Filme de Spike Lee é libelo adulto e Green Book é retrato edulcorado sobre racismo

“Infiltrado na Klan” conta uma história real de maneira crua e direta. O filme de Peter Farrelly suaviza os conflitos raciais

Ricardo Silva

Especial para o Jornal Opção

Quando um longa vem com a marcação “baseado em fatos reais”, é quase automático que a informação reformule a posição do espectador em relação a obra que tem diante de si.

Dois títulos, premiados na última edição do Oscar, estão inseridos na categoria de filmes que baseiam-se em histórias reais: “Green Book — O Guia” (2018), dirigido por Peter Farrelly, e “Infiltrado na Klan” (2018), de Spike Lee, um dos maiores cineastas afro-americanos de todos os tempos.

Cena dos policiais que se infiltraram, direta e indiretamente, na temível Ku Klux Klan | Foto: Divulgação

Ambos tratam de uma temática antiga e inoportunamente contemporânea, a partir de posições temporais muito próximas. Enquanto “Green Book” se localiza no Estados Unidos da década de 60 — ainda sob o regime da segregação racial —, “Infiltrado na Klan” está fincado na década posterior, os anos 70. Nessa época, mesmo sem o explícito aparato legal engendrando comportamentos racistas, o racismo é um sentimento presente (situação permanente no país norte-americano).

À primeira vista, o espectador desavisado pode considerar que os dois filmes tratam da mesma temática, abordando os processos históricos do racismo nos Estados Unidos. Ledo e engano. São duas obras cabalmente distintas e sintomáticas do próprio tema que abordam. Não são dois filmes sobre racismo.

O primeiro traça uma reflexão sobre as linhas históricas que se entrelaçam, indica ligações e semelhanças, apontando o processo cíclico da manifestação do racismo e de como essa manifestação está presente em políticos como Donald Trump e seus asseclas, e perpassa toda a mentalidade de uma expressiva parte da população norte-americana, caricaturando o ridículo senso de superioridade do branco estadunidense.

Enquanto isso, o outro longa demonstra uma abordagem enviesada sobre o racismo, num tom conciliatório, que revela uma desconexão gritante com a realidade do afro-americano num dos períodos históricos mais conturbados para essa parte da população dos Estados Unidos, onde imperaram a separação racial estimulada por leis segregacionistas.

Você sabe qual filme ganhou o prêmio da categoria mais importante do Oscar desse ano.

Spike Lee fez um filme crítico ao racismo e esteticamente refinado | Foto: Divulgação

Obra pobre com uma mensagem vazia

“Green Book — O Guia” é a clássica história da percepção do Outro e do encontro consigo mesmo. O enredo retrata a relação do pianista Don Shirley (Mahershala Ali) e seu motorista Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) por uma turnê no Sul dos Estados Unidos durante os anos de segregação. Os Estados do Sul estadunidense são notórios por seu racismo exacerbado e explícito.

Tony, que recebe uma interpretação de primeiro calibre de Viggo Mortensen — que inflou quase 20kg para o papel — é um ítalo-americano racista de carteirinha e um sujeito apto a buscar confusões e resolvê-las na base do punho cerrado. Don Shirley é um fino pianista negro, que compõe um trio de jazz famoso no país do Tio Sam.

O longa vai explorar como dois personagens improváveis constituirão uma amizade em que o brutamontes italiano e racista conhecerá as vicissitudes que um negro pode enfrentar nos Estados do Sul, e o negro de classe e talentoso conseguirá ver ternura e afeto no seu motorista troglodita, pulverizando, dessa forma, sua redoma de proteção, se permitindo a encarar a vida de forma menos sisuda e auto-protetora.

A abordagem que Peter Farrelly faz é pobre desde o seu começo. O longa recebeu diversas críticas por sua imprecisão histórica a despeito dos eventos que se desenrolam na tela. O retrato de Farrelly é vazio, e a sua estrutura busca amenizar a imagem tão desgastada de sujeitos racistas ou de representantes de instituições que têm posturas segregacionistas — como é o caso das polícias dos Estados norte-americanos.

O filme relata a história do notável pianista Don Shirley e de Tony Vallelonga | Foto: Divulgação

Esta fábula na qual o sujeito branco notoriamente racista e preconceituoso se redime por compartilhar da amizade de um sujeito negro tem um longo histórico no cinema hollywoodiano — um dos clássicos com a mesma abordagem é o intragável “Conduzindo Miss Daisy”, que, guardadas as devidas particularidades, é um espelho narrativo de “Green Book”.

Filmes como esse são responsáveis por retirar o aspecto político e institucional do racismo, conferindo à sua manifestação apenas em decorrência da posição tosca de sujeitos rasos como Tony Vallelonga. Toda condução de Farrelly do longa é duvidosa.

O roteiro, escrito por Peter Farrelly, Nick Vallelonga (filho de Tony na vida real) e Brian Currie, é mentiroso até mesmo na caracterização de Don Shirley ao torná-lo alheio às suas raízes africanas — acusação feita pelo próprio irmão mais novo do personagem interpretado por Mahershala Ali. Outra crítica que recai sobre o filme é da amizade entre Don e Tony — os familiares do músico dizem que ela nunca existiu.

“Green Book — O Guia” soa como aproveitador, manipulador e suas platitudes pacificadoras sobre a convivência harmoniosa entre comunidades tão distantes entre si faz com que o espectador minimamente politizado sinta um pouco de náuseas ao final do longa. O filme deveria ter passado despercebido e não deveria ter recebido um terço da notoriedade que recebeu. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

A força narrativa e simbólica de Spike Lee      

Quando “Green Book — O Guia” foi anunciado como o vencedor da categoria de melhor filme do Oscar deste ano, Spike Lee virou suas costas para o palco da premiação no momento em que subia a equipe do filme de Farrelly para receber o prêmio. Nada mais simbólico do que isso.

Completa antítese do trabalho de Peter Farrelly, “Infiltrado na Klan” é baseado no livro homônimo que traz o relato do policial Ron Stallworth (John David Washington) que se torna o primeiro negro a ser um infiltrado na Ku Klux Klan, uma entidade de supremacistas brancos que remonta do final do século 19 e estava em voga nos anos 70 como organização que faria frente aos avanços dos direitos políticos, humanos e sociais de diversas minorias, capitaneadas pelo movimento negro norte-americano.

Mahershala Ali e Viggo Mortensen protagonizam o filme “Green Book — O Guia” | Foto: Divulgação

Por motivos óbvios, Ron não pode participar das sessões da organização (como o movimento racista é nomeado por seus participantes). Para isso conta com o auxílio do seu colega Flip Zimmerman (Adam Driver) e ambos chegam aos mais altos escalões dentro da organização. A partir daí se estrutura um dos melhores filmes da obra de Spike Lee.

O enredo da trama de Spike Lee é profundamente político. Diferentemente do tom pacificador de “Green Book”, o longa de Spike Lee opta pelo recurso da ironia e da ridicularização do lado branco da narrativa. O diretor faz isso com um texto inteligente e bem-humorado, com um roteiro equilibrado que vai dosando a ironia sem tirar dela seu tom de protesto.

Um dos pontos fortes do longa de Spike Lee é a sua capacidade de diálogo com os dias contemporâneos a partir de um episódio dos anos 70. Essa ponte é criada em diversos momentos, como naquele em que os integrantes da organização dizem que o Holocausto é uma farsa e que a grande mídia camufla as verdades para massa, o que funciona como uma abordagem inteligente para refletir sobre as notícias falsas — as fake news — que proliferam em movimentos como esse e que é a partir da desinformação que o preconceito se alimenta, se dissemina, e toma as proporções que se vê hoje em dia em organizações radicais de extrema direita.

Um outro contraponto valioso que existe entre a perspectiva adotada por Farrelly e Lee é o uso do personagem branco que chega na percepção de um universo de problemáticas que antes ele não percebia. Enquanto em “Green Book” o protagonista branco é o sujeito responsável pela redenção do coadjuvante negro, em “Infiltrado na Klan” o companheiro de Ron, Flip, ao passar a frequentar as reuniões da organização racista, passa a olhar para si e sua história e entender-se como judeu, a compreender os meandros do engendramento do preconceito e sua jornada se amplia, permitindo uma evolução ética e moral ao longo do filme.

Neste percurso, Flip e Ron então ao grão-mestre da KKK, David Duke (Topher Grace), caracterizado não como um demônio, é apresentando como um sujeito simpático que é capaz de manipular as pessoas com desinformação e medo. Os textos das falas de Duke são facilmente reconhecíveis e Spike Lee não camufla a intenção: a associação entre David Duke e Donald Trump é nítida a tal ponto que o primeiro aparece, já em imagens atuais, fazendo defesa do segundo em sua campanha presidencial.

O trabalho de Spike Lee é colossal por seu teor político, e também por sua capacidade técnica de explorar a estética do movimento Black Power, e o filme é bonito, bem confeccionado com sua pegada no estilo setentista afro-americano e também pela homenagem que Lee faz aos filmes do movimento cinematográfico negro Blacksploitation.

Viggo Mortensen, Peter Farrelly e Mahershala Ali: no centro o diretor de “Green Book” | Foto: Divulgação

A sobreposição que o cineasta faz dos acontecimentos retratados no longa e os acontecimentos mais recentes — como os conflitos de Charlottesville em 2017 — traz esse tom provocativo ao trabalho de Lee e gera um incômodo e suscita a reflexão no público, tirando-o do seu conforto recreativo. É um soco bem colocado na boca do estômago, algo que apenas bons filmes conseguem fazer.

Duas perspectivas opostas

Dois caminhos próximos mas que desembocam em destinos completamente diferentes. Duas obras que buscam abordar um tema semelhante, mas que apresentam resultados totalmente discrepantes um em relação ao outro.

Dois filmes, duas aproximações. Uma carece de bom senso, e o seu discurso se calca naquela ingenuidade enganosa de quem fala de uma realidade que conhece apenas por abstração. A outra é feita por quem passa por dentro pelo processo que retrata, e é forjado nas vivências como indivíduo que faz parte de um grupo social sistematicamente marginalizado. É contra esse sistema que ele se levanta e sobre o qual faz críticas duras, enquanto o outro tenta mostrar quem “não é bem assim”, de que existe até policial bonzinho que te ajuda a trocar o pneu na estrada.

Um diretor é branco e o outro, negro. Um choque de perspectivas e lugares de fala que revelam a escolha da Academia que dá o prêmio máximo da sua maior premiação a um arremedo malfeito de crítica social, enquanto dá um prêmio de consolo para a verdadeira obra-prima que concorria ali, indicando que sua visão sobre a questão racial ainda é majoritariamente dominada por uma mentalidade branca que não se considera racista, mas foge de obras que mexam no status quo.

Ricardo Silva, crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

Confira o pianista Don Shirley em ação

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Gianluca Ricciotti

Perfeita análise