Fortuna crítica exibe a destreza de Nilto Maciel na arte de Machado de Assis e Camões

Além de exímio contista, novelista e romancista, Nilto Maciel também é poeta de técnica depurada e sensibilidade aguçada

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

No alvorecer de 2011, ao reunir o material crítico sobre a ficção e a poesia de Nilto Maciel, surgiu de chofre uma dificuldade: qual o critério a ser adotado para apresentar os artigos, resenhas e ensaios publicados sobre a obra do autor de “A Rosa Gótica”? Foi este o meu primeiro desafio.

No calor do momento, optou-se pela importância dos nomes dos articulistas, mas isso foi logo rejeitado pelo despropósito da ideia. Em seguida, veio à baila a compilação do volume por ordem alfabética dos textos, solução que pareceu também meio estapafúrdia; portanto, logo descartada. Que fazer, então? E o impasse continuava.

Depois de alguma reflexão, o óbvio mostrou a sua face. A melhor solução foi aquela que privilegiava a ordem cronológica de publicação dos livros, desde a estreia de nosso homenageado até data bem recente. Assim, poder-se-ia acompanhar a evolução estilística e o interesse da crítica na consolidação da obra de um escritor cuja trajetória, sem recuos, era das mais promissoras no campo da moderna literatura brasileira.

E foi assim que nasceu e ganhou forma o livro “A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel” (Imprece Editorial, Fortaleza) que, não sem uma ponta de orgulho de minha parte, finalmente foi entregue ao público leitor em 2012. Filho de uma ideia singular, mas cheia de sinceridade estética e — por que não dizê-lo? — espiritual, o nosso projeto finalmente se materializou, depois de um longo caminho percorrido, para ser apreciado e avaliado por todos aqueles que acompanharam a escalada artística do escritor em referência.

Nilto Maciel: um escritor múltiplo | Foto: Reprodução

De uma longa convivência e seus frutos

Meu convívio com Nilto Maciel teve a duração de mais ou menos uns trinta anos. Conhecemo-nos na primeira metade da década de 1980, num tempo em que ainda estávamos — pelo menos eu — tateando timidamente no terreno das letras, mas cheios de entusiasmo e conscientes da carreira escolhida. (Escrever no Brasil não é tarefa simples e exige sacrifícios enormes, principalmente quando o assunto é publicar e divulgar livros.)

Hoje, sem medo de errar, posso afirmar que muito raramente tenho encontrado em minha trajetória um talento à altura de Nilto Maciel, esse nobre filho de Baturité, do Ceará e do Brasil de tantos gênios, não só na literatura, como na música, nas artes plásticas, nas artes cênicas. Nosso país, por um lado, produz espontaneamente a matéria-prima da genialidade humana e artística, e, por outro, cria um descompasso contraditório e terrível: parece não saber produzir os meios necessários para uma gestão de qualidade de seus extratos culturais. E isso tem nos transformado em pequenos arquipélagos, cada vez mais isolados uns dos outros.

Um só exemplo será bastante. Padre José Maurício, na sua época, compôs tanto quanto ou mais que Johann Sebastian Bach, no período barroco. Hoje, para ouvir sua música ou encontrar suas partituras, no entanto, há que despender esforços sobre-humanos; sem contar que, certamente, mais da metade dessa obra, em razão do descaso do Estado, se perdera para sempre. Uma lástima!

Por isso é que fomos e ainda somos uma espécie de quixotes das letras. Além de escrever, amadurecer para escrever, ainda temos de viver sempre às margens do processo de publicação de livros e sua divulgação. Se não cuidarmos de nossa carreira, nunca sairemos do limbo e não alcançaremos um lugar ao sol. Ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, poucos escritores aqui têm agentes literários.

De um certeiro olhar fixo da crítica

Nilto Maciel, além de exímio contista, novelista e romancista, é também poeta de técnica depurada e sensibilidade aguçada, a exemplo de Alexandre Herculano, em Portugal, e do saudoso Lêdo Ivo, em terras brasileiras. E esta sua fortuna crítica, finalmente compilada em livro, não deixa dúvida e atesta uma destreza no manuseio da arte de Camões digna dos nossos melhores representantes. Embora a produção de Nilto Maciel na poesia não seja tão expressiva quanto na ficção, o pouco material publicado confirma e corrobora os encômios reunidos acerca de seu livro “Navegador”, de 1996, saídos da pena de uma Laene Teixeira Mucci, de um Fernando Py, de um Paulo Nunes Batista, de um Angelo Manitta, escritor italiano que divulga a poesia de Nilto Maciel em terras de Virgílio.

Sobre sua prosa de ficção, reuniram-se no livro “A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel” algumas dezenas de autores e críticos consagrados que, com textos claros e elucidativos, fazem o justo reconhecimento da obra do autor de “Os Guerreiros de Monte-Mor”, um escritor completo, que, em exatos quarenta anos de publicação, construiu uma bibliografia das mais vigorosas de que se tem notícia, e que ainda teria muito a oferecer de sua sensibilidade e do seu talento às nossas letras, não fosse a “indesejada das gentes”, que o colheu num piscar de olhos aos 69 anos de idade.

Nilto Maciel morreu em Fortaleza, para onde havia se mudado após a aposentadoria no serviço público depois de deixar Brasília. E lá, escrevendo e publicando, deu continuidade à sua ourivesaria literária, sob as bênçãos do mar e do céu azul da capital de seu prodigioso Estado do Ceará. Que Deus o tenha!

Pequena biografia de Nilto Maciel

Nilto Maciel nasceu em Baturité, aos 30 de janeiro de 1945, e faleceu em Fortaleza em 29 de abril de 2014. Formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará.

Morou em Brasília de 1977 a 2002, tendo trabalhado na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF.

Em Fortaleza, foi um dos fundadores da revista “O Saco” (1976).

Editou, de 1992 a 2008, a revista “Literatura”, com a colaboração de José Peixoto Júnior, João Carlos Taveira, Dimas Macedo, Anderson Braga Horta, Joanyr de Oliveira, Emanuel Medeiros Vieira, Enéas Athanázio, entre muitos outros, que circulou até o número 32.

Tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. “O Cabra que Virou Bode” foi transposto para a tela (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993.

Organizou, com Glauco Mattoso, “Queda de Braço — Uma Antologia do Conto Marginal” (Rio de Janeiro/Fortaleza, 1977). Participa de diversas coletâneas, entre elas “Quartas Histórias – Contos Baseados em Narrativas de Guimarães Rosa”, organizada por Rinaldo de Fernandes (Garamond, Rio de Janeiro, 2006); “15 Cuentos Brasileros”/”15 Contos Brasileiros”, edición bilingüe español-portugués, organizada por Nelson de Oliveira e tradução de Federico Lavezzo (Córdoba, Argentina, Editorial Comunicarte, 2007); e “Capitu Mandou Flores”, organizada por Rinaldo de Fernandes (Geração Editorial, São Paulo, 2008).

Obra publicada
  • “Itinerário”, contos, 1.ª ed. 1974, ed. do Autor, Fortaleza, CE; 2.ª ed. 1990, Scortecci Editora, São Paulo, SP.
  • “Tempos de Mula Preta”, contos, 1.ª ed. 1981, Secretaria da Cultura do Ceará; 2.ª ed. 2000, Papel Virtual Editora, Rio de Janeiro, RJ.
  • “A Guerra da Donzela”, novela, l.ª ed. 1982, 2.ª ed. 1984, 3.ª ed. 1985, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, RS.
  • “Punhalzinho Cravado de Ódio”, contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará.
  • “Estaca Zero”, romance, 1987, Edicon, São Paulo, SP.
  • “Os Guerreiros de Monte-Mor”, romance, 1988, Editora Contexto, São Paulo, SP.
  • “O Cabra que Virou Bode”, romance, 1.ª ed. 1991, 2.ª ed. 1992, 3.ª ed. 1995, 4.ª ed. 1996, Editora Atual, São Paulo, SP.
  • “As Insolentes Patas do Cão”, contos, 1991, Scortecci Editora, São Paulo, SP.
  • “Os Varões de Palma”, romance, 1994, Editora Códice, Brasília.
  • “Navegador”, poemas, 1996, Editora Códice, Brasília.
  • “Babel”, contos, 1997, Editora Códice, Brasília.
  • “A Rosa Gótica”, romance, 1.ª ed. 1997, Fundação Catarinense de Cultura, Florianópolis, SC (Prêmio Cruz e Sousa, 1996), 2.ª ed. 2002, Thesaurus Editora, Brasília, DF.
  • “Vasto Abismo”, novelas, 1998, Ed. Códice, Brasília.
  • “Pescoço de Girafa na Poeira”, contos, 1999, Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Bárbara Bela Editora Gráfica, Brasília.
  • “A Última Noite de Helena”, romance, 2003. Editora Komedi, Campinas, SP.
  • “Os Luzeiros do Mundo”, romance, 2005. Editora Códice, Fortaleza, CE.
  • “Panorama do Conto Cearense”, ensaio, 2005. Editora Códice, Fortaleza, CE.
  • “A Leste da Morte”, contos, 2006. Editora Bestiário, Porto Alegre, RS.
  • “Carnavalha”, romance, 2007. Bestiário, Porto Alegre, RS.
  • “Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil”, ensaio, 2008. Imprece Editorial, Fortaleza, CE.
  • “Contos Reunidos” (volume I), 2009. Editora Bestiário, Porto Alegre, RS.
  • “Menos Vivi do que Fiei Palavras”, 2012. Editora Penalux, Guaratinguetá, SP.
  • “Sôbolas Manhãs”, 2014. Editora Bestiário, Porto Alegre, RS.
Prêmios
  • Prêmio da Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1981, com o livro de contos “Tempos de Mula Preta”;
  • Prêmio da Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1986, com o livro de contos “Punhalzinho Cravado de Ódio”;
  • Prêmio “Brasília de Literatura”, 90, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com “A Última Noite de Helena”;
  • Prêmio “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com “Os Luzeiros do Mundo”;
  • Prêmio “Cruz e Sousa”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com “A Rosa Gótica”;
  • Prêmio VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, 1996,
  • Prêmio Fundação Cultural de Fortaleza, CE, com o conto “Apontamentos Para Um Ensaio”;
  • Prêmio “Bolsa Brasília de Produção Literária”, 98, categoria contos, com o livro “Pescoço de Girafa na Poeira”;
  • Prêmio “Eça de Queiroz”, 99, categoria novela, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, com o livro “Vasto Abismo”.

João Carlos Taveira, poeta e crítico literário, autor de diversos livros publicados, entre os quais “O Prisioneiro”, “Aceitação do Branco” e “Arquitetura do Homem”, é colaborador do Jornal Opção.

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