Goiânia: as várias faces de um mesmo rosto

Organizado por Ademir Luiz e Eliézer Cardoso, o livro reúne 16 artigos sobre política, economia, cultura e religiosidade

Planta original de Goiânia: a cidade não só cresceu desde sua inauguração, mas mudou e se diversificou

Planta original de Goiânia: a cidade não só cresceu desde sua inauguração, mas mudou e se diversificou

Fernando Bueno Oliveira
Especial para o Jornal Opção

A ideia de resenhar um livro, geralmente, parte daqueles que julgam conhecê-lo muito bem. Desde já, dispenso essa pretensão. Essa resenha, então, pode se situar no campo dos entendimentos possíveis. Seu papel é informativo, o que, por se tratar de uma obra de tamanha envergadura, também, pode ser interpretada como ambição, tendo em vista que muitos temas, pontos e conceitos serão abreviados, pois o livro contém mais respostas que a nossa capacidade de perguntar.

O livro “Goiânia em Mosaico: visões sobre a capital do cerrado” é composto por 16 artigos: sete deles dizem respeito à política, modernidade e desenvolvimento econômico de Goiânia; os outros nove versam sobre sua cultura, religiosidade e imagens. A apresentação ficou por conta de Eduardo Quadros, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).

Os seus organizadores são os historiadores Ademir Luiz da Silva (vencedor do Prêmio Cora Coralina de 2002, do Troféu Goyazes em 2013, do Prêmio Hugo de Carvalho Ramos em 2014, autor do romance gráfico “Conclave” em parceria com o ilustrador paulista Rafael Campos Rocha e recebedor da Comenda Medalha do Mérito Cultural em 2015) e Eliézer Cardoso de Oliveira (sua vasta produção atua numa interface entre História e Sociologia, abordando os seguintes temas: história e sociologia da catástrofe, teoria da história, produção de livros didáticos em História Regional, Sociologia e História da Valentia). Ambos são professores da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Política e Economia

A primeira parte do livro trata de uma Goiânia que nasceu para ser capital. Planejada e estabelecida a partir de 1933, surge num contexto de busca pelo novo, pela modernidade e pela consolidação dos planos político-econômicos de Getúlio Vargas e Pedro Ludovico: para o primeiro, Goiânia representava o símbolo maior da “Marcha para o Oeste” e, para o último, o inverso do marasmo, do decadente e do atrasado, características a que se referia à antiga capital do Estado, a Cidade de Goiás. Mas não houve uma ruptura do antigo com o novo, da modernidade com as antigas imagens de decadência e atraso.

Na verdade, a convivência do moderno com o atrasado marca a história de Goiás e de sua nova capital nos agitados anos de 1930, uma ilha de modernidade em um mar de tradição. Extraem-se várias coincidências das experiências de Belo Horizonte e Goiânia: a estreita identificação dos aludidos espaços urbanos com as então emergentes ordens políticas e a associação depreciativa formatada em relação às duas cidades destronadas, Ouro Preto (Vila Rica) e Cidade de Goiás (Vila Boa).

Nas suas primeiras décadas de existência, Goiânia não pode ser percebida tão somente como um mero entreposto comercial, mas o exame de dados numéricos e fontes documentais diversas admitem a significativa representatividade dos setores industrial, comercial, de prestação de serviços e de mercado de créditos para o seu desenvolvimento entre 1935 e 1963.

Embora trilhasse por caminhos do progresso econômico, em 1961, o então desconfiado governador Mauro Borges resolveu projetar Goiânia também como polo militar no “Movimento da Legalidade” montando trincheiras no Palácio das Esmeraldas, com homens armados com metralhadoras e fuzis no telhado, instalação de canhões sobre a marquise do Palácio e em alguns edifícios próximos para enfrentar supostos aviões e soldados invasores: um movimento do barulho, propagado via rádio, deixando muitos intrigados ou com medo e, ao mesmo tempo, indecisos e pouco informados.

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Fotografia, presente no livro, mostra a inauguração do busto de Pedro Ludovico

Passado e Futuro

Mas Goiânia tem outras histórias: de crimes e criminosos, como: o assassinato do jornalista Haroldo Gurgel, em 1953; a chacina da Rua 74, em 1957; o acidente com o Césio 137, em 1987; e o “show” de Leonardo Pareja, em 1996. Tragédias que ganharam repercussão nacional, uma ampla ressonância, alguns relatados na mídia internacional, e que desempenharam um efeito heurístico que revelava as complexidades e as contradições desta sociedade.

Outras histórias com outras complexidades e contradições, como a proposição, em 1995, do projeto “Goiânia Capital Country”, que objetivava representar as manifestações, eventos e símbolos da ruralidade em Goiás e em Goiânia. Mesmo diante de embates e debates sobre as suas “marcas”, os goianos reagem exaltando a identidade regional “a partir das representações de povo corajoso e forte, sertanejo e vencedor”, características que não impediram o boom do progresso: o tempo da construção de pau-a-pique, do baldrame, da casa caiada e do chão batido foi substituído pelo tempo da pavimentação asfáltica e da introdução de novos princípios urbanísticos e da racionalidade construtiva.

Ainda assim, algumas estruturas urbanas do passado resistiram. Barro, madeira e pedra utilizados nas edificações da Campininha das Flores, mesmo passadas décadas e sucessivas intervenções e reformas, podem ser encontrados por trás de pinturas e rebocos recentes. Estes testemunhos no atual bairro de Campinas se encontram escondidos e encrustados em sua malha urbana, locais onde o passado se encontra preservado.

Cultura e Religiosidade

A segunda parte do livro explora imagens de operários que levantam o concreto dos edifícios oficiais e das primeiras moradias na parte central da cidade, aspectos considerados sinais do progresso e do desenvolvimento. Tão necessário quanto o concreto que edificava as cidades, principalmente no caso de Goiânia, era a construção de uma imagem de cidade moderna e planejada, por meio de álbuns, tais como o “Álbum de Fotografias sobre o Planejamento e Construção da Cidade de Goiânia” e o “Álbum de Goiáz”. O grande intuito era o de atrair investimentos, instituições de ensino, estabelecimentos comerciais e indústrias tanto para a capital quanto para o interior.

Aqui, o livro traz uma Goiânia numa configuração de espaços em constante disputa: são contestações entre valores, identidades, posturas e códigos morais e comportamentais. São verdadeiras lutas de representações, de práticas de grupos não apenas no campo cultural, mas também social e político, mostrando a complexidade da formação da cidade em seus mais de 80 anos de história.

A obra reúne dezesseis artigos que mostram como Goiânia simboliza uma estratégia de poder em uma região que busca se integrar a um projeto de nação

A obra reúne dezesseis artigos que mostram como Goiânia simboliza uma estratégia de poder em uma região que busca se integrar a um projeto de nação

Nessa parte, o leitor de “Goiânia em Mosaico” identificará os grupos que fundaram os primeiros terreiros na capital, perpassando por um breve histórico da presença da religião espírita em Goiânia, até chegar ao surgimento da Federação de Umbanda do Estado de Goiás; descobrirá marcadores próprios do Candomblé “escondidos” pela cidade dos orixás; lançará o seu olhar sobre expressões negras que existem/resistem em plena cidade de vivências modernas, tais como as festas do Rosário acompanhadas de congadas que acontecem em bairros das classes trabalhadoras desde o início da década de 1940, com os redutos de encontros de congadeiros; encontrará um protestantismo que chega aos primórdios de Goiânia numa combinação do novo e do moderno: uma nova religião para uma nova capital, fincando por aqui as suas raízes. O leitor perceberá ainda que a terra de “Leandros e Leonardos”, do pequi e do quase “country” passa a ser chamada também de a “Seattle brasileira”, ou ainda, a capital do break, especialmente, a partir da década de 1990. Os discursos do rock vão contra representações que identificam apenas algumas práticas culturais locais como legitimamente goianas. Já o hip hop agrega jovens goianienses que encontraram nessa cultura elementos para construir novas identidades e novas formas de convivência.

É a cidade do “Chão Verme­lho” (1956), a maior personagem do romance de Eli Brasiliense, que mostra o “drama existencial da cidade e do sertão”, o universo do moderno, do progresso e de seus contrários, uma cidade heterogênea, múltipla, ambivalente, contraditória, um lugar de diferenças. É a cidade do modernismo nas artes plásticas, um modernismo entendido como força estética capaz de fundamentar um “mundo artístico”, em que aparecem nele próprio as contradições e ambiguidades da experiência da fronteira, inserido ainda em uma historiografia da arte ocidental, com as criações da Sociedade Pró-Arte de Goiás, em 1945, e da Escola Goiana de Belas Artes, a EGBA, em 1952.

Hoje, Goiânia já não cabe em si, tornou-se uma cidade de mundos interligados por internets de histórias, sem perder as tradições culturais que a geraram, talvez por isso seja vista, às vezes, como o lugar da “não civilização”. “Viva, country, countrypira, sertaneja, carnavalesca, nenhum rótulo é maior que sua dimensão histórica, permeada de heterogêneas faces de um mesmo rosto. Qualquer rotulação será mera expressão de um pedaço de seu todo, de suas mesclagens culturais, de suas simbioses geradoras de talentos de sua gente. Goiânia tem útero macunaímico, formação geral entre o urbano e o rural, Art déco, berrante sampliado em múltiplos tons”.

Fernando Bueno Oliveira é mestrando em Ciências Sociais e Humanidades pela Universidade Estadual de Goiás

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