Goiânia de múltiplas cenas e sons

Com contribuição principalmente dos festivais de rock, o perfil cultural da capital foi se tornando mais plural. A cidade transcendeu a condição de “terra do sertanejo” e possui hoje uma agenda bem mais movimentada e diversificada, para alegria do público

1º Fiog: montagem da Ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini, terá regência de Linus Lerner | Foto: Divulgação

Do alto de seus 84 anos de existência, Goiânia é uma capital cujo cenário cultural ainda está em “processo de construção”. Ao longo destas décadas, a cidade já incorporou em seu cotidiano todas as famigeradas agruras que acometem as grandes metrópoles, mas ainda não deleita como deveria de toda a gama de atrações que os grandes centros urbanos proporcionam a seus habitantes. Consequência de (des)governos que sempre jogam a Cultura e o Lazer para escanteio — recorrendo ao vocabulário condizente com tempos de Copa do Mundo —, Goiânia ainda tem um cardápio pouco farto nesta seara, carecendo de equipamentos públicos com atrações interessantes e acessíveis, tanto em termos financeiros, quanto em termos de transporte.

Com certeza, nosso leitor já se deparou em algum momento com a seguinte dúvida: “afinal que diabos há para se fazer nesta cidade neste fim de semana”? E na tentativa de resolver este dilema, rendeu-se ao óbvio, optando por um passeio oneroso em uma das dezenas de shopping centers da cidade. Ou mesmo reforçou o velho chavão: “se não temos mar, vamos para o bar”. Em uma localidade carente de atributos fornecidos pela Mãe Natureza, as opções culturais deveriam entrar em cena. No entanto, se as políticas públicas não forem repaginadas, talvez nem mesmo em mais 84 anos as coisas mudem.

Nossa vizinha Brasília, ainda que bem mais jovem, vence de goleada neste quesito — olha a Copa do Mundo aí, novamente! Obviamente, a cidade usufrui das prerrogativas que a condição de capital federal lhe proporciona: centros culturais movimentados, com exposições de nomes de fama nacional e internacional; um calendário de shows de dar inveja; uma intensa agenda cultural com teatro, eventos, feiras e afins.

Independentemente disto, o que se percebe, ao longo dos últimos anos, é que há algo de novo no reino da Dinamarca. Houve uma virada repentina de mesa e pá: quem te viu, quem te vê, Goiânia! Ainda que de forma informal, ainda que de forma tímida, ainda que não se possa estabelecer um marco definitivo, a verdade é que o cenário hoje está completamente reconfigurado. E, ainda que aos poucos, Goiânia foi abandonando a alcunha de terra do sertanejo, para ostentar novas facetas.

Terra dos festivais

Bananada comemorou 20 anos em 2018: festival se consolidou no calendário do rock nacional | Foto: Divulgação

E por falar em sertanejo, é justamente o seu oposto mais radical que roubou os holofotes em escala nacional. O surgimento e a consequente consagração de grandes festivais, como o Goiânia Noise, Vaca Amarela e o Bananada, fez com que a capital goianiense entrasse de forma definitiva no calendário do rock brasileiro. Há também propostas que ganham vigor a cada edição, como é o caso do Juriti Festival de Música e Poesia Encenada, que anualmente abre espaço para novos nomes da música, e o Cidade Rock, que injeta uma dose psicodelia ao clima junino da capital.

Criado em 1993 por um grupo de jovens do Setor Crimeia Leste, o Festival Juriti se viu forçado a um hiato nas edições sequentes devido à falta de recursos financeiros, sendo retomado este ano. A bandeira do evento, que em 2018 chegou à sua sexta edição, é a valorização da obra autoral, revelando talentos regionais nas áreas de música e poesia encenada. A ampla programação foi coroada com o encerramento a cargo de Badi Assad, cantora, violonista e compositora internacionalmente consagrada e aclamada por suas inigualáveis performances musicais; e Último Tipo, grupo goiano que trouxe show em comemoração aos 30 anos de sua teatral musicalidade.

Fazendo frente às dimensões mainstream do Noise e do Bananada, o Cidade Rock procura ser um movimento de resistência dentro da cena rock goianiense, reservando espaço aos “novatos” do ramo, sejam eles do indie, do punk ou do metal. A temporada de shows deste ano começou em abril e terá ao todo dez ventos mensais, que irão reunir bandas locais e também forasteiras no Centro Cultural Martim Cererê.

A projeção que estes eventos ganharam na mídia proporcionou um terreno fértil para o nascimento de novas bandas, para a formação de um público cativo e até mesmo para a oferta de points para se apreciar o estilo. A presença deste perfil fez com que, aos poucos, o sertanejo fosse perdendo a hegemonia e, atualmente, é gritante hoje em dia a quantidade de casas noturnas e bares nos quais os alto falantes, palcos e carrapetas privilegiam repertório do gênero rock.

Apesar dos points noturnos não terem vida longa em Goiânia, algumas casas se tornaram referência. Das em operação, o Bolshoi Pub, do empresário Rodrigo Carilho, é um exemplo. Desde 2004, o local anima a noite local com shows de bandas nacionais e até mesmo atrações internacionais. Nomes como J.J Jackson, Nazareth, UFO, C.J. e Mark Ramone, Tia Caroll, Johnny Winter já passaram pelo palco da casa noturna em áureos tempos.

Enquanto o longevo point sustenta sua relevância com uma agenda repleta de shows, tributos e noites temáticas, vê despontar novos espaços, como Imerse, o Low Brow, Cabaret Voltaire e Ideologia 62. Estas já abrindo espaço para estilos como o funk e o hip hop, em alta principalmente com o público mais jovem. O Evoé Café com Livros e o Empório Suqueria também são opções que começaram a figurar na agenda cultural da semana, abrindo espaço para estilos como o soul, a MPB e o jazz, este último ainda com restritíssimas opções.

Vigor erudito

Espetáculo Adubo ou a Sutil arte de escoar pelo ralo abriu a mostra de dança Manga de Vento: proposta é trazer aos palcos montagens que rompam os limites da linguagem artística | Foto: Divulgação

Indo também contra a maré, o estilo erudito foi outro que ganhou fôlego e cativou o entusiasmo do público em Goiânia. Muito longe de ser uma “Campos do Jordão”, pois não há qualquer advento em específico que torne a capital uma referência no ramo, o interesse foi sendo alimentado, mais recentemente, com a aposta das orquestras em levar ao público repertórios com composições mais familiares aos ouvidos ainda pouco acostumados aos sons dos violinos, cellos e fagotes. Alia-se a esta questão a tradição de se frequentar os parques da capital, um dos poucos equipamentos públicos de lazer gratuito disponibilizados ao goianiense.

A tradição também foi ganhando vigor com a formação de artistas e, consequentemente, de público, através dos conservatórios locais. Instituições como Gustav Ritter, Basileu França, Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (Emac/UFG), para citar somente as mantidas pela administração pública, contribuíram para a formação de músicos que ganharam projeção nacional e internacional. Em contrapartida, o circuito ganhou ainda mais visibilidade com a presença de nomes provenientes do exterior e que agregaram ainda mais valor à cena erudita goianiense, como é o caso do maestro britânico Neil Thomson, regente que está à frente da Orquestra Filarmônica de Goiás (OFG) desde 2014.

E para deleite dos apreciadores do estilo, teve início neste mês de junho o 1º Festival Internacional de Opera de Goiânia (Fiog), evento que movimentará o circuito cultural durante dois meses, trazendo aos palcos óperas famosas que serão interpretadas por talentos locais e por solistas premiados mundialmente. Montagens como La Bohème, La Traviata e La Serva Padrona serão apresentadas no Teatro Goiânia, Teatro Sesi, Centro Cultural UFG e Basileu França, bem como uma série de espetáculos e concertos como Carmina Burana, com a participação de nomes como o do maestro Linus Lerner, Liliana del Conde, Ângela Barra e Eliseu Ferreira.

Porém, mais do que proporcionar ao público entretenimento de altíssimo nível, o grande mérito do festival é o estímulo à carreira de jovens cantores líricos brasileiros, com a realização 1º Concurso Internacional de Canto de Goiânia, cujas audições serão concomitantes à programação do festival. “Serão 40 prêmios para diversas categorias, que terão o nome de pioneiros da música erudita e o canto lírico local, além de cantores e instrumentistas renomados da cena internacional”, explica Adriano Pinheiro, idealizador do festival e professor da UFG.

Reduto de bambas

Badi Assad, cantora, violonista e compositora encerrou a sexta edição do Festival Juriti | Foto: Divulgação

Se não somos uma Campos do Jordão, tampouco temos qualquer similaridade com o Rio de Janeiro, mas Goiânia também tem seus adeptos do ziriguidum e eles marcam presença nos poucos, mas animadíssimos redutos do samba que existem na capital. Um dos mais famosos é o bar Glória, que na primeira pisada faz com que o visitante viaje para a inebriante atmosfera dos botequins cariocas. A casa é embalada por noites de gafieira e rodas de samba acompanhadas da tradicional feijoada, além de ser um dos pontos de happy hour mais disputados da capital. Filas em torno das mesas não são raras de se ver.

Com propostas semelhantes ao Glória, o Café Nice e o Thiosti também se tornaram ponto de encontro para quem tem samba no pé e quer curtir um repertório no estilo com boas atrações ao vivo. Aliás, não faltam artistas goianienses que se firmaram no estilo e hoje são figurinhas carimbadas na cena local, como o grupo Noys é Noys, Heróis do Botequim, Grace Carvalho, Pollyana Pimpão, Luciana Clímaco, Maíra Lemos, entre outros. O samba em Goiânia tem ganhado tanto vigor, que está até mesmo ajudando a ressuscitar o carnaval de rua na capital, com a quantidade de blocos e festas crescendo a cada ano no período de folia.

Outra balada que já virou tradição na capital é a comandada pelo Jorjão, no seu Quintal do Jorjão, em pleno coração da Vila Nova. O samba e a feijoada são bastante elogiados pelos frequentadores, mas um detalhe que faz a diferença é o clima amistoso e despojado do local. Afinal, não se trata de um estabelecimento que recebe clientes, mas de uma casa de família que, desde 2010, a cada 15 dias, sempre aos sábados, abre as portas para os amigos, em um quintal amplo, arborizado e com várias mesas, sempre bastante disputadas. E se no Jorjão a moçada se reúne no quintal, é no jardim que acontece o agito da Casa da Mãe Joana, que desde 2015 também abriu as portas para quem curte rodas de samba.

Palcos movimentados
A oferta de espetáculos teatrais também não fica atrás e o público goianiense que aprecia um bom espetáculo tem sempre à disposição opções que vão desde os aclamados sucessos de bilheteria que rodam o País, muitos estrelados por figurões globais, até mesmo propostas mais autorais das companhias de teatro locais. A capital durante muito tempo contava apenas com o Teatro Goiânia e outros palcos menores, como o Inacabado, que apostava nas matinês com peças infantis.

Hoje, a cena teatral em Goiânia tem ampla oferta com os teatros Madre Esperança Garrido, Rio Vermelho, Sesc Centro, Sesi, Basileu França, Zabriskie, Centro Cultural Oscar Niemeyer, Centro Cultural UFG e mais recentemente o Centro de Convenções PUC, inaugurado em 2016, sendo o maior teatro de Goiás, com 2,6 mil lugares. Em meio a novidades, há algumas perdas também, como foi o caso do Goiânia Ouro, que na administração municipal anterior proporcionava uma gama maior de atrações regionais e nacionais, mas que atualmente tem estado um pouco “esquecido” pelos gestores.

Espaço para eventos alternativos e com ambientação mais intimista, o Espaço Sonhus foi um projeto lançado em 2013 pelo grupo do mesmo nome em parceria com o Colégio Lyceu, uma referência história no sistema educacional da capital, sendo berço educativo de diversos goianos ilustres nas mais variadas profissões. O antigo auditório foi transformado em um teatro de bolso com capacidade para 150 pessoas. Há ainda a tenda de circo para apresentações e cursos, e o Café Qorpo Santo, palco para saraus, bate-papos e outros eventos similares abertos à comunidade local e artistas da cidade.

Outra companhia que tem um vínculo muito forte com a região do Centro de Goiânia é a Cia. De Teatro Carlos Machado. Além do trabalho de produção de espetáculos, formação de atores e educação essencialmente focado nos públicos infantis e infanto-juvenis, a companhia desenvolve projetos e ações ligados à memória do Centro de Goiânia.

Estes palcos também abrem espaço significativo para a Dança. Um projeto que tem procurado promover e dar visibilidade a montagens e novos talentos é a Manga de Vento – Mostra Expandida de Dança, que chega este ano à sua terceira edição. Sob a curadoria do bailarino e coreógrafo Kleber Damaso, o programa teve início em maio e segue até outubro, reunindo trabalhos contemporâneos, nacionais e internacionais. A mostra tem como proposta buscar atrações que desafiem o espectador ao romper os limites da linguagem artística. l

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