García Márquez: de como contar histórias é só contar história, desde que seja boa…

Uma idosa treina seu cãozinho para ir ao cemitério com ela todos os dias, pois teme que ninguém vá render-lhe homenagens ou lembrar-se dela depois de sua morte

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Desde quando nós nos pegamos a separar as histórias que contamos para crianças e jovens e as histórias que contamos para adultos? Em que momento houve essa repartição temática por faixa etária? As histórias que ouvíamos quando crianças contadas pelos nossos tios e avós ao pé dos fogões caipiras, ainda na ausência da energia elétrica, ou ao redor das fogueiras, espantando o frio realmente congelante daquele tempo… eram histórias escolhidas para nós, por sermos crianças? Ou, simplesmente, eram as únicas até então aprendidas e decoradas num dedilhar de sons e trejeitos tão suaves aos ouvidos que dificilmente seriam esquecidas?

Bem, para mim não foram esquecidas. Foram, sim, exemplos de narrações melódicas, muitas vezes assustadoras… nunca passou pela cabeça de nenhum adulto que também ouvia, com certeza, censurar uma ou outra por considerar inadequada aos meus ouvidos ou de meus primos e irmãos, também ouvintes assíduos daquelas narrativas orais.

Sim, porque não havia livros. Minha família nem sequer cogitava, pensava na existência deles. Nem por isso fui privada do universo das narrativas maravilhosas e fantásticas que já povoavam desde tempos imemoriais o imaginário popular.

Dessa forma, envolta em lembranças prazerosas, apresento, do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), ilustrado por Carme Solé Vendrell, publicado pela Editora Record, em 2001, o incrível livro, “María dos Prazeres” (32 páginas, tradução de Eric Nepomuceno). Nesse caso, catalogado como literatura infanto-juvenil.

Poderiam já, de início, questionar: García Márquez para crianças e jovens?

Parto do princípio, já defendido por muitos de que a literatura, por ser uma manifestação artística, não possui fronteiras. Não só parto como acredito nessa premissa: a criança, quando demonstra real interesse por determinada obra literária, apenas lê, e se o fizer conduzida por um adulto livre de preconceitos e estereótipos, nossa, que feito maravilhoso! Que resultados incríveis poderão surgir desse ato.

“María dos Prazeres” (sétimo conto de “Os Doze Contos Peregrinos”) é uma história sensível capaz de derreter corações, quem sabe, insensíveis, se é que eles existem… claro que a narrativa será mais bem compreendida por um público maior de dez anos, no caso, a partir do quinto ano, não porque seja proibido, mas porque a trama poderá não despertar o interesse dos mesmos. Não à toa a ficha o classifica como infanto-juvenil, categoria à qual pertencem os jovens.

Gabriel García Márquez, escritor colombiano e Nobel de Literatura | Foto: Reprodução

A personagem central, já bastante idosa, no caso, treina seu cãozinho para ir ao cemitério com ela todos os dias, pois, sendo solitária no fim da vida, teme que ninguém vá render-lhe homenagens ou lembrar-se dela depois de sua morte.

Já vimos essa temática mostrada em outras formas de narrativa, como o cinema, por exemplo, em que o dono morre e o cão fica a esperar eternamente por ele. No caso da narrativa de Márquez, María não só fazia esse exercício diário de ir com seu cão ao cemitério para que ele aprendesse o caminho como também fazia questão de deixar tudo minimamente organizado para seu funeral.

A obra vale pelas sutilezas das cenas bem pensadas, pelo cuidado com a composição da personagem principal, pela forma como os personagens secundários vão surgindo e pelo realismo fantástico, inigualável de García Márquez, além, é claro, da beleza dessa edição cuidadosa, pensada com carinho para os mais jovens que, sozinhos ou na companhia de um adulto, poderão se encantar com a riqueza poética dessa enigmática María dos Prazeres, uma brasileira, mas que fez a “vida” na Europa. Fica a dica.

Soninha dos Santos é professora de literatura infanto-juvenil.

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