Gilberto Mendes e uma vontade danada de beber Coca-Cola

A Coca-Cola não se importou com a música. Um diretor disse: “Você conhece aquele dito popular, falem bem ou mal, mas falem de mim?”

Gyovana Carneiro

Um dos pioneiros da música concreta no Brasil, Gilberto Ambrosio Garcia Mendes nasceu no dia 13 de outubro de 1922, em Santos, cidade do litoral paulista. Iniciou seus estudos de música apenas aos 18 anos, no Conservatório Musical de sua cidade natal. Praticamente autodidata, compôs sob orientação de Cláudio Santoro (1919-1989) e Olivier Toni (1926). Frequentou o afamado Ferienkurse fuer Neue Musik de Darmstadt, na Alemanha, entre os anos de 1962 e 1968.

Gilberto Mendes: compositor brasileiro | Foto: Reprodução

Seu nome consta dos verbetes das principais enciclopédias e dicionários mundiais, tais como: Grove inglês; o Rieman alemão; o Dictionary of Contemporarry Music, de John Vinton; entre vários outros. Sua obra já foi tocada nos cinco continentes, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

Gilberto Mendes foi um dos músicos que assinaram o Manifesto Música Nova, publicado pela revista de arte de vanguarda “Invenção” em 1963. A partir dessa tomada de posição, tornou-se um dos precursores, no Brasil, no campo da música concreta, aleatória, serial integral; com a experimentação de novos grafismos, novos materiais sonoros e a incorporação da ação musical à composição, com a criação do teatro musical.

Instituto Internacional de Música de Darmstadt, na Alemanha | Foto: Reprodução

O compositor foi professor na Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (USP), conferencista e colaborador das principais revistas e jornais brasileiros. Fundou, em 1962, o Festival Música Nova de Santos, o mais antigo em seu gênero em toda a América.

Gilberto Mendes recebeu vários prêmios no Brasil: o Prêmio Carlos Gomes, do Governo do Estado de São Paulo, além de diversos prêmios da APCA. Rcebeu a Bolsa Vitae, o prêmio Sergio Mota hors concours 2003 e o título de cidadão emérito da cidade de Santos, dado pela Câmara Municipal. Em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 2004, recebeu a insígnia e diploma de admissão na Ordem do Mérito Cultural, na classe de comendador, do Ministério da Cultura, das mãos do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do ministro da Cultura, Gilberto Gil.

Revista “Invenção”, ano II, nº 3, junho de 1963. Diretor: Décio Pignatari

Uma de suas obras mais interessantes, “Moteto em Ré Menor”, mais conhecida como “Beba Coca-Cola”, para vozes corais e poema, foi composta em 1967. Em plena ditadura, o compositor criou uma espécie de antijingle, numa crítica ao consumo da sociedade moderna através de um de seus maiores ícones. Gilberto Mendes (1922- 2016) concebe uma obra a partir do poema concreto de Décio Pignatari (1927-2012), um dos criadores do concretismo ao lado dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos.

Beba Coca-Cola

“Na época, eu fiquei esperando uma represália da Coca-Cola. Que nada. Um diretor me procurou com uma caixa enorme de refrigerantes. E me agradeceu dizendo: ‘Você conhece aquele dito popular, falem bem ou mal, mas falem de mim?’ Só sei que até eu, logo depois de ouvi-la, ficava com uma vontade danada de beber Coca-Cola”, disse Gilberto Mendes.

A obra termina com um sonoro arroto — “o primeiro arroto solo da história da música universal” — e com o coro falando a palavra “cloaca”, que encerra o poema de Décio Pignatari.

Ouça a interpretação magistral desta obra com o Coro da Osesp sob a regência da grande e saudosa maestrina Naomi Munakata (1955-2020).

Observe, nesta obra, a diversidade de material sonoro e o emprego do humor, características marcantes na obra de Gilberto Mendes.

Gyovana Carneiro é editora do blog Papo Musical.

Gilberto Mendes e Stan Kenton na boate Shelly’s Manne Hole

O jornalista e pesquisador Ruy Castro, no livro “Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova” (Companhia das Letras, 460 páginas), relata que, em 1964, Sérgio e seu grupo — Wanda Sá, Rosinha de Valença, Tião Neto e Chico Bateria, se apresentaram no Shelly’s Manne Hole, a boate do ex-baterista de Stan Kenton (foto ao lado) em Los Angeles. Quando eles já estavam apresentando algumas músicas, de repente, alguém gritou da plateia: “Não se atrevam a parar! Volto em quinze minutos!”

Ruy Castro relata que “era o baterista Barney Kessel. Foi correndo à sua casa para pegar a guitarra e, nos quinze minutos que prometera, estava de volta com ela. Tocou com eles pelo resto da noite, e foi a vez de Wandinha Sá sentir-se a Julie London da sua própria vida”.

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