Filme premiado retrata vida de adolescentes em Silvânia

Estreia de ‘Dias Vazios’ acontecerá no dia 30 de maio, baseado em romance de André De Leones e dirigido por Robney Bruno Almeida

Foto: Divulgação

Crescer em uma cidadezinha de interior não é para qualquer um. O marasmo opressivo, os destinos semelhantes dos pares e a falta de oportunidades podem levar ao desespero, especialmente em uma fase fatalista da vida como a adolescência. Este é o tema do filme “Dias Vazios”, inteiramente rodado em Silvânia, município goiano de vinte mil habitantes, e baseado no romance “Hoje Está Um Dia Morto”, do premiado autor que também é nativo de Silvânia, André De Leones. A estreia comercial acontecerá no dia 30 de maio, pela Olhar Distribuição.

A trama,  transformada em roteiro e dirigida por Robney Bruno Almeida, gira em torno de dois casais em linhas do tempo separadas por dois anos. Jean (Vinícius Queiroz) e Fabiana (Nayara Tavares) formam o casal que cursa o terceiro ano em colégio de ensino médio e se vê sem perspectivas para o futuro; Daniel (Artur Ávila) e Alanis (Natália Dantas) pesquisam a vida do primeiro casal para a produção de um livro enquanto estudam no terceiro ano do mesmo colégio, dois mais tarde.

Com estrutura complexa, a montagem e direção são hábeis em transitar com naturalidade pelas duas narrativas. O caráter cíclico da vida dos moradores de Silvânia é fundido com o ponto de vista de Daniel, que empresta aos personagens de seu livro elementos autobiográficos. Do casal Jean e Fabiana vemos o que Daniel descobre e escreve, e ele admite em mais de um momento “estar inventando tudo mesmo”. O resultado é uma fusão dos personagens: mais de um é motivado pela vida em uma cidade no litoral, ou pela descoberta do amor, e mais de um se angustia pela impossibilidade de mudança, ou se ressente da religiosidade onipresente na cidade e abandono dos pais.

Foto: Divulgação

Enquanto Jean é parte ficcional e parte metaficcional (por ser criação de outro personagem dentro da trama), é fácil imaginar que Daniel seja parte ficcional e parte real. André De Leones e Robney Bruno Almeida são goianos e provavelmente compartilham com Daniel a personalidade artística, enclausurada por cidades provincianas onde a arte tem pouca perspectiva. Alguns dos medos de Daniel são que “ninguém vai ler seu livro”, ou “ninguém vai entender seu livro”, expostos pela namorada Alanis. Sabemos que André de Leones é um escritor de sucesso, com 4 romances premiados, e esse fato é trazido em letreito ao fim da projeção como evidência de que sucesso é possível, mesmo em Silvânia.

Outro ponto excelente de Dias Vazios é o uso de locações em uma Silvânia transformada em nimbo nublado e tedioso pela fotografia dessaturada e pálida. Na cidade, o único atrativo parece ser a lanchonete – lanchonete não, pit dog – que ambos casais frequentam para comentar como odeiam morar ali. O fato de ambos casais terem diálogos semelhantes e frequentar os mesmos lugares faz com que o livre arbítrio, trazido à tona em momento chave do longa, pareça uma piada. Os adolescentes detestam a cidade, mas já internalizaram a impossibilidade de mudanças e se recusam a viajar, estudar, aspirar carreira, pensar em família.

Obras sobre personagens deprimidos são sempre desafios. Afinal, muito do que caracteriza a depressão é a ausência da ação, coisa que não é muito cinematográfica.  Em muitos pontos o longa representa a doença com eficiência, como na duração longuíssima dos planos, no histórico de abandono dos personagens e no fato de eles se moverem como se andassem no fundo de um lago.

Foto: Divulgação

Porém, o uso repetido de cenas com diálogos negativistas e desmotivados podem tirar o impacto de episódios realmente trágicos (abundantes no filme). Há falas implausíveis, de um nihilismo expositivo, como “Você prefere falar trepar ou transar? – Trepar, porque parece mais triste”. Em parte, isso beneficia o clima de angústia para o qual o único antídoto parece ser o sexo. Por outro, faz o espectador se perguntar “por que esse casal está junto? Nada de bom acontece, eles nunca sorriem”. Caso houvesse sido oferecido justificativas para o amor entre os personagens ou momentos de alegria, a tristeza teria soado mais real e a mão do roteirista seria menos notada.

A falha é facilmente perdoável pelos acertos de Dias Vazios, um filme genuinamente criativo e genuinamente goiano, que reflete as agruras se nascer artista em uma terra onde isso não é valorizado, mas que, paradoxalmente, é bem sucedido ao fazer arte de qualidade sobre essa terra.

Serviço e ficha técnica

O filme, produzido pela Flô Projetos, já foi exibido na 21ª Mostra de Tiradentes onde foi bastante elogiado pela crítica e no Cine PE onde recebeu os prêmios de melhor direção de arte e melhor atriz coadjuvante (Carla Ribas). A estreia comercial está prevista 30 de maio 2019 pela Olhar Distribuição.

Roteiro e Direção: Robney Bruno Almeida; Produtora: Flô Projetos; Produção Executiva: Adriana Rodrigues; Direção de Fotografia: Maurício Baggio; Direção de Arte: Letycia Rossi; Elenco: Carla Ribas, Nayara Tavares, Natália Dantas, Arthur Ávila, Vinícius Queiroz.  

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