A geração que é cínica e depressiva demais para escrever romances de verdade

Ainda que hoje pareça mais fácil escrever uma obra universal do que era na época de Tolstói, somos uma geração sem romance; resta saber por quê

Não escrevemos romance de geração, pois somos cínicos, depressivos demais ou, mesmo, não temos idade para ir à caça, como fez Herman Melville, de Moby Dick. Não tivemos fracassos porque nem tivemos tempo para sermos promessas | Foto: Divulgação

Não escrevemos romance de geração, pois somos cínicos, depressivos demais ou, mesmo, não temos idade para ir à caça, como fez Herman Melville, de Moby Dick. Não tivemos fracassos porque nem tivemos tempo para sermos promessas | Foto: Divulgação

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Minha geração não se interessa em escrever romances de geração. Somos cínicos ou depressivos demais para irmos à caça de Moby Dick. Somos muito autocentrados para percebermos que existem os outros. Não olhamos para os lados, olhamos para dentro. É menos por ironia do que por auto complacência que nossos protagonistas costumam ser escritores. Escritores de sucesso, escritores frustrados, escritores em crise criativa, escritores, escritores que escrevem ou não escrevem, palavras, palavras, palavras. Alter egos explícitos ou disfarçados, que se pretendem variações sobre os mesmos temas de Sal Paradise e Dean Moriarty [personagens de “On The Road”, de Jack Kerouac].

Escrevemos, quase sempre, sobre nossas memórias, ou memórias que poderiam ser nossas, mas não são, ou quase são, ou queríamos que fossem. Escrevemos, quase sempre, sobre nossas crises criativas e sobre como somos influenciados por Franz Kafka. Escrevemos, quase sempre, sobre o ato de não escrever, inspirados por um escritor que mandou, por pura manha, um amigo queimar seus textos. Como Kafka, não admitimos ser póstumos. Reagimos gritando em blogs, publicando nossas obras completas na forma de posts de redes sociais. Ficamos datados na mesma velocidade das curtidas.

Na internet, o tempo passa mais rápido do que no mundo real; e tu­do o que é novo hoje fica velho a­ma­nhã ou, no mais tardar, depois de a­manhã. Mas isso já é clichê faz mais de século, desde o manifesto do tu­do o que é sólido desmancha no ar. No ar, temos essa sensação de que não há como lutar pela posteridade quando se é posteridade viva e ultrapassada. Ser universal hoje parece mais fácil do que era na época de Tol­s­tói, pois todas as aldeias estão parecidas demais, e esse é o problema.

Adoramos os beats, mas não temos o desprendimento de escrever em rolos de papel higiênico. Para tentar dar ares de durões aos nossos personagens escritores, usamos o velho truque de fazê-los alcoólatras e fumantes, de moita e de tabaco, como se isso fosse grande coisa em tempos de zumbis do craque. Eles escrevem à mão, ou martelam em velhas máquinas Olivetti, manchando os dedos em fitas pretas e vermelhas, não porque nós mesmos fazemos isso, mas porque achamos glamoroso ter um pezinho no passado, numa opaca Idade do Ouro de não sei quando, só sei que já foi.

Jogamos PlayStation 3 e 4, com saudades do Atari. E, sempre que podemos, procuramos emuladores de games antigos como se procurássemos o santo Graal. Ao mesmo tempo, fingimos que achamos engraçado quando vemos, em filmes nem tão antigos assim, televisores de tubo e discos de vinil. Na verdade, estamos aterrorizados por sermos do século passado, e só fingimos nos consolar quando lembramos que um adolescente de quatorze anos também é.

No ano passado, comprei um volume grosso chamado “Alma­na­que anos 80”. Foi num dos sebos do centro da cidade. Tinha me interessado pelo livro na época do lançamento, mas estava muito caro e preferi esperar alguém se desfazer de suas memórias para, en­fim, polir as minhas. Foi uma boa leitura, menos pela qualidade do texto do que pela nostalgia que provocou. Há poucas semanas, comprei o “Almanaque anos 90”, sua continuação menos saborosa. Quanto mais distante no tempo, mais blindamos nossas lembranças.

 Um belo dia, piscamos os olhos num mundo analógico, de fitas K7 e VHS, e, ao abrir os olhos, encontramos celulares e Blu-ray; só faltou mesmo o skate voador de Marty Mcfly | Foto: Divulgação

Um belo dia, piscamos os olhos num mundo analógico, de fitas K7 e VHS, e, ao abrir os olhos, encontramos celulares e Blu-ray; só faltou mesmo o skate voador de Marty Mcfly | Foto: Divulgação

Não é fácil ter trinta anos no co­meço do terceiro milênio. Con­viver com a geração Y tendo nascido e crescido numa época onde a letra Y nem era oficialmente integrada ao idioma. E é indisfarçável, somos marcados, o sinal da vacina da varíola denúncia nossa antiguidade. Um belo dia, entre os anos 80 e 90, piscamos os olhos num mundo analógico, de vinil e fitas magnéticas, K7, VHS, telefones com roda-roda, e quando os abrimos encontramos CD’s, DVd’s, 3D, celulares, arquivos digitais, E-books; só faltou mesmo o skate voador do Marty Mcfly.

Quem trabalha como professor, convivendo diretamente com os Y’s abas retas, vivencia essa sensação de modo ainda mais evidente e superdimensionada. En­quanto achamos que um quadro branco no lugar de um quadro negro ou o datashow substituindo o retroprojetor são novidades tecnológicas dignas dos Jetsons, eles consideram a primeira trilogia de “Guerras nas Estrelas” coisa de nerd velho. Nem chamam de “Guerra nas Estrelas”, chamam de “Star Wars” (e “Super-Homem” de “Superman”). Até a “Segunda Trilogia” está chegando à meia idade. Em comum, como se fossem pontes entre gerações, só consigo pensar em Chaves e Caverna do Dragão. E olha lá!

Nem tudo mudou, mas muitas coisas importantes sim. Hoje nós nos empanturramos de sorvete, iogurte e Coca-Cola, porque essas coisas eram caras quando éramos crianças. De repente, sem mais nem menos, a questão da sobrevivência do objeto livro tornou-se relevante, tema de debates, artigos, teses e livros, claro, de papel e e-books. Em meus tempos de colégio essa pergunta era feita em relação ao petróleo. Tínhamos medo de acabar vivendo no mundo pós-apocalíptico de Mad Max. Nem passava por nossa cabeça a possibilidade de habitarmos nas casinhas sem gra­ça de “Fah­renheit 451” [filme de Ray Bradbury].

Ainda estamos no jogo, incorporamos as novidades; e não poderia ser diferente, que é isso que a humanidade sempre fez. Assim caminha a humanidade, desde que o Hellboy descobriu como fazer fogo. Mas a nostalgia tornou-se nosso segundo esporte preferido. Interfere até no primeiro, vide nossas seleções particulares de melhores jogadores de todos os tempos, superpovoadas pelos fracassados de 1982 e 1986.

Temos a ilusão de que até em nossa pornografia havia certo romantismo e de que essa penúria era boa. Baseava-se em raros exemplares de Playboy circulando de mão em mão, embalagens de meia-calça Kendall e clipes da Mara Maravilha. O hardcore ficava por conta de imitadores do Zéfiro que encontrávamos em gavetas que não poderíamos mexer. Hoje, vídeos escatológicos como “Duas garotas e um copo”, que antes eram coisa de submundo, quase um filme snuff [filmes em que as pessoas morrem de verdade em frente às câmeras], tornam-se virais, modinhas pop. Assisti-los é uma obrigação social importantíssima para conseguir participar das rodinhas de conversas.

Nossos pontos de encontro não são mais em livrarias, onde somos esmagados pela presença opressiva dos autores de papel, desses que ganham prêmios, dão conferências e possuem biografia e filmografia na Wikipédia, mas em bares onde podemos afogar nossas crises criativas, sejam verdadeiras ou artificiais. E quanto mais sujo e barato for o bar, mais cool somos, mais combatemos o status quo, mais resistimos às máfias editoriais e outros inimigos imaginários.

Sempre falamos do Nobel, mesmo quando não falamos do Nobel ou falamos de outros prêmios. Camões é Nobel, Jabuti é Nobel, Pulitzer é Nobel, Casa das Américas é Nobel, Cora Coralina é Nobel. Não é, mas é. É o ponto de comparação. Pergunte para dez pessoas comuns sobre montanhas e sete vão te falar do Everest, duas do K2 e uma, ou nem isso, do Pico da Neblina. Com escritores é o Nobel. Quem está no sopé da montanha não consegue imaginar nada além do cume. Nobel é o Oscar. Para quem só conhece o Everest só existe o Oscar, mesmo quando se fala tão mal do Oscar. E do Nobel. Ou são escritores que ganharam o Nobel sem merecer, ganharam e entraram em decadência ou que não ganharam porque são maiores do que o Nobel, mas não seriam mais se ganhassem.

Entre cervejas, espetinhos e pasteis oleosos, esbravejamos sobre José Saramago ter perdido o talento após o Nobel, que Lobo Antunes, talvez pelo simples fato de não ter, ainda, levado o Nobel, é melhor que o conterrâneo que levou; que Garcia Márquez não fazia nada que prestava há décadas, ficando só lambendo os tênis Adidas do Fidel; que o reacionário do Borges não merecia mesmo ganhar; que Philip Roth nunca vai ganhar, porque é judeu e americano, e se foi ou é comunista, não importa, que ainda assim é americano. Com nossas mãos sujas de mostarda e ketchup, somos os guardiões do Cânone Ocidental. Faz parte da mentalidade ocidental, e de suas regras de sociabilidade, o menor julgar o maior. O contrário não pode, é mal visto, é elitismo, pedantismo. A solução é jogar o falso jogo dos iguais.

Lemos aos saltos os textos uns dos outros. Menos por interesse ou solidariedade do que por ato mecânico de passar os olhos. As exceções confirmam a regra. Se, por acaso, um de nós parece ser bom, mas bom mesmo, a ponto de nos interessarmos em ler sem saltos e não temos como negar seus méritos, dizemos que fulano até tem jeito de autor de verdade. Merece o Nobel. Nunca falamos que merece o Jabuti, o Camões ou uma medalha da Academia Brasileira de Letras; mas o Nobel, sempre o Nobel.

Pode uma geração formada pela Sessão da Tarde inspirar ir além de Ferris Bueller, de “Curtindo a Vida Adoidado”? | Foto Divulgação

Pode uma geração formada pela Sessão da Tarde inspirar ir além de Ferris Bueller, de “Curtindo a Vida Adoidado”? | Foto Divulgação

Minha geração faz literatura sobre a necessidade esmagadora e a dificuldade intransponível de escrever literatura. Talvez isso seja fruto das muitas vezes em que assistimos Billy Crystal (Monstros S.A., 2001) martelando “a noite estava…” na máquina de escrever, nas incontáveis reprises de “Jogue a mamãe do trem” que passava na Sessão da Tarde. Pode uma geração formada pela Sessão da Tarde inspirar ir além de Ferris Bueller [longa dirigido por John Hughes; no Brasil, ganhou o título “Curtindo a Vida Adoidado”]? O Carpe diem dos poetas mortos combina com Bildungsroman [romance de formação]? Eu não sei, mas, na dúvida, podem colocar mais essa na conta da Globo.

Se minha geração não escreve romances de geração, se farta de fazer romances de formação em infinita formação, como lagartas dentro da crisálida, telegrafando a borboleta que imaginam que serão, lamentando que possuam tudo para terem lindas asas, mas “terem” não é ter, ter é ser, ser é estar, e, agora, apenas estão, sem ser; talvez, minha geração não escreve romances de geração simplesmente porque ainda não temos idade para tanto. Mas hoje é tudo tão rápido e nosso fracasso veio antes do fracasso da geração anterior ou nem tivemos fracasso, pois nem tivemos tempo para sermos promessas.

Não fosse por nossa vocação para sermos autocentrados, o fato de não escrevermos romances de geração poderia ser interpretado como modéstia. Afinal, todo romance de geração é pretensioso — é da natureza do gênero. Mas será possível que aqui, dadas às circunstâncias, pretensão se converta em humildade, vergonhosa humildade?

Ademir Luiz, autor do romance “Fogo de Junho”, vencedor do prêmio Hugo de Carvalho Ramos 2014, é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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