Goiânia Noise chega à 25ª edição sem deixar o rock parar

Por mais clichê que isso possa parecer, Monstro Discos continua a apostar na resistência, mas sem deixar a imagem do estilo como algo ultrapassado, fechado ou coisa de roqueiro reaça 

O rock ficou datado? Pela quantidade de bandas novas locais que fazem parte da programação nas três noites da 25ª edição do Goiânia Noise Festival, é difícil imaginar que o estilo musical seja coisa de gente antiga. Talvez o discurso de muitos ícones da velha guarda tenha parado no tempo. Em casos específicos migrou, inclusive para uma defesa conservadora que não condiz com as marcas que fizeram do rock por décadas um sinônimo de rebeldia, resistência e enfrentamento.

O rock encaretou? A vida ao poucos obriga que as pessoas assumam mais responsabilidades e passem a ver tudo de forma cada vez mais prática e menos sensitiva. Mas as artes, e nelas a música, sempre foram e serão um espaço de reflexão e contestação. E resistir há 25 edições é uma das marcas mais fortes do Goiânia Noise. Mais até do que a defesa do rock.

Manter um evento, que só é mais novo do que o Abril Pro Rock entre os festivais independentes do Brasil, de pé desde 1995, depois de tantos perrengues, não é tarefa fácil. Tanto é que muitos dos que atuaram diretamente na produção musical e cultural da cidade já largaram a atividade há muito tempo. É aí que o Noise se mostra mais do que relevante.

Pode não ser mais o maior festival do Centro-Oeste, ou chamar tanta atenção como foi durante muito tempo, mas conseguiu resistir ao tempo e sobreviver à falta de grana, público e dificuldades de entender como ficaria o evento em seu formato para não morrer.

Apesar de todas as discussões que envolvem nos últimos anos o circuito independente da música, o Noise conseguiu em 2019 trazer uma programação interessante que mescla bandas novas, artistas conhecidos e outros que voltam com turnês interessantes de discos clássicos de suas histórias.

Ter o poder sonoro e representativo de bandas como Mulamba, formadas por curitibanas, e os paulistas da Ação Direta a dividir os mesmos palcos que novatos de Goiânia, como Sê Bastião, Templates e Bad Distortion, na primeira noite é importante para que o trabalho de divulgação da música feita porque se gosta daquilo é parte da resistência. É como se a Monstro Discos tivesse voltado no tempo e se jogasse na tarefa de ser uma fomentadora daquilo que não necessariamente tem espaço.

O momento que vivemos, de contestação da ciência, do conhecimento, da razão e da divergência, coloca em evidência os 30 anos de um disco que marcou a história do punk rock brasileiro na redemocratização pós-ditadura militar (1964-1985). O álbum “Brasil” talvez até faça mais sentido hoje, com a banda Ratos de Porão (SP) muito mais consciente da eficiência das letras cantadas por João Gordo há três décadas, mas que ganham em parte da sociedade coro para ideias malucas e irracionais que nunca imaginamos voltar a ver ganhando palanque e eleições.

“Amazônia Nunca Mais” é a descrição contínua e, mais do que nunca, agravada como representantes eleitos tratam a sobrevivência do ser humano ao descartar a importância do meio ambiente. Negar o desmatamento é mais do que um “Retrocesso”, é um modelo de “Farsa Nacionalista” vendido de forma simplista e barata por memes em aplicativos de mensagem.

Resgatar a memória e a importância do trabalho de um cantor como Odair José, que fecha noite de sábado do festival, é reconhecer que o rock e a música goianas têm seus ícones e que eles devem ser reverenciados e estarem disponíveis para que um novo público os conheça. Muito além de “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”. Odair José é roqueiro, é músico, é goiano e é um patrimônio nacional. Vai muito além do simples rótulo da resistência rock.

Colocar o trio punk agressivo santista Surra na mesma noite de domingo, 11, que os destaques da nova fase musical goiana representados por Terra Cabula e antigos conhecidos do metal, como o Ressonância Mórfica, é saber valorizar as diferentes fases do Noise. Não só do festival, mas da produção musical independente goiana. Espalhados pelos três dias de shows, músicos que participaram de diferentes grupos da história dos 25 anos de Goiânia Noise, como os Mechanics, o vocalista Sandoval Shakerman e o cantor à frente da Jukebox From Hell é ver de perto tudo que a música ofereceu e continua a produzir.

Quando se tem o dono do hit “Papo de Jacaré” em uma nova banda no palco a dividir o mesmo espaço com os jovens da Desert Crows, que acabaram de lançar seu disco de estreia, “Age of Despair”, e os debochados Rollin Chamas no mesmo festival, que ainda arruma espaço para o indie rock grudento do Two Wolves, como você ainda quer ficar em casa e não presenciar esse momento importante da vida criativa da cidade?

Programação completa do 25º Goiânia Noise Festival
Sexta-feira, 9
19h00 – Sê Bastião (GO)
19h30 – União Clandestina (GO)
20h00 – Bad Distortion (GO)
20h30 – Templates (GO)
21h00 – The Galo Power (GO)
21h30 – Somaa (SC)
22h00 – Os Indomáveis & Sandoval Shakerman (GO)
22h30 – Mechanics (GO)
23h00 – Mustache & Os Apaches (RS/SP)
23h30 – Caboclo Roxo (GO)
00h00 – Two Wolves (GO)
00h30 – Mulamba (PR)
01h00 – Ação Direta (SP)

Sábado, 10
18h00 – Dergo (GO)
18h30 – Burning Rage (GO)
19h00 – Riso do Abismo (GO)
19h30 – Cabaré de Eliete (GO)
20h00 – Old Skull Guz (PR)
20h30 – Sheena Ye (GO)
21h00 – Ivan Motosserra Surf&Trash (BA)
21h30 – Bad Humans Noise (MG)
22h00 – Rocca (CE)
22h30 – Jukebox from Hell (GO)
23h00 – Desert Crows (GO)
23h30 – Time Bomb Girls (SP)
00h00 – Matanza Inc (RJ)
00h30 – Odair José (GO)

Domingo, 11 
17h00 – Guerrilha dos Coelhos Mutantes (GO)
17h30 – Gregor (GO)
18h00 – Murder (GO)
18h30 – HateMoss (UK)
19h00 – Ressonância Mórfica (GO)
19h30 – Armun (GO)
20h00 – Rollin Chamas (GO)
20h30 – Surra (SP)
21h00 – Terra Cabula (GO)
22h00 – Ratos de Porão (SP)

Ingressos
Kit Noise (que inclui passaporte + camiseta + copo): R$ 120,00
Passaportes (3 dias): R$ 75,00
Individual por noite: R$ 30,00 (valor de meia entrada válido para as especificações da lei ou mediante doação de 1kg de alimento)
** Passaportes e Kit Noise à venda somente no www.lojamonstro.com.br/ingressos
*** ATENÇÃO: Valores sujeitos a alteração na bilheteria do evento.

Postos de venda
– Hocus Pocus (Av. Araguaia com Paranaíba, Centro)
– Loja do Ervilha (Rua C-30, Jd. América)
– Bandeira Cafeteria (Rua João de Abreu, St. Oeste)
– Woodstock Bar (Av. D, Setor Oeste)
– Tribo Restaurante (Rua 36, St. Marista)
– Venda online: www.lojamonstro.com.br/ingressos

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