Força das ancestrais sustenta o espetáculo “Adobe”, de Luciana Caetano

Primeira aluna negra de balé em Goiânia celebra seus 50 anos exalando vigor e faz tributo às suas origens familiares no Teatro SESC Centro

Fotos da reportagem: Cida Carneiro
 

Um espetáculo bem simbólico, carregado de memórias e afetos, mas que ocupa o palco com a leveza e sublimidade da dança. É esta dialética que a bailarina Luciana Caetano, primeira aluna negra de balé em Goiânia e fundadora do Grupo Solo de Dança, articula em “Adobe”, espetáculo que celebra seus 50 anos de vida e enreda uma tessitura dos cenários que ela traz dentro de si – as vidas das mulheres de sua família e de suas histórias, memórias físicas, sociais e emocionais que delineiam a existência destas matriarcas. A montagem será a atração da próxima quinta-feira (7/3), véspera do Dia Internacional da Mulher, no Teatro Sesc Centro.

Luciana se considera “impregnada” pela obra, na qual se debruça há algum tempo. “’Adobe’ é um espetáculo em que faço reverência aos meus antepassados, o que deles ficou em mim. Faço uma analogia do adobe, esse tijolo feito de barro, da terra, com as mulheres negras do nosso país. A África, sua origem, possui um sistema matriarcal; consequentemente, o Brasil também o é. Quantas avós são arrimo de família, quantas mães cuidam de seus filhos e seus descendentes praticamente sozinhas? Essas mulheres são o esteio da sociedade. Claro que nosso País é mestiço, mas a maioria é de pessoas negras. Quero atentar a plateia para isto, para o fato de que fui a primeira menina negra a estudar balé em Goiânia e de continuar dançando até hoje”, reflete.

Mas não é somente na poética do espetáculo que o clã Caetano aparece. Sem recursos financeiros de leis e incentivos culturais, Luciana conta com o apoio de familiares e amigos na criação e produção. Renata Caetano (irmã de Luciana) atua na produção e cena empresarial; a trilha sonora é de JP Caetano (sobrinho) e Gabriel Caetano (filho); o desenho de luz de Júnior Oliveira (ex-companheiro e pai de Gabriel). A identidade visual e audiovisual é de Paulo Caetano (irmão de Luciana) e a fotografia fica a cargo da amiga Cida Carneiro. “Um verdadeiro quilombo”, diz Luciana.

Luciana iniciou seus estudos em dança em 1975, aos 6 anos de idade. “Na verdade, eu queria começar já com 3, mas meus pais esperaram. Ganhei uma bolsa na Academia Elzi Nascimento, onde pude estudar com a Conceição, Marília Nascimento e Cida Lima”, recorda-se. De 1985 a 1990, integrou o Grupo de Dança Energia, a convite de Julson Henrique. Já entre os anos de 1989 e 1999 fez parte da Quasar Cia de Dança, participando de todas as turnês nacionais e internacionais deste período.

Em 199, fundou o Grupo Solo, no qual atuou como coreógrafa e bailarina. “Em 1991, quando a Quasar foi convidada para fazer parte do corpo de baile do Balé do Estado, comecei a dar aulas no Gustav Ritter, onde passei a fazer coreografias para especiais de ano. Gostei muito, mas só me tornei, de fato, uma coreógrafa, quando fundei o Grupo Solo”, diz. Formada em Geografia pela Universidade Federal de Goiás, em 1992, Luciana tem desenvolvido diversos trabalhos ligados à dança contemporânea e às artes cênicas em Goiás e outros estados no Brasil.

O currículo de Luciana é vasto. É bailarina, coreógrafa, professora de dança e especialista em Pilates, membro do Fórum de Dança de Goiânia, membro do Colegiado Nacional de Dança. Diretora, coreógrafa residente e fundadora do Grupo Solo de Dança e do Grupo Contemporâneo de dança. Concebeu e coreografou os seguintes espetáculos: 1997 “Enquanto se Espera” (primeira versão), 1998 “Preto no Preto”, 1999 “Obliquação”, 2000 “Terra Cruz” e “Saúri-nhõre”, 2003 “Parceiros da Rua”, 2004 “Mulheres”, 2006 “Enquanto se Espera” (versão infantil), 2008 Cerratenses, 2015 “Cartas de Frida”.

Grupo Solo de Dança – Luciana Caetano – 2019

Desafios

As travessias enfrentadas por Luciana, que se profissionalizou e viveu toda a sua vida através da dança contemporânea, do jazz, do balé clássico, e que passou por grupos como o Energia, de Julson Henrique, e a Quasar Cia de Dança, de Henrique Rodovalho, também é algo que o espetáculo “Adobe”, simbolicamente traz para a cena.

Ao completar 50 anos, ela ressalta a importância de estar no palco, mesmo em uma idade que muitos a aconselhariam a parar. “Acho que sou uma das poucas nessa idade, em Goiânia, que ainda se colocam cena. Queria aproveitar que estreio o espetáculo bem no ano em que faço 50 anos, para mostrar para as pessoas do Centro-Oeste e de Goiás, que é possível seguir atuando. Claro que não danço como quando tinha 20, vou dançar com meu corpo de 50”, pontua.

A falta de reconhecimento da diversidade étnica nas artes também é uma luta de Luciana, que aos 6 anos de idade foi uma das primeiras meninas negras a ser matriculada em escola de balé clássico em Goiânia. Assustadoramente, somente 200 anos depois das brancas é que surgiram sapatilhas para bailarinos/as negros/as. Até então, era necessário tingir ou pintar os sapatos com maquiagem, para combinar com seu tom de pele. Esta é uma notícia publicada no final do ano passado (2018) que pode ser encontrada facilmente em veículos de imprensa de todo o Brasil.

Luciana reconhece-se como uma privilegiada, por ter contado com o apoio, principalmente dos pais, mas ela enfatiza que a discrepância no acesso à dança segue sendo gritante. A artista quer deixar também, como legado para as futuras gerações, seu exemplo na transposição destas barreiras. “Goiânia é uma cidade muito racista. Tentei levar tantas meninas negras para a dança; muitas não suportam os olhares, os comentários… Esse ano não darei aulas, mas não desisti deste meu sonho. De ter um grupo de meninas negras dançando”, planeja.

Serviço:
Estreia do espetáculo “Adobe” – solo de dança contemporânea, de Luciana Caetano
Data: Quinta-feira (17/3)
Horário: 20h
Local: Teatro Sesc Centro (Rua 15, esquina com Rua 19, Centro – Fone: (62) 3933 1714 ou 3933-1711
Ingressos: R$ 8 (trabalhadores do comércio e dependentes); R$ 10 (Conveniados); R$ 11 (Meia-entrada); R$ 22 (inteira).

2 respostas para “Força das ancestrais sustenta o espetáculo “Adobe”, de Luciana Caetano”

  1. Ana Paula Mota disse:

    Agradecemos ao Opção Cultural, na pessoa da querida Marília, por esta preciosa atenção aos nossos artistas locais. Sigam sempre sendo Opção.

  2. Jose Alberto disse:

    Sou absolutamente fã, desde os tempos imemoriais. Merece todos os aplausos……de pé !!!

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