Fé na palavra guia o poeta Gilberto Mendonça Teles pelos labirintos dos sentidos

O sentimento brota no terreno arado do seu espírito irrequieto e materializa-se pela pronúncia da palavra

Edival Lourenço

Aos 90 anos, Gilberto Mendonça, poeta e crítico, é dono de uma obra consistente. Agradeço a oportunidade de estar vivo e ser contemporâneo de GMT.

A vida de fato é surpreendente. Quem diria que um menino nascido de família simples, em Bela Vista, no interior de Goiás, viesse a se tornar um gigante da Literatura, tanto do ponto de vista da crítica literária quanto da fatura poética. A vida tem muitos caminhos e nem sempre é possível escolher aquele que leve a bom termo. Que leve longe e bem ao alto, principalmente quando se trata de um objetivo temerário e fugaz, como a poesia.

Se não foi pelo raciocínio lógico da inteligência, foi pela intuição aguçada que Gilberto Mendonça Teles chegou ao ponto mais alto dessa escalada. Sua intuição, desde o início, ter fé no verbo. O mesmo verbo bíblico e primordial do Fiat Lux em que a luz e todas as coisas, visíveis e não visíveis, possíveis e não possíveis, fazem-se a partir de um comando verbal.

A fé na palavra foi o cordel, o fio condutor que, desde o início, guiou o poeta pelos labirintos dos sentidos, desviou-o das estradas que não levam a lugar algum. A luz primitiva da fé, da fé na palavra, que possibilitou a Gilberto Mendonça Teles, manejando sua pena de verbo afiado, como um cinzel na mão de um gênio, construir um mundo de significantes e significados.

Em sua dicção, cada letra, cada palavra, cada retalho de frase ou mesmo a frase completa são objetos plásticos na montagem da grande estrutura chamada poema. O sentimento, a lírica que permeia todo esse acervo plástico, o menino Gilberto, circunspecto e pensativo, trouxe de sua infância, em Bela Vista de Goiás, a antiga Sussuapara com seus buritis sussurrantes.

O crítico e poeta Gilberto Mendonça Teles, muito cedo, adentrou o caos da poesia, foi até o poema inicial, o Fiat Lux de toda poética, e procurou dar uma ordem pessoal ao caos, ao caudal da poética. Estudou os antigos e os imemoriais, e, aos poucos, deu um sentido geral a toda herança poética, tomando a pronúncia como a pedra de toque da poesia, desde sempre. Em seu livro, “No Escuro da Pronúncia”, de 2009, publicado pelo Instituto Casa Brasil de Cultura, Gilberto expõe esse entendimento. Se não explicitamente, pelo menos, nas entrelinhas: o sentimento brota no terreno arado do seu espírito irrequieto e materializa-se pela pronúncia da palavra, quando é dito o nome de cada coisa.

Gilberto Mendonça Teles: poeta e crítico literário | Foto: Reprodução

E, dizendo o nome dos objetos e sentimentos possíveis e impossíveis, o poeta erigiu, em seus 90 anos, um monumento lírico, um orgulho da raça, uma afirmação da espécie: somos todos descendentes de uma estirpe de seres poéticos.

Na condição de crítico e poeta e, especialmente, de palestrante, Gilberto Mendonça Teles alargou os horizontes da poética, em língua portuguesa, sobretudo, a poesia feita no Brasil e, mais especificamente, em Goiás. Exímio palestrante, tem levado sua mensagem, com as novidades que lhe são próprias, a universidades e instituições culturais em boa parte do mundo: Argentina, Uruguai, Portugal, Espanha, Dinamarca, França, Estados Unidos, dentre outros.

Quando presidi a União Brasileira de Escritores-Seção de Goiás, tive a hora de criar uma estante do Escritor GMT, na biblioteca da entidade, com sua obra integral, crítica e poética, do primeiro ao último livro. Uma estante cujos livros não podem ser retirados. E consulta, só sob acompanhamento. É um tesouro para o presente e à posteridade.

GMT ocupa a cadeira número 11 da Academia Goiana de Letras, desde 11 de março de 1962, ou seja, é nosso decano, acompanhado de perto, diferença de cinco meses, pelo também valoroso escritor Bariani Ortencio (28/8/1962).

Ser contemporâneo e confrade de uma personalidade como GMT é informação para constar na biografia. Nós, membros da AGL, nos orgulhamos desse privilégio. E o que mais nos orgulha é poder estar com o mestre, sorvendo, não apenas dos livros, mas da fonte primaríssima, que é a sua própria pessoa.

Uma figura ímpar, GMT. Consegue ser dionisíaco e apolíneo. Consegue, ao mesmo tempo, embriagar-se com as ideias, animar-se com festas e pescarias, qual Dionísio. Por outro lado, consegue ser circunspecto, estudioso e produtivo, qual Apolo. Uma combinação perfeita para que se tornasse um intelectual de tal envergadura.

Há tantos poemas dele, de que gosto, que foi difícil escolher um para ler nesta ocasião. Pela temática e abordagem, escolhi o poema

Goiás

Só te vejo, Goiás, quando me afasto

e, nas pontas dos pés, meio de banda,

jogo o perfil do tempo sobre o rasto

desse quarto-minguante na varanda.

 

De perto, não vejo nem sou visto.

O amor tem desses casos de cegueira:

quanto mais perto mais se torna misto,

ouro e pó de caruncho da madeira.

 

De perto as coisas vivem pelo ofício

do cotidiano – existem de passagem,

são formas de rotina, desperdício,

cintilações por fora da linguagem.

 

De longe, não, nem tudo está perdido.

Há contornos e sombras pelo teto.

E cada coisa encontra o seu sentido

na colcha de retalhos do alfabeto.

 

E, quanto mais te busco e mais me esforço,

de longe é que te vejo, em filigrana,

no clichê de um livro ou no remorso

de uma extinta pureza drummondiana.

 

Só te vejo, Goiás, quando carrego

as tintas no teu mapa e, como um Jó,

um tanto encabulado e meio cego,

vou te jogando em verso, em nome, em GO.

Edival Lourenço é romancista, contista, poeta, cronista e membro da Academia Goiana de Letras.

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