Há compositores que nos tomam pela mão e nos conduzem por dentro do país. Não o país dos mapas, mas o que pulsa no corpo, que se insinua nos sotaques, que guarda sua própria harmonia secreta. Francisco Mignone é desses. Cada vez que sua música volta à cena, algo em nós se reergue, como se recordasse, com certa surpresa, que há uma brasilidade possível, erudita, refinada e, ao mesmo tempo, absolutamente nossa.

Giancarlo Guerrero (1969) e Fábio Martino (1988)

Nesta semana, celebremos o lançamento do disco com o ciclo das quatro Fantasias Brasileiras, gravadas pela Osesp sob regência de Giancarlo Guerrero (1969), com o pianista Fábio Martino (1988), pelo importante selo internacional Naxos, dentro da série Brasil em Concerto. Um gesto que não é apenas fonográfico: é histórico.

Mário de Andrade (1893 – 1945) e João de Souza Lima (1898 – 1982)

Mignone compôs suas Fantasias entre 1929 e 1936, num momento em que retornava da Europa e, provocado pelas ideias de Mário de Andrade, buscou uma música que se comprometesse com o Brasil profundo. Foi João de Souza Lima (1898 – 1982), compositor e pianista cosmopolita, elegante, apaixonado pelo calor da música de Mignone, quem lhe pediu algo “com sabor brasileiro”.

O resultado é um ciclo que parece atravessar os bairros da alma. A Primeira Fantasia irrompe com energia quase teatral, coroada por uma cadência magnífica do piano. A Segunda se ilumina na doçura, um lirismo em que piano e o primeiro violino conversam como se estivessem sentados à soleira da porta, de um entardecer. A Terceira é a mais atrevida: ritmos penetrantes, síncopes que lembram ruas agitadas, passos firmes, alegria desmedida. E a Quarta, ah, essa é puro saudosismo: uma brasilidade melancólica, delicada, feita de lembranças e respirações longas.

Todas dialogam entre si como um pequeno épico nacional. E todas revelam o virtuosismo pianístico de Mignone, aliado ao talento inquestionável de seu ofício de orquestrador.

Em 2023, quem esteve na Sala São Paulo ouviu uma orquestra que parecia lembrar-se de que está em uma metrópole latino-americana. Sob o comando caloroso do maestro costarriquenho Giancarlo Guerrero, a Osesp soou viva, luminosa, elétrica. O Brasil e a brasilidade, defendidas por Mário de Andrade, estava presente no gesto dos contrabaixos, no brilho das madeiras, na malícia dos metais.

E no centro desse furacão estava Fábio Martino, um pianista de vigor contagiante, mas também de extraordinário refinamento. Martino dança com a orquestra, e a orquestra dança com ele. Ele se permite o risco, a ousadia, o riso. Ao mesmo tempo, lapida cada detalhe, cria diálogos delicados, faz do piano não apenas um protagonista, mas um narrador. Ouvi-lo é perceber que Mignone não é um monumento a ser reverenciado à distância, é uma voz que ainda respira entre nós.

O lançamento dessa obra pela Naxos tem peso simbólico. Durante décadas, a música de concerto brasileira viveu às margens das grandes gravadoras internacionais. Hoje, ouvir Mignone com essa qualidade de interpretação e registro técnico é quase um acerto de contas com a história.

Mais do que isso: é uma afirmação. Sabemos produzir arte em nível altíssimo. Sabemos contar nossas histórias. Sabemos construir memória.

As Fantasias Brasileiras nasceram de um desejo profundo de encontrar o Brasil na música. Nesta gravação, esse país ressurge vibrante, polido, generoso, cheio de luz.

Sugiro começar pela Segunda Fantasia. Foque atento ao diálogo entre piano e primeiro violino. Note como o fraseado respira, como se as notas se inclinassem para ouvir umas às outras. Mignone nos ensina que a doçura não é fraqueza, é força madura, é saber de onde viemos.

E, se puder, permita-se depois a irreverência da Burlesca e Toccata, onde o compositor revisita esse universo décadas depois, agora com pitadas inesperadas de atonalidade. É Mignone olhando para si mesmo com humor, e nos convidando a rir junto.

Que esta semana nos encontre assim: mais abertos ao encontro, mais disponíveis à beleza, mais atentos ao Brasil que pulsa silencioso nos nossos gestos. E que Mignone continue nos lembrando daquilo que a pressa quase sempre esconde: “o país que existe quando alguém decide escutá-lo de verdade”.