Flávio Carneiro sabe que leitores também são fingidores — não só poetas e escritores  

O professor é um mestre criativo tanto na literatura quanto na arte do ensaio. Sua imaginação é poderosa                                                 

Brasigóis Felício
Especial para o Jornal Opção

O escrever sobre a escrita — ou a escrituração da imaginação literária — não é para quem deseja ou quer. É para quem tem o dom de, sendo poeta ou escritor, ser narrador ou versejador de capítulos ou parágrafos do livro de estar vivo, existindo na carne de algum tomo da labiríntica biblioteca universal do existir na carne e em locomoção. Também é lícito, e não fala irracional, afirmar que leitores também são fingidores — não só os poetas e escritores.

Flávio Carneiro e seu livro “A Confissão” | Foto: Reproduções

Leitores têm de ser fingidores — sem contar com fruidores dessa classe imaginativa, poetas e escritores não teriam como existir. Pois quem busca ter um livro para si, por compra, empréstimo ou simples e contumaz furto cometido a alguma biblioteca descuidada, ou a algum ledor incauto ou desavisado, não o faz “por boniteza”, para reter o produto/objeto em posse vazia e improdutiva, de uma espécie inusitada de voyeur — e, sim, como quem entra em uma sessão de cinema, ou busca algum título, na Netflix ou no YouTube da modernidade cinéfila infoviária, o faz para desfrutar de uma espécie de solidão criativa, de um isolamento comunicante ativo, da imaginação e fantasia, que tornam mais rica e bem mais interessante, a comovedora e perigosa experiência de estar vivo, que não poucas vezes, é saturada de irritação, vazio e esterilidade. “As coisas/ como são tristes/ as coisas; consideradas sem ênfase/” — como falava o mestre-poeta e gauche itaribrano Carlos Drummond de Andrade.

O escritor goiano Flavio Carneiro, professor, ficcionista e ensaísta, é comprovadamente um dos que têm o dom, e a capacidade técnica e estilística de o fazer. Pois que em certas realizações da arte de escrever só ter boa intenção não basta para consumar em atos, desejos, estertores de débeis vontades, ganas de insuficientes anseios. Muitos de seus livros ficcionais contêm elementos ensaísticos, lampejos de ideias filosóficas, como em seu expressivo e conhecido romance “A Confissão”. Ou em livros de natureza ensaística a criação ficcional e, mesmo a prosa poética, fazem-se presentes, em baiões de dois, ou até de três bailarinos, dançantes ou brincantes — como em seu livro “O Leitor Fingido”.

“O escritor Jean-Paul dizia que livros são cartas endereçadas a amigos, só que mais longas”, diz o romancista goiano que produz e trabalha como professor no Rio de Janeiro (mais especificamente, em Teresópolis, onde reside há tempos).

A matéria de seu livro-ensaio interessa a teóricos de literatura e também se destina principalmente a escritores de criação, seja de natureza ficcional ou poética — bem como a não seja nem uma coisa nem outra, pertencendo à categoria humana que vai entrando em vertiginosa e trágica extinção, em todas as partes do planeta.

Digo isto porque, com o desaparecimento dos leitores, desaparece a literatura como expressão de arte, entrando em oblívio ou em declínio, por consequência inevitável, os artistas artífices da imaginação literária. Com a morte ou a extinção final dos leitores, mundos desaparecem, universos entram em colapso, sóis da criação imaginativa esgotam os elementos que propiciam sua ação atômica, implodem, e viram buracos negros, ou anãs brancas.

O que foi, ou quem foi, ao fim e ao cabo, uma persona/personalidade como o argentino Jorge Luis Borges, senão o leitor voraz ou contumaz, desde a infância, passando pela juventude e maturidade, continuando a sê-lo, em imaginação e recriação do vasto material já lido, mesmo depois de ser colhido pela cegueira, implacável e definitiva? É dele a frase, muito citada, de que se orgulhava mais dos livros que leu do que das obras que escreveu.

Logo na abertura de seu livro, assinala Flavio Carneiro: “Há um ritmo de leitura como há um ritmo da escrita. O escritor sabe que deve estender ou interromper a frase, o verso, quando deve acelerar ou retardar a ação, usar ou não o diálogo, longo ou breve, ou dar sequência a uma cena, estrofe, imagem”.

Flávio Carneiro: autor que se destaca em várias áreas | Foto: Reprodução

O escritor não pode ter certeza, obviamente, de como será lido, em que velocidade, mas é levado, pela própria natureza da escrita, a tentar induzir o leitor a ler o texto num determinado ritmo. O leitor, por sua vez, de forma consciente ou não, não percebe o ritmo pretendido pelo texto, e a ele se entrega ou dele se afasta, firmando o pacto pretendido pelo autor, ou criando, por sua conta, um novo ritmo para o texto. Há romances, por exemplo, que parecem dizer a você: leia-me rápido, por favor. Ou às vezes o dizem de forma mais incisiva, tomando a forma de uma estressada esfinge: leia-me rápido, ou te devoro. Os bons romances policiais entrariam neste grupo. A leitura lenta de um romance policial pode privar o leitor daquilo que o romance tem a lhe oferecer: a vertigem da narrativa em alta velocidade, da ação que se desdobra em novas ações, rumo a um final que trará, ao leitor, a sensação do êxtase — no melhor dos casos, pela revelação do enigma”.

Em seu estudo sobre os diversos tipos de leitores, os entes destinatários, sem cuja parceria e cumplicidade não teria sentido algum o ato de escrever, Flávio analisa, comenta a diversidade mental de quem lê. Fala do leitor amoroso, do leitor e o prazer, do leitor e o tempo, o estrangeiro e o que espera — tece enredos e disserta sobre o leitor enigma, o leitor signo e o leitor sonho, o leitor e a morte, e o leitor vidente. Todos estes tipos de leitores, e outros, que uma vez entrando em extinção, sepultam a transformadora experiência da literatura, para sempre.

Flavio Carneiro, sendo autor de ficção, tem na relação livros/escritores, ou leitores e livros, temas preferenciais de sua escrita. Fato que se comprova na temática de seu romance “A Confissão” (que pode ser lido como de gênero policial, por seu ritmo, andamento ou temática), bem como em seu “Um Romance Perigoso” (Rocco, 2017. Se em A confissão o personagem principal da trama é um contumaz ladrão de livros, nesta recente produção do autor, a trama se desenvolve em torno de um serial-killer, que tem como obsessão seletiva matar conhecidos autores de livros de autoajuda. Ele o faz com obsessão reiterativa, com técnica cirúrgica, se é que se pode falar assim de assassinatos: o modus operandi é sempre o mesmo: uma injeção de estricnina que leva as vítimas ironicamente a manter o risus sardonicus como expressão para a eternidade.

“Perambulando pelas ruas e pelos bares, guiado pela fome do Gordo e a sede de cerveja de André, essa dupla de apaixonados por livros e aventuras vai correr contra o tempo para tentar decodificar os sinais de um assassino e salvar a vida dos autores. Para isso, contam com a ajuda de Heleno, um policial aposentado, e da bela e despachada Ana, namorada de André. E também de um inusitado consultor para assuntos de ficção policial, o alfaiate Valdo Gomes. Nessa história de enganos e disfarces, Flávio Carneiro presta sua homenagem singular ao gênero policial, sobretudo ao mestre do romance noir Dashiel Hammett, e ao seu seguidor mais ilustre, Raymond Chandler. A admiração e reverência que vão ressaltadas na epígrafe de seu “Um Romance Perigoso”, por um diálogo em “A Irmãzinha”, de Raymond Chandler: “Você esperou um longo tempo”; — “Sei ser paciente”.

A primeira parte de “O Leitor Fingido” reúne ensaios sobre o tema, entremeados de fragmentos autobiográficos que nos remetem à formação do autor-leitor.

Só por isto Flavio Carneiro já inova, se é que se pode inovar ou fazer algo em literatura que já não tenha sido feito antes, sendo as tentativas de “mudernagem” ou modernidade por reescrituras, interpolações, acréscimos, intertextualidades do já feito e do já sabido há muito. Sedo sabido que bom ensaísta é aquele que, ao cumprir e realizar a carpintaria inerente à sua obra arquitetada, é ao mesmo tempo cronista, contista, romancista e poeta.

Flavio Carneiro que conheci — eu adulto e ele quase adolescente, jovem, imberbe, visitando-me em minha casa no Setor Bela Vista, então Macambira, nas vizinhanças do campo do Goiás Esporte Clube. Sendo ele futebolista desde a sua infância na Vila Operária ou Fama onde jogou na Sele-Fama, time de tampinhas treinado por Fausto, craque do Vila Nova Futebol Clube. Segue batendo um bolão até hoje, em peladas com escritores e artista, tendo trocado caneladas com escribas e fariseus em “França Oropa e Bahia”, até na Alemanha (riso). Paixão que explica assunto nele recorrente em suas crônicas e contos, como se vê em seu “Passe de Letra — Futebol & Literatura” (Rocco).

Flavio e meu primo Ataíde Felício, professor apaixonado pelo ofício de ensinar, buscavam conselhos, impressões, iluminações literárias que os pudessem guiar — fiados que estavam em algum possível préstimo às minhas palavras de autor já viajado em muitas escriturações literárias de província, mas já com rodagem para inspirar os novos talentos.

Em 1980 sumiu da paisagem goiana o jovem interessado na arte de escrever — partiu para o ensino superior e a concomitante e emparelhada sólida e continuada produção literária, na cidade do Rio de Janeiro, onde, a exemplo de goianos como José J. Veiga, Benedicto Silva e Afonso Félix de Sousa, fincou raízes, para só voltar a Goiás para rever parentes, “reabastecer as baterias”, no dizer de José J. Veiga, e alimentar saudades.

Na segunda parte de sua obra, Flavio ilustra, com exemplos pinçados em sua biblioteca pessoal, os diferentes tipos de leitor e suas ligações com o texto. São leitores amorosos, estrangeiros, videntes, que se relacionam, através da linguagem, escrita ou não, com a memória, o prazer e a fantasia.

São personagens que lêem para estar vivos — e que narram para não morrer, como é o caso autodeclarado e conhecido de autores como Jean Genet, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Henry Miller, que encontraram na poesia e romances de experiências-limite, que escreveram, a tábua de salvação, para não sucumbirem — enfim, para sobreviverem em meio à miséria material (não limitadora de sua profunda riqueza intelectual ou espiritual).

Ou como se deu com a dramática experiência existencial de poetas e escritores brasileiros, os mulatos Cruz e Sousa, Lima Barreto e Machado de Assis e João do Rio, o paraibano Augusto dos Anjos, o paulista ator e teatrólogo Plínio Marcos, e até mesmo o poeta e compositor nordestino Torquato Neto, que, como Silvia Plath,  fechou a porta e abriu o gás — ou como no caso dos goianos José Décio Filho ou Yêda Schmaltz, ou Cora Coralina, ou deste obscuro e desimportante autor, uma vez que falo e proclamo que fui salvo pela literatura, pelos livros que li — mais do que pelos livros que escrevi – e até pelos livros que sorrateiramente furtei (risos).

Seguindo na mesma trilha, rememoro o exemplo de Fernando Pessoa, cuja obra magna Mensagem tirou o segundo lugar em concurso literário (não é sabido ou conhecido quem ganhou o certame) e que, no leito de morte, foi alvo de escárnio de parentes seus, que o consideraram “um grande inútil”. Ele que de si e sobre si mesmo, empregado tradutor de cartas em escritório comercial, escrevedor de versos que ia colocando, desorganizados, em um baú, escreveu: “Cumpri, com meu ofício, o meu dever ao mundo. Inutilmente? Não, porque o cumpri”.

Brasigóis Felício, poeta, jornalista e escritor, é integrante da Academia Goiana de Letras e União Brasileira de Escritores-Seção de Goiás.

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Adalberto Queiroz

Muito bom artigo do poeta sobre o ficcionista.