seu contingente, embora modesto, para realce da Exposição do Centenário.

“Temos vivido até hoje na penumbra, esquecidos de que também fazemos parte da União, relegados sempre para plano inferior, vendo cada passo as nossas aspirações sobrepujadas por outros Estados da União, mais felizes do que nós, que tudo conseguem.

“É chegada, portanto, a nossa vez de comparecer perante o concerto dos outros Estados, mostrando-lhes que temos tambem capacidade para o trabalho, que podemos acompanhar o progresso das outras Unidades, que a nossa inteligência em nada é inferior à dos outros e que anseamos pelo progresso como o naufrago que se esforça ´por apanhar uma taboa a que se agarrar na sua afflicção”. (A Imprensa, 1922, p. 2).

Em um texto sobre o Centenário, o escritor Hugo de Carvalho Ramos — autor de “Tropas  Boiadas” — demonstrou grande entusiasmo, propondo que Goiás divulgasse as suas mais representativas expressões culturais, como as Cavalhadas, as Folias do Divino, as congadas e as danças tradicionais (Quebra-bunda, catiras, cateretês e a Dança dos Camaradas).

O entusiasmo pela Exposição do Centenário em Goiás resultou na criação de comissões locais nos municípios para realizar uma espécie de ensaio do evento na Cidade de Goiás. Contudo, o entusiasmo foi suplantado pelas dificuldades de enviar peças para a Exposição, principalmente devido à grande distância com relação ao Rio de Janeiro.

A revista “A Informação Goyana” lamentou a oportunidade perdida de divulgar as riquezas do Estado: “Infelizmente, apezar dos esforços do governo do Estado, faltou aos seus habitantes o dever patriótico de acudir ao chamado do seu governo para disputar com maior e mais belas amostras, o lugar que lhe competir entre as demais circumscripções da República. Basta dizer, que dos seus 50 municipios, apenas 17 se fizeram representar na Exposição do Centenario – mesmo assim, esquecendo os inúmeros especimens que atestam as suas inexhauríveis riquezas ou possibilidades – talvez por lhes ignorarem o valor deles nas industrias. (“A Informação Goyana”, 1922, p. 27)

Desconsiderando o conselho de Hugo de Carvalho Ramos, Goiás não enviou nada referente aos aspectos culturais do Estado e priorizou elementos referentes à exploração econômica, tais como: minerais, madeiras, plantas medicinais, cereais, produtos farmacêuticos, óleos, cerâmicas, caça e pesca, alguns produtos artesanais e ourivesarias.

Apesar do desinteresse para com as expressões culturais, o Estado de Goiás recebeu mais de oitenta (80) prêmios, entre menções honrosas, diplomas de honra e medalhas de ouro, prata e bronze (“A Informação Goyana”,, 1922), o que aponta para a relevância das nossas riquezas dentro do contexto da Exposição.

Acreditamos que as comissões locais consideraram que a cultura regional reduziria a importância de Goiás e que o destaque deveria ser dado às matérias-primas, diferentemente de Hugo de Carvalho Ramos, que reconhecia a força cultural e artística do território goiano. Desse modo, a região apresentou-se como promissora para o mercado interno a partir de suas riquezas naturais economicamente viáveis. 

Seguindo a lógica da Exposição do Centenário da Independência, que pretendia mostrar, através das vitrines dos pavilhões, um Brasil ricamente dotado de aspectos produtivos, Goiás mostrou-se como um Estado conectado ao restante do território, rompendo em parte o isolamento que distanciava a região das demais delegações.

Fernando Martins dos Santos é doutorando em História e Karinne Machado Silva é doutora em Geografia.