Goiás, Bahia e Ceará: os vértices da mostra itinerante Triangulações

Com obras de 45 artistas, a exposição valoriza o intercâmbio entre artistas, públicos e o debate criativo

Criada por Eneida Sanches e Marília Panitz, Triangulações propõe o debate sobre as produções de arte contemporânea | Fernando Leite/Jornal Opção

Criada por Eneida Sanches e Marília Panitz, Triangulações propõe o debate sobre as produções de arte contemporânea | Fernando Leite/Jornal Opção

Um dia, em 2010, passeando por um mercado de pulgas em Amsterdã, encontrei um álbum de fotografias de um casal em viagem de férias, por volta dos anos 60, pela região de Provença, na França. Viajavam a sós, isolados do mundo. Fotografavam-se, um ao outro (…) fiquei fascinada com os olhares deles, cheios de desejo, lançados à câmera. Para mim, eram claramente amantes, um casal atípico em uma viagem de amor, provavelmente secreta.
Neyde Lantyer

Yago Rodrigues Alvim

Em 2013, do tradicional Circuito das Artes de Salvador, na Bahia, nasceu a mostra Triangula­ções. Veio das artistas Eneida Sanches e Marília Panitz. Sua vontade era provocar outras duas cidades para um bate papo sobre suas produções de arte contemporânea. Assim, a mostra se fez itinerante, se demorando em diferentes galerias de cada uma das três cidades. O objetivo: a troca, o intercâmbio entre os artistas e o debate criativo que fugisse ao eixo Rio-São Paulo. Deu certo.

Sua segunda edição começou na capital goiana. Com obras de 45 artistas, a Triangulações tem como tema “Registros Circunstanciais: Intervenções, Fabulações e Apagamentos”. Sob coordenação geral de Eneida e curadoria geral da também baiana Marília, a mostra fica em exposição até o último dia de agosto, no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás (CCUFG), sob os cuidados de Divino Sobral.

De Goiânia, a mostra segue para Salvador, no Museu de Arte da Bahia. Lá, onde a curadoria foi realizada por Alejandra Muñoz, a exposição vai de 17 de setembro a 18 de outubro. O último vértice de Triangulações é em Fortaleza, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (MAC). Sob a curadoria de Bitú Cassundé, a mostra fica na cidade cearense de 29 de outubro a 29 de novembro.

A mostra se apropria do conceito matemático, com seus vértices e arestas. Ao geográfico, Triangulações alia a ideia dos pontos, que correspondem às três cidades. As arestas abarcam um conjunto de obras sob as três palavras-chave/temas que integram o subtítulo da edição: “Intervenções, Fabula­ções, Apagamentos”.

Em Intervenções, as obras falam da ação de inscrever algo no mundo, de se estabelecerem como uma cicatriz que se deixa através do ato. “Elas são resultado da observação e de certa documentação, do atravessamento dos campos de saber pela arte –– sociopolítica, etnografia, filosofia, arquitetura e urbanismo.”

Em Fabulações, as obras dialogam no sentido do léxico e da filosofia contemporânea. Elas contam versões fantasiosas de fatos e trazem, em si, suas “morais da história”; e contam, ainda, da mudança que existe no presente. “Os trabalhos incluídos neste recorte têm a potência de emular imagens que, embora apresentem um claro caráter narrativo, desestabilizam nossa leitura.”

Em Apagamentos, as obras permeiam o tempo, a sua memória e esquecimento. São rastros, que do apagar, se recuperam por seus vestígios. “Se nos outros dois recortes, a ênfase está em dois diferentes modos de figurar o presente, este se debruça sobre o pretérito, sobre o que ainda pode emergir desse outro tempo.”

Curadoria

Curador goiano Divino Sobral: “Eu me preocupei em mostrar um panorama da diversidade artística daqui”

Curador goiano Divino Sobral: “Eu me preocupei em mostrar um panorama da diversidade artística daqui” | Fernando Leite/Jornal Opção

Cada edição tem um curador e cada um se atenta a um estado específico. No início do ano, Divino recebeu o convite de Marília. Ele conta que foi o último curador a escolher os 15 trabalhos que integram a mostra, junto às obras dos demais estados (15 trabalhos cada localidade). A demora nem foi para escolher os artistas. Assim que fora convidado, Divino já tinha os nomes. Porém, a escolha dos trabalhos despendeu mais tempo, por motivo pessoal –– ele perdeu seu companheiro.

–– Eu me preocupei em mostrar um panorama da diversidade artística daqui. Convidei desde artistas muito reconhecidos, com mais de trinta anos de percurso, como o Luiz Mauro e o Edney Antunes, a artistas que têm trabalhos de altíssima qualidade, como os do Rogério Milani, e que poucos os percebem. Há uma diversidade nos trabalhos também. Tem desde o graffiti do Santhiago Selon até o trabalho que beira a ilustração do Milani e também aos trabalhos de vídeo e os de intervenção, como a faixa do Glayson Arcanjo ou a instalação do José César.

Me ative ainda a uma questão técnica, já que fui o último curador a fechar a escolha das obra. Queria que as obras resultassem em uma boa exposição, quanto ao ritmo visual; afinal, 45 artistas é uma coisa doida e comportar todos os trabalhos em um espaço sem que fique entupido, sem que uma obra brigasse com a outra é algo complicado. Nesse sentido, trouxe as maiores e menores obras que a exposição tem. Procurei evitar, inclusive, a saturação da metragem linear da parede. Por isso, tem trabalhos que se situam em outros lugares da galeria, que até prescindem de certa formalidade de apresentação da obra de arte.

A segunda edição da mostra teve abertura em Goiânia. As obras seguem ainda para Salvador e Fortaleza | Reprodução

A segunda edição da mostra teve abertura em Goiânia. As obras seguem ainda para Salvador e Fortaleza | Fernando Leite/Jornal Opção

Quanto ao espaço, Divino conta que o CCUFG tem uma trajetória de exposições e um acervo de arte brasileira muito rico. Além disso, ele foi casado com o professor Carlos Passos, o ex-diretor do espaço, e com ele dividiu uma trajetória de mais de vinte anos realizando exposições –– o professor faleceu no mês de maio. Segundo ele, quando Marília o convidou para a curadoria e, assim, para realizar a escolha de um espaço em Goiânia, imediatamente pensou no Centro Cultural.

Primeiro, porque não é todo lugar que tem a quantidade de televisores e projetores que o CCUFG tem e disponibiliza; afinal, cada curador apreciou dois trabalhos de vídeo e projeção. “Não teríamos verba para alugar todo esse equipamento e, somado a importância que o CCUFG tem, foi um modo de facilitar a exposição”, explica.

Ele conta que a abertura surpreendeu. “Uma vez que a UFG está em greve e os convites para abertura da mostra não foram enviados, o quantitativo de pessoas que apareceram e se deliciaram com a exposição foi algo incrível.” A expectativa é que as visitas só cresçam, pois, são trabalhos diversos, tanto por suas raízes, poéticas e disposições técnicas, quanto pelas atividades e ações que os envolvem, além da apreciação de arte. Dá para dizer que é impressionante, de estatelar todos os sentidos.

Nas próximas três quintas-feiras, o público poderá se encontrar não somente com as obras. É que o Triangulações em Verbo, uma atividade lúdica, artística e educativa, permite um bate-papo com o curador e artistas. Divino explica que a proposta é algo que nasceu aqui, que não existia na circulação original da mostra. São sempre às 19h30, no próprio Centro Cultural.
Segundo o curador, a ideia é uma conversa despretensiosa. “Sempre penso que as exposições dão uma oportunidade de viabilizar o encontro entre público e artista e não somente público e obra”, acrescenta. A atividade começa com ele que faz uma visita guiada pela exposição. “Falo, fundamentalmente, do meu processo de escolha e de nucleação da curadoria geral”, diz.

O encontro com Divino é na quinta-feira, 13. Os demais encontros são com os artistas Dalton Paula, Enauro de Castro e Helô Sanvoy; e com os artistas Yara Pina, ZéCésar e do Grupo EmpreZa –– nas quintas-feiras conseguintes.

Criadores

Os artistas goianos, que participam da mostra, são Luiz Mauro, Edney Antunes, Zé César, Enauro de Castro, Pitágoras Lopez, Grupo EmpreZa, Rodrigo Godá, Helô Sanvoy, Dalton Paula, Yara Pina, Evandro Soares, Rogério Milani, Glayson Arcanjo, Paul Setúbal e Santhiago Selon –– artista que interviu na parede do CCUFG.

De Salvador, são eles: Adriano Machado, Aristides Alves, Eriel Araújo, Fábio Magalhães, Florival Oliveira, Isolda Libório, Leonardo Celuque, Marcelo Reis, Márcio Lima, Miguel Cordeiro, Neyde Lantyer (autora do texto de abertura), Paulo Coqueiro, Péricles Mendes, Rosa Bunchaft e Tami Oliveira.

Já de Fortaleza, os artistas são Waléria Américo, Solon Ribeiro, Luciana Magno, Junior Pimenta, Milena Travassos, Marina de Botas, Herbert Rolim, Filipe Acácio, Jared Domício, Diego de Santos, Juliane Peixoto, Yuri Firmeza, Marcos Martins, Harol­do Sabóia e Júlia Braga.

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