Glauber Rocha, o deus e o diabo do Cinema Novo

Faroeste do terceiro mundo, o apocalíptico “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é de pretensão épica e demonstra, da melhor forma, a cultura folclórica brasileira

Ambíguo e controverso, Glauber Rocha morreu como pária. Traiu a esquerda e a direita até ninguém mais o querer. Porém, talentoso que era, conseguiu seu lugar na eternidade com o filme que melhor retrata a cultura folclórica brasileira

Ambíguo e controverso, Glauber Rocha morreu como pária. Traiu a esquerda e a direita até ninguém mais o querer. Porém, talentoso que era, conseguiu seu lugar na eternidade com o filme que melhor retrata a cultura folclórica brasileira | Fotos: Reprodução

“Os filmes são péssimos,
mas os diretores são geniais”
Paulo Francis

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

De 1964, “Deus e o Dia­bo na Terra do Sol” foi um dos filmes mais re­pre­sentativos do Cine­ma Novo, corrente artística fundada na metade dos anos de 1950, liderada por Glauber Rocha, que teve como principais adeptos Ruy Guerra, Jo­a­quim Pedro de Andrade e Cacá Die­gues, dentre outros jovens cineastas.

O cinema brasileiro estava em declínio com as falências das companhias cinematográficas paulistas, destacadamente a Vera Cruz, que tentou reproduzir a indústria hollywoodiana no Brasil. O filme “Rio, 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos, abriu espaço para o início deste mo­vimento, que tinha como principais influências o Neo-Realismo Italiano e a Nouvelle Vague Francesa.

Com orçamentos baixos, a principal proposta era fazer filmes anti-industriais, politizados e polêmicos. Fazer o Brasil pensar por meio do cinema. Mostrar as mazelas do campo e a violência urbana crescente e não só um Brasil de cartão postal, como em “Orfeu Negro” (1959), do francês Marcel Camus.

O enredo se inicia apresentando Manuel (Geraldo Del Rey) e Rosa (Yo­ná Magalhães), um casal de trabalhadores nordestinos que sofrem com a pobreza, a fome, a miséria do sertão. O vaqueiro Manuel vê-se in­jus­tiçado e humilhado por seu pa­trão, o Coronel Morais (Milton Ro­da), e o mata. A partir daí começa a saga do casal que é obrigado a fugir. Encontram Sebastião (Lídio Silva), beato que se dizia santo e milagreiro e seus seguidores. O profeta promete prosperidade e salvação.

No entanto, no decorrer do filme, o profeta se mostra um homem alucinado, que apenas aliena o povo, em sua necessidade de ouvir palavras confortadoras. Em sua necessidade de crer em algo, Manuel apega-se firmemente às palavras do falso salvador. A cena de Manuel levando uma pedra morro acima é, talvez, a mais forte do filme. Mais realista, Rosa percebe a loucura do pregador e, após o sacrifício de uma criança, acaba matando-o. Enquanto isso, Antônio das Mortes (Maurício do Valle) lidera um ataque a mando dos latifundiários locais e da Igreja católica, que pedem a morte dos seguidores do beato. Estranha­men­te, Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros, deixa o casal Manuel e Rosa vivos, para contar como foi o massacre à caravana de Sebastião.

Mais uma vez, o casal está sozinho no sertão e acaba se deparando com o bando de Corisco (O­thon Bastos), cangaceiro remanescente do grupo de Lampião. Co­risco, batiza Manuel de “Satanás”, transformando-o em cangaceiro, dando-lhe novamente um sentido a sua vida; dessa vez, completamente imerso no mundo do crime. Depois de muita violência, Antônio das Mortes resolve confrontar-se com o grupo. Essa parte do filme desconstrói os westerns hollywoodianos, mostrando todo seu exagero e pretensão épica.

Um faroeste do terceiro mun­do, bem ao estilo do Cinema No­vo, sob o lema de Glauber: “uma câmera na mão e uma idéia na ca­beça”. O final é apocalíptico. Após testemunharem um banho de sangue, Rosa e Manuel correm pelo sertão até que ele, finalmente, vira mar. O plano final é do oceano, on­das quebrando na praia. Cum­pre-se, simbolicamente, a promessa sebastianista de Antônio Con­selheiro, líder de Canudos, uma das inspirações mais nítidas da obra.

Comumente apontado como o melhor filme brasileiro de todos os tempos (“Cidade de Deus” se tornou seu competidor mais sério), ga­nhou diversos prêmios e festivais por todo o globo. Glauber, en­tão com apenas 25 anos, conseguiu seu lugar na eternidade com o fil­me que melhor retrata a cultura fol­clórica brasileira. O diretor, que também foi o principal roteirista, afirmou que:

“Eu parti do texto poético. A origem de Deus e o Diabo é uma língua metafórica, a literatura de cordel. No Nordeste, os cegos, nos circos, nas feiras, nos teatros populares, começam uma história cantando: eu vou lhes contar uma história, que é de verdade e de imaginação, ou então, que é imaginação verdadeira. Toda minha formação foi feita nesse clima. A idéia do filme me veio espontaneamente”.

O diretor e suas influências
Realmente, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” exemplifica bem a personalidade de Glauber. Um homem ambíguo e controverso. Mandado ao exílio pelos militares, traiu a esquerda, e apoiou o general Geisel. Posterior­mente, traiu os militares e ninguém mais o queria. Morreu jovem, com pouco mais de 40 anos, na condição de pária. Talentoso e polêmico, conseguiu a admiração de críticos e cineastas do nível de Fritz Lang, diretor de “Metrópoles” (1927), e Martin Scorsese. É possível identificar no roteiro influências do filosofo existencialista Jean-Paul Sartre com suas peças teatrais “O Diabo e o Bom Deus” e “Entre quatro paredes”.

A longa cena em ação suspensa entre os cangaceiros remete ao limbo sartriano, uma sala fechada, onde “o inferno são os outros”. O limbo de Glauber é a caatinga, sob o sol escaldante. Outra grande influência de Glauber para executar este filme foi o lendário “Encouraçado Potemkin” (1925), de Sergei Eisenstein.

No filme, Manuel (foto) vive a promessa de Antônio Conselheiro e corre pelo sertão que vira mar

No filme, Manuel (foto) vive a promessa de Antônio Conselheiro e corre pelo sertão que vira mar

Glauber afirmava que o personagem de Antônio das Mortes era verídico, seu nome: José Rufino. Paulo Gil Soares documentou a história deste nordestino que, segundo a lenda, matou muitos cangaceiros. A vestimenta de Antônio das Mortes é toda característica, capa longa onde pode guardar seus utensílios, chapéu com amplas abas para se proteger do sol.

Com tudo isso, o personagem ganha um ar misterioso, frio e solitário. O fiel da balança entre Deus e o Diabo. Antônio das Mortes reaparece na continuação: “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969). Outro personagem importante é o Cego Júlio. Narrador eloquente que se torna crucial nos principais momentos do filme, narrando, cantando sempre de uma forma crítica e aguçada. Cego como Homero, mítico autor de “Ilíada” e “Odis­seia”, Júlio pergunta para o contraditório Antônio das Mortes:
“— É matando, Antônio? É matando que você ajuda seus irmãos?
— Sebastião também me perguntou. Eu não queria, mas precisava. Eu não matei os beatos pelo dinheiro. Matei porque não posso viver descansado com essa miséria.
— A culpa não é do povo, Antônio! Não é do povo!
— Um dia vai ter uma guerra maior nesse sertão. Uma guerra grande, sem a cegueira de Deus e o Dia­bo. E para que essa guerra comece logo, eu, que já matei Sebastião, vou matar Corisco. E depois morrer de vez, que nós somos tudo uma mesma coisa”.

Toda a ação é sublinhada pela música de Sérgio Ricardo, que buscou inspiração nas cantorias nordestinas, cantando letras escritas pelo diretor. Seu contraponto é Heitor Villa-Lobos, sobretudo com o uso da bela Bachiana nº 5. O choque da mais erudita com a mais popular das manifestações musicais brasileiras.

Semelhante ao livro-en­saio-tratado “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” mos­trou um Bra­­sil desconhecido ou ig­norado pela maioria da po­pulação. To­do o cenário do filme é composto por construções rústicas. Porém, embora muito simples, é possível estabelecer relações entre detalhes dos casebres em que viviam e a vida em êxtase religioso que levavam. Nas palavras de Euclides da Cunha:
“Era o lugar sagrado cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito… A sua topografia interessante modelava-o ante a imaginação daquelas gentes simples como o primeiro degrau, amplíssimo e alto, para os céus… Não surpreende que para lá convergissem, partindo de todos os pontos, turmas sucessivas de povoadores convergentes das vilas e povoadores mais remotos… Diz uma testemunha: Alguns lugares desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do Estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal aluvião… Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, ex­traordinária quan­tidade de ga­do cavalar, va­cum, caprino, etc., além de ou­tros objetos, por preços de na­nada, co­mo terrenos, casas, etc.. O anelo extremo era vender, apurar algum dinheiro e ir reparti-lo com o Santo Conselheiro. (…) As casas dos sertanejos eram simples, mas em Canudos eles encontravam refúgio para seus problemas, plantavam, colhiam, dividiam, aprendiam a viver em grupo: ‘(…) Feitas de pau-a-pique e divididas em três compartimentos minúsculos, as casas eram parodia grosseira da antiga morada romana…’”.

A referência não é gratuita. Um arraial naqueles tempos poderia ser tão isolado e independente do centro do império quanto uma urbe romana. E, da mesma forma, construído em torno do preceito religioso; não em torno de necessidades comerciais, como se estabeleceu a construção de cidades na Idade Média.

Os habitantes dessas praças, e sua cultura delirante, não poderiam ser considerados necessariamente perigosos, nem mesmo, um foco monarquista, mas produto de uma série de fatores econômicos, geográficos, raciais e históricos que culminaram em um retorno ao coletivismo messiânico das primeiras comunidades cristãs.

Uma população formada pela mistura do branco, negro e índio, que foi se isolando cada vez mais, organizando-se em comunidades fechadas. Comunidades que, acossadas por grandes proprietários de terras, viram-se cada vez mais entre o fogo e a caldeira, entre Deus e o Diabo. l

Ademir Luiz é professor da Universidade Estadual de Goiás.

2
Deixe um comentário

2 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
João Paulo

Belo artigo! Apenas uma correção… na foto da metade do artigo, segurando o facão e usando chapéu de cangaceiro, tem-se o personagem de Corisco, interpretado por Othon Bastos.

João Paulo

Vale lembrar que está em cartaz no Cine Cultura (Centro Cultural Marieta Teles Machado) o filme “Cinema Novo”, do cineasta Erik Rocha, filho de Glauber Rocha, e que aborda as grandes obras desse grande movimento do audiovisual brasileiro.