Fatos e ficções na concepção de Naqueles Morros Depois da Chuva

O escritor relata como concebeu e como escreveu o romance que ganhou o Prêmio Jabuti

Edival Lourenço

Para compor o romance “Naqueles Morros Depois da Chuva”, o autor, na tentativa de reunir informações e vencer os bloqueios criativos, inventou um autor fictício, numa espécie de truque psicológico, onde ficção e realidade se fundem inextrincavelmente. Depois do suposto encontro de seus manuscritos em Portugal, a autor pôde desbloquear-se e escrever o romance, como se estivesse na pele do próprio autor inventado. São os caprichos e os métodos inesperados de criação de cada autor.

O texto de “Naqueles Morros Depois da Chuva” emerge de circunstâncias bastante inusitadas. Para dizer o mínimo.

Havia para mais de sete anos que a ideia me perseguia em tempo integral com sintomas de obsessão: escrever um romance, tendo como pano de fundo, os últimos anos em que a região que hoje constitui o Estado de Goiás foi parte da Capitania de São Paulo. Em plena convulsão do ouro.

Durante esse tempo, na verdade, não rascunhei uma linha que fosse. Porém, com ardor de garimpeiro, me precipitei atrás de informações e mais informações, em diversificadas fontes. Me esfolei por sítios da fúria mineratória, remotos e monumentais, cujas cicatrizes nem os séculos de abandono e a erosão contínua foram capazes de apagar. Ouvi com interesse de enamorado os casos orais remanescentes. No mais das vezes já rarefeitos. No entanto, recebendo mantos de lenda. Me afundei no bolor de objetos, documentos e livros que guardam aquele tempo febril de nossa História Colonial. Lembrando que as extrações de ouro no Brasil, no século XVIII, dobraram as reservas mundiais, que já haviam sido multiplicadas por cinco, nos séculos XVI e XVII, pelas descobertas espanholas na América Central. Com este monumental volume, Goiás contribui com a segunda maior cota, depois de Minas Gerais e antes de Mato Grosso.

Mesmo já dispondo de bons arquivos e de uma extensa bibliografia de obras relevantes, não me dei por satisfeito com os fatos históricos de Goiás. Me enveredei pela exploração do minério em outras regiões do Brasil, como São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso. Procurei captar, além dos fatos, a atmosfera reinante na época, que era de uma alteridade brutal. De oportunidades tão gigantescas quanto ameaçadoras. De um heroísmo ferrenho e um código de honra sombrio. De magia obstinada e superstições desabridas, com as pessoas vivendo sob o domínio de um cristianismo tropical, beirando ao pagão. Bem no nascedouro da religiosidade mágica, popular e eclética que haveria de marcar para sempre o jeito peculiar de ser da sociedade brasileira. Sem contar o reinante salve-se-quem-puder da desobediência civil, ensejada pelas distâncias quase intransponíveis entre governantes e governados. Tudo isso muito bem temperado pela excitação frenética ante a possibilidade irresistível de se enriquecer de uma hora para outra, e o assombro de se perder a vida no minuto seguinte, bem no limiar da loucura.

O assunto me pegou de jeito e arrastou com afinco de deslizamento de terras para o meandro de obras mais amplas que narram o fascínio do ouro em várias épocas e em diferentes lugares. É irônico como desde sempre, uma vez existindo ouro, o homem, ao invés de possuí-lo, acaba sendo por ele possuído. E sua posse está longe de ser mansa e pacífica. Até mesmo o simples boato de sua existência tem o condão mágico de anular serenidades, de acender ambições desmedidas, transformando grupos de pacatos aldeões em hordas turbulentas de exploradores bárbaros. Por mais anacrônico que pudesse parecer, eu também estava sendo possuído e, por que não admitir, ficando desembestado. Não pelo ouro em si, mas pelas suas peripécias. Fascinado pela euforia que ele acarreta. Digamos que por alguma forma de efeito colateral. Embora um tanto intempestivo.

Na sede insaciável por informações, fui além. Mergulhei de ponta-cabeça nas brumas dos tempos lendários, quando Moisés desceu exausto, porém efusivo, do Monte Sinai com os Dez Mandamentos esculpidos em suas tábuas sagradas ainda e fumegantes pelo buril de fogo do Senhor. Além da carga da idade, da descida alcantilada e do sobrepeso aflitivo daquelas pranchas de pedra sobre os ombros, ele teve que tolerar ultrajante decepção, ao ser surpreendido por encontrar sua gente entregue ao exercício da idolatria desbragada, adorando com fervor transcendente um bezerro de ouro. A fascinação dos hebreus por aquele objeto de luz mineral era avassaladora a ponto de ninguém ter olhos para as tábuas do velho patriarca, nem ouvidos para as mensagens que elas continham.

Andei pela fartura mineral do mitológico rio Pactolo, da Frígia (reino que ocupou na antiguidade uma vasta região em que hoje está situada a Turquia), berço da lenda de Midas. Aquele suserano atribulado, o qual em tudo que tocava se convertia em ouro. Inclusive os alimentos e a própria filha.

Rainha Belkis-Sabá

Vi, com curiosidade renovada, o desenrolar da épica expedição da Rainha Belkis, de Sabá (antigo reino ao sul da península arábica, onde hoje se localiza o Iêmen). Ela confiscou parte considerável do ouro existente em seu próspero país. Instituiu e liderou uma caravana incerta e temerária. Empreendeu uma viagem dramática de milhares de quilômetros pelos mais inóspitos desertos, de sóis abrasivos e luas glaciais.  Alimentou-se de água salobra de oásis escassos, de pão ázimo crestado em areia quente, tâmaras picantes colhidas ao acaso, queijo do leite das camelas do próprio comboio e carne chamuscada de raposas perseguidas por artifícios de falcoaria. Esmerilou-se ora a pé, ora em lombo de dromedários, para, com altivez amável, presentear sua carregação de ouro ao Rei Salomão, de Israel, numa cerimônia fervorosa de magia e mimos de sedução carnal. Com esse esforço extraordinário, inseriu preciosos versículos numa das mídias mais tenazes de que se tem conhecimento: as sagradas escrituras. E conquistou assim a celebridade perpétua. Esta terá sido, sem dúvida, uma das maiores concentrações de esforços da diplomacia de todos os tempos e lugares. E não é nenhum despautério aventar que parte daquele ouro presenteado pela lúbrica rainha ao rei garanhão tenha chegado até nossos dias e sido usado, ainda que sem saber, no amálgama dos anéis de noivado dos príncipes de Gales, Charles e Diana. Tamanha é a pertinácia do precioso metal.

Me esgueirei pela epopeia do ouro da América Espanhola, cujo ponto culminante seja talvez aquele em que o explorador Francisco Pizarro extorque o tesouro dos Incas com ardil e truculência devastadora. Assassina o rei Atahualpa com requintes de crueldade e covardia de escorpião. Isto depois de o soberano já ter se rendido, pedido clemência e entregado o ouro.

Segui caminho pela endiabrada corrida do ouro da Austrália, da África, da Sibéria e da Califórnia, nos Estados Unidos da América do Norte, onde seu ciclo econômico passou, mas deixou enraizada na população do lugar sua ambição descomunal.

Por fim, pelo alegórico garimpo de Serra Pelada, no estado do Pará — Brasil, com suas assombrosas filas de homens-saúva se consumindo na lama. Ou num resignado retorno em vida, à sua condição ancestral – ou final – de pó da terra.

Não pude evitar que tudo fosse sendo coado com rigor pelas peneiras finas das memórias de infância, que no fundo estão trançadas antes pelas magias de realidade suposta que por fios de vivência efetiva. Pois tendo vivido dos seis aos 10 anos na tensa região garimpeira de rio Claro, no Centro-Oeste do estado de Goiás, – o mesmo diamantífero, proibido e enganoso rio do conturbado período colonial, era impossível não usar tais lembranças como ferramenta referencial para filtrar e como paradigma para traduzir as informações levantadas.

José Mendonça Teles, escritor e pesquisador | Foto: Reprodução

Com ímpeto de escafandrista, vasculhei museus diversos e os arquivos históricos existentes em Goiás. Inclusive o da Sociedade Goiana de Cultura, que não faz muito tempo pôs à disposição do público farta documentação daquele período, conseguida junto aos arquivos portugueses, pelo presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, o emérito professor José Mendonça Teles e sua equipe. Apesar do acesso a esses documentos, eu estava ansioso além da conta e só me servia rumar para Portugal, focado no tema.

Segundo o professor Mendonça Teles, minha viagem exploratória resultaria inócua. Não haveria de me deparar com nenhuma informação nova, com nenhum documento importante, além daqueles que ele próprio já conseguira trazer. Apesar de não ter argumentos racionais para contrapor, um imperativo interior me empurrava, sem direito a apelação, para o local de onde partira, em 22 de outubro de 1738, para ser Capitão-general de São Paulo e minas de sua repartição o fidalgo Dom Luís de Assis Mascarenhas, mais tarde Conde Dalva e Vice-rei das Índias. Veio anexo à recomendações do rei Dom João V, dito o Magnânimo (que recebeu esse epíteto pelo talento com que dissipava dinheiro), para fomentar a extração de ouro e, sobretudo, as maquias que sobre ele se cobram. Ao mesmo tempo, preparar as Minas dos Goyazes para se separarem de São Paulo, tornando-se capitania distinta.

Para levar avante tarefas de tão alta monta, o diligente fidalgo, que exerceu o cargo com vigor por nove anos e meio, administrou a capitania de São Paulo a partir de Vila-Boa de Goiás por um período contínuo de três anos, quatro meses e 10 dias. Inverteu sem cerimônia a condição hierárquica entre um sítio mineral e a sede da capitania. A distância era desanimadora: nada menos que 200 léguas se fosse por trilhas linheiras. Mas devia alcançar facilmente umas 300, a considerar seus caracóis sem fim, quando não os prolongamentos por descaminhos, plantados por fortuitos dilemas.  Para cobrir o trecho era preciso uma centena de dias, no mínimo, de solavancos em lombo de mulas. Isso na ocasião das secas, que no período das águas era pouco provável que se conseguisse cobrir esse itinerário, tal a voracidade dos rios e dos temporais. Sem contar os riscos, em qualquer tempo, de doenças e os ataques fulminantes de índios e feras diversas. Só mesmo a cupidez do Império Colonial Português pelo ouro poderia organizar um séquito de notáveis e letrados lusitanos para atrever-se por um sertão de insalubridades tão hostis, como eram essas conquistas da região Brasil-Central naquelas arcaicas eras.

Perfazendo o caminho inverso ao do antigo Capitão-general, no dia 10 de julho de 2002, 263 anos, oito meses e 13 dias depois, junto com minha mulher, Tânia Eloísa, desembarquei em Lisboa, possuído por uma excitação dos diabos e uma esperança febril de que algum fato auspicioso estaria às vésperas de me acontecer. Feito um cão passarinheiro, minha intuição farejava um tesouro magnífico. Ainda que um tanto difuso. Sem ao menos vislumbrar que seria de ouro ou de restolhos. Minha certeza talvez se fundasse nos princípios do dito popular que afirma que “quem caça acha, ou pelo menos acha que acha”.

(Uma curiosidade comparativa: A viagem do antigo Capitão-general até as minas dos Goyazes foi bastante rápida para os padrões daquela época: 203 dias, ou 4.872 horas, já descontado o tempo em que ele se deteve em São Paulo. Usando os meios de transportes atuais postos à disposição do cidadão comum, gastei apenas 12 horas, também descontadas as que passei no aeroporto em São Paulo. Minha viagem alcançou, portanto, a estonteante proporção de 406 vezes mais rápida. Podemos afirmar que a velocidade dos transportes aumentou cerca de uma vez e meia, em média, a cada ano ao longo deste período. Para garantir semelhante progresso num tempo futuro equivalente a esses 263 anos teremos que fazer o mesmo percurso no exíguo tempo de um minuto e meio. Algo que beira o instantâneo. Lembrando que com o ritmo cada vez mais veloz do processo de aceleração da História, essas coisas poderão estar acontecendo em 20, 30 anos. Digressões à parte, a inquietação escorraçou meu sono, com a convicção de exorcista, para distâncias inalcançáveis. Passei a noite inteira em claro, rolando na cama, feito um condenado a pena capital. Um turbilhão de ideias desconexas triturando meus miolos. Pensei que estava maluco. Mas acudi que quem está deveras maluco não tem consciência de sua maluquice. Como um náufrago, me agarrei a este silogismo singelo. Dele fiz minha última tábua de salvação. Me induzi a crer que ainda me restava pelo menos um fiapo, uma réstia de lucidez. Por mínima que fosse. Que aquilo tudo seria só um fuá de ideias, um redemoinho de neurônios. E como tal haveria de logo-logo desaparecer. A estratégia me deu alento para amanhecer o dia sem estar correndo atrás de sombra de avião.

Na manhã do dia 11, dia seguinte, portanto, começamos um giro burocrático pela cidade. Partimos do centro de Lisboa, com a guia nos mostrando variados monumentos e sítios históricos com seus fatos pitorescos. Quase sempre banais. Vistos à distância, de dentro do ônibus. Primeira parada prevista na Praça do Império. Junto ao Padrão dos Descobrimentos e à Torre de Belém, na beira direita do Rio Tejo, já no estuário. Dali, nos tempos áureos, zarparam as caravelas dos navegadores que, com seus descobrimentos, haveriam de sepultar a ideia, em voga desde a Antiguidade, de que a Terra era plana, redesenhar a face do planeta com novas perspectivas e descerrar as cortinas para uma nova era. Ali se visita ainda o Mosteiro dos Jerônimos, com rica arquitetura manuelina e onde estão os mausoléus de Camões e Vasco da Gama, vários museus, monumentos, centros culturais e ainda onde se come o afamado past’lim de B’lém.

A guia era uma senhora elétrica de meia idade, esguia, altura acima da média, de escassas carnes, cabelos mal pintados de gambá, um rosto longo de eqüino, pele branca estragada de sol, vasta cultura geral, humor ferino, raciocínio ágil e bastante perceptiva, além de possuidora de uma certa malícia no olhar de gavião penacho por trás dos óculos de lentes diáfanas. Havia captado no ar a minha ansiedade. Embora não precisasse ser assim tão perceptiva. Bastava ler no meu rosto a expressão atarantada de curioso mórbido. De qualquer forma era muito prestativa e simpática. Ao descermos do ônibus na praça, outro guia se encarregou de entreter o grupo. Ela se dirigiu a mim cheia de gentilezas, se pondo a meu dispor.

Com ânsia de mascate que vem de longe e está sem dinheiro pro almoço, abri logo as malas e esparramei minhas coisas.  Fui logo lhe falando do meu tão acalentado projeto literário. Enquanto meu assunto prosseguia, até de forma atabalhoada, seu rosto foi se transformando por sorrisos marotos e esgares de enigmas, de quem estivesse diante de um louco desenganado. Ou então porque guardasse algo bombástico para me revelar no final.

Ela suspirou fundo, com entrecortes na respiração. Seu olhar perdeu a incisão costumeira. Passou por mim, pelos jardins, pelos monumentos, pelo Tejo. Vagueou diluído pelos horizontes da Outra Banda, controlando a própria ansiedade. Ou, quem sabe, tentando transferir um pouco para mim, que só não captei porque meu compartimento de ânsias já estava pela hora de transbordar.

Me revelou, não sem orgulho profissional, que era uma estudiosa versátil. Além de pesquisadora da História Portuguesa, era arqueóloga de larga experiência. Me confidenciou em tom caçoísta que fazia bicos como cicerone apenas para não perder para sempre o contato e a afinidade por gente viva. Me contou, portanto, ter chefiado durante alguns anos e até bem recente, uma equipe exemplar de pesquisadores. Buscava, por meio de escavações em ruínas, materiais históricos que pudessem ter desaparecido durante o grande terremoto seguido de ondas gigantes de primeiro de novembro de 1755, que devastou, com fúria de ira divina, Lisboa e o Sul de Portugal, como nenhum outro em tempo algum, e cujos tremores resvalaram até na longínqua Itália.

Nessas pesquisas, ela me conta, no meio de tantos objetos encontrados, a maioria já em estado de pedra ou de putrefação, foi surpreendida por uma caixa de madeira rústica que a lama de sal e cinzas, ao invés de estragar, conservou. Dentro, envolvido por uma lâmina de látex de mangaba, estava um cartapácio manuscrito, em razoável estado de preservação. Por coincidência, apesar da dificuldade da leitura, ela julgava ser um relato, no entanto já romanceado, daquele momento histórico que eu queria utilizar em minhas incursões literárias.

– Chegaste atrasado, meu rapaz. Alguém já escreveu o teu romance, – brincou.

Tinha ela uma teoria que me pareceu bastante lógica e convincente sobre a origem do tal manuscrito:

– Ocorre que por ocasião do fatídico terremoto de Todos os Santos, o bandeirante e linhagista brasileiro, Pedro Taques de Almeida Paes Leme, estava em Lisboa a procurar uma prensa que publicasse sua monumental Nobiliarquia Paulistana. Os originais dessa obra desapareceram sem deixar pistas no meio do grande terremoto. Só ao retornar ao Brasil pôde reconstituir parte dela, – apenas parte –, alguns anos mais tarde, – explicou ela em tom pesaroso.

Sem dúvida, – ela supunha – por amizade ou simples ligações de parentesco ao escriba, ou sabe-se lá por qual razão, o linhagista estaria levando também aqueles notáveis escritos para oferecer a alguma oficina tipográfica lisboeta, inclusive à régia oficina, e que teriam sido do mesmo modo tragados pelo terremoto.

–Esse autor, por razões que se desconhece, não teria jamais reconstituído suas narrativas e morreu no anonimato, em orfandade da própria obra, – comentou ela mais pesarosa ainda.

Eu quis saber, dentre outras coisas, como aquele material, de tamanha relevância histórico-literária, tanto para o Brasil quanto para Portugal, se não para toda a humanidade, continuava nas mãos dela e não com a corporação que a tinha remunerado pelas pesquisas. Porque o material não tinha sido repassado para um centro de estudos ou algum museu de destaque, que deveria expô-lo com resguardos de vigia armada e redoma de cristal.

Essa era, na verdade, a questão que tanto a atormentava.

– Acontece – ela se justificou – que eu me apeguei de tal forma ao material que no primeiro momento não o repassei a meus superiores. E foi a ficar, a ficar até que, pela simples razão de ter ficado comigo tanto tempo, eu já não me sentia à vontade para entregá-lo. Temia que ao fazê-lo, tanto tempo depois, já não estaria a cumprir um dever, mas o que seria terrível, a confessar um crime. Sem os benefícios do álibi ou da legítima defesa. Nem mesmo de uma defesa razoável. Foi por receio, meu rapaz. Por puro receio mesmo. Posso te assegurar. Agora que estou a ficar velha, a sentir a morte na espreita… A pensar bem, nem quero estar viva quando ela chegar de vez.

Não entendi muito bem o raciocínio, mas não fazia mal. Talvez porque minhas idéias estavam turvadas demais pela ansiedade.

Indaguei se era possível ter acesso àquele surpreendente material, manusear, tomar emprestado, tirar cópia, escanear, microfilmar, essas coisas. Nem sei o que me aconteceria se acaso ela me respondesse com negativas intransponíveis ou que viesse a me pedir uma soma em dinheiro acima de minhas possibilidades. Nessas alturas meus intestinos já se achavam revoltos. Além de que me faltava ar e chão. À beira, não de um simples ataque de nervos, mas de um colapso nervoso fatal. Qual não foi minha surpresa, no entanto:

–O estrupício é teu! – me disse de chofre.

Na verdade, ela só queria se livrar dele o quanto antes, sem, contudo, lançá-lo outra vez às cinzas do olvido. Pretendia apenas repassá-lo para quem dele fizesse bom proveito e que não fosse comprometê-la de nenhuma forma. Disse sem rodeios que me daria o manuscrito na íntegra e no original mesmo, no estado em que se encontrava. Desde que me dispusesse a cumprir por ela um sacrifício, sob condições prévias. A maioria de natureza mística e algumas acautelatórias. Eu deveria ir à igreja de Fátima, e sem falar com ninguém, acender uma vela benta de peregrino na esplanada. Subir as escadarias de joelhos, e de joelhos ainda percorrer toda a nave e chegar até no altar-mor, agradecendo pelo tesouro e rogando à Virgem Maria de Fátima que intercedesse junto a Deus para que a remisse dos pecados, que por acaso cometera.

– Caso a Virgem tenha e queira te revelar o Quarto Segredo de Fátima, por favor, não me contes, – me pediu com feições graves, mas pensei que caçoava, – pois enquanto vida tiver, não quero sentir inveja dos mortos.

Que eu fosse, ao final – não valia mandar mensageiro – buscar o manuscrito na casa dela, mostrando as fotos me penitenciando nas escadarias, no corredor, diante do altar, aos pés da Santa, acendendo a vela na esplanada. E, o que era mais importante, jamais poderia revelar sua identidade.

– Nem que sob tortura de afogamento, – me preveniu.

Aceitei suas condições sem pestanejar. Minha mulher me olhou na transversal. Deu claros sinais de aborrecimento por minha ingenuidade diante de tanta conversa mole. Achava ela que aquela história recendia a picaretagem e que a suposta arqueóloga queria apenas escarnecer. Mas por fim, ainda que um tanto contrafeita, ante a minha teimosia de mula, aceitou me acompanhar na via sacra para realização das tarefas. No início, com uma gentileza raivosa. Depois, com um certo humor perverso. Mesmo assim chegou a fazer as fotos do que ela dizia ser “o maior mico que jamais paguei em minha vida”. Ainda teve o desprendimento, quando relaxou um pouco mais, de andar a meu lado e segurar minha mão de vez em quando, para me ajudar a manter o prumo, enquanto eu, suportando as dores de penitente arrebatado, me arrastava de joelhos em louvor à Santa.

Tendo minha mulher por coadjuvante, cumpri com desembaraçado recato o roteiro completo da maratona. Ali pelas dez da noite, ainda no lusco-fusco do anoitecer, com os joelhos em petição de miséria e mancando das duas, bati à porta da casa da arqueóloga. Meus nervos estavam à flor da pele, as mãos em fria umidade e o coração cavoucando a garganta.

Iríamos encontrá-la sozinha numa perturbação de bicho acuado. Tão diferente daquela com quem conversamos lá na praça, às margens do rio Tejo, que até parecia ser outra pessoa. Teria ela ruminado um pouco mais as perguntas que lhe fiz e acabara por me incluir em seu rol de suspeitos preferenciais? Pelo sim, pelo não, abriu só até a metade a porta rangente e nos concitou a entrar, quase nos arrastando. Eu penso que antes se esforçando para ocultar alguma coisa, que mesmo por assomos de hospitalidade. E fechou a porta outra vez, de supetão, não sem antes olhar de soslaio para o Mercedes bege de praça que nos aguardava encostado lá fora. O mesmo carro que nos levara até Fátima e de lá nos trouxera. De pé, sem rodeios e sem ao menos nos oferecer um copo d’água ou mandar sentar, me perguntou, enquanto olhava com indisfarçado nervosismo as fotografias, se eu havia rezado com fervor contrito, se eu havia feito as penitências em todo o trajeto conforme o combinado. Eu disse que sim. Ela ficou com o envelope contendo as fotos e os negativos como se quisesse instruir um processo perante Deus, ou noutra instância sobrenatural, onde necessário fosse, para provar a remissão de seus pecados.

Sem maiores delongas, retirou da gaveta de uma estante de nogueira escura, ali mesmo na sala e me entregou um pacote retangular, embrulhado com jornal velho e amarrado com farrapos de barbante de cânhamo. Fez sinais irritados com a mão de que deveríamos nos evadir do local. Por um instante fiquei meio aparvalhado, sem ação, com tremedeira por todo o corpo e a respiração miúda. Mais irritada ainda, berrou para que fôssemos logo dando o fora, sem esperar nem ao menos que eu conseguisse agasalhar os nervos e repor as emoções no lugar. Nem pegou meu nome completo, endereço, telefone, números de documentos ou quaisquer outras informações. O que seria razoável exigir numa operação assim tão delicada e complexa. Fomos saindo com agradecimentos mal finalizados, sem conferir o que estávamos pegando. A porta fechou-se rente a nossas costas: um ranger lúgubre seguido de um baque seco. No mesmo carro de praça que chegamos, deixamos o subúrbio rumo ao hotel, no centro de Lisboa. Minha mulher continuou alimentando a suspeita de que aquele pacote não passaria de um objeto de pegadinha. Dessas que os programas de televisão sacaneiam alguns e divertem tantos outros. Que no fundo também são sacaneados por perder tempo em ver aquilo.

Apesar de minha mulher ter me ministrado um calmante (ou sonífero, não sei), não grudei os olhos de novo aquela noite. Só que desta vez passei sentado, me debatendo com o texto, numa luta infame de gato faminto diante da lata de sardinha lacrada. Tentei iniciar, a mão mesmo, num bloco de anotações do hotel, a produção de uma cópia em linguagem atualizada. Mas diante da escrita de estilo cursivo encadeado tardio (a linha inteira sem levantar a pena, sinais gráficos vetustos, separações aleatórias de sílabas), de tantas abreviaturas desconhecidas, de palavras arcaicas e até estranhas ao idioma ou que não encontravam sentidos em meu conhecimento, não passei da primeira página, para meu desespero. Porém a noite, mais uma, passou inteira, em claro. Atolado e patinando, sem conseguir romper na leitura, constatei que aquela relíquia requeria um cuidado de prematuro recém-nascido: bastaria um esbarrão mais áspero e ela seria só farelo. Passei também a ser vítima do pavor paranoico de estar cometendo um ilícito penal. De que a qualquer momento eu poderia ser abordado por policiais em missão de busca e apreensão, por eu estar conduzindo aquele objeto que supunha ser de fato precioso e ao mesmo tempo clandestino. Comecei a ver vulto de algozes por toda parte.

As semanas seguintes foram para mim de uma ansiedade esmagadora. Cumprindo programação prévia, fizemos de ônibus um périplo por vários países da Europa. Quando não estávamos na estrada, passei todo o tempo trancafiado em algum quarto de hotel tentando, com parcos recursos, permear o texto. Minha mulher, coitada, se quis passear, ir a restaurantes, assistir a shows, ver vitrines, fazer compras, visitar igrejas, museus e monumentos, teve que se enturmar com umas colegas de itinerário sem marido ou namorado. Porque ela também agora conquistara, ainda que a contragosto, a condição de solteira. Ou como ela mesma preferia dizer: viúva de marido vivo.

– Mas não por muito tempo, – brincava, sem conseguir ocultar um velado tom de ameaça.

Ao retornar para casa semanas depois, fatigado e em tempo de endoidecer – para minha mulher eu já estava era pirado de pedra, e não era de hoje, – continuei nessa obsessiva tarefa. Agora recorrendo ao auxílio de lupa, computador, dicionários filológicos, alguns princípios de paleografia, como a comparação com outros textos da mesma época e já transcritos – e até de épocas anteriores, já que o estilo do manuscrito padece de um anacronismo sem justificativas. As informações acumuladas durante minhas pesquisas não foram de todo inúteis, pois me ajudaram sobremaneira a entender e “traduzir” aquele autor tão oblíquo e anacrônico.

Partes do manuscrito estão em estado deplorável. Há trechos encardidos de bolor ou desbotados, letras diluídas e sem a menor condição de leitura.  E o que é pior: tem até ausência de pedaços ou de laudas completas. Existem ainda páginas embaralhas e, para complicar ainda mais, com a numeração perdida. Tentei ordenar esse labirinto e preencher as lacunas como quem restaura uma estátua despedaçada, juntando caco por caco, presumindo, portanto, que eu tenha conseguido visualizar o corpo do texto por inteiro.

Lamento, não sem um travo de piedade, a falta de condições para revelar a verdadeira identidade do escriba. Seu nome não figura uma vez sequer em toda a narrativa. Quando referido por alguém, é chamado sem complacência pelos epítetos depreciativos e galhofeiros de Roncolho, Bastardo, Homem da Cobra ou Sentinela Escorregando. A última página, em que é razoável supor que teria datado e assinado, por azar, falta a metade inferior. Embora a última frase apresente, sem dúvida alguma, um tom terminativo. Buscar seu nome nos arquivos, pelas pistas que ele próprio deixou, me parece uma tarefa inglória. Naquela época, na maioria das vezes, os filhos bastardos não tinham assentos nos tocos de batistério das paróquias. Quando tinham, constava quase sempre só mesmo o nome da mãe. E em momento algum de seu relato ele menciona o nome de sua mãe. Ademais, se tivesse restado registro com informações mais amplas, é pouco provável que este tenha ficado a salvo da dissipação dos arquivos coloniais. Posso dizer que da papelama que investiguei nestes anos de busca insana, não me recordo de uma pista sequer que pudesse levar ao autor do manuscrito. De qualquer forma, pelos fatos narrados, ele deve tê-lo produzido em torno do ano de 1750, no mais tardar.

Por gosto literário e dever de probidade que me determina manter a alma do autor entremeando o texto, me esforcei por conservar o tom de sua prosa, que oscila entre a acidez circunstancial da realidade e a ternura essencial dos sonhos, entre o clima solene que envolve o Capitão-general e um ar quase gaiato, próprio de sua classe social inferior. Mantive também, o quanto pude, o ritmo original, a musicalidade do autor, com períodos enovelados e longos em demasia, entremeados de outros curtos por demais, picadinhos, diretos, às vezes até monossilábicos. Evocando, talvez, a cadência longa do fluxo dos rios, que pode, quando menos se espera ser quebrada por remoinhos, turbulências ou cachoeiras. Ou, quem sabe, a marcha viageira das mulas interrompida por um susto, um refugão ou por amuo de cansaço.

Palavras ou expressões já mortas, que de nenhum modo seriam capazes de nos comunicar ideias ou fatos, foram substituídas por outras de uso mais corrente, que possam cumprir tal tarefa, repercutindo para nossos sentidos algo semelhante que deveriam repercutir para os sentidos das pessoas de se seu tempo. Tentei, ao lado dessas providências, preservar um certo gosto arcaico – de zinabre – como sendo o sabor predominante da obra. No entanto, perseguindo sempre uma linguagem que fosse acessível ao leitor médio contemporâneo. Se alcancei, ou não, tantas ambições simultâneas, só você, leitor/leitora, é que poderá dizer.

Confesso, sem nenhuma ponta de pesar, que se tivesse eu mesmo escrito o tal romance, como era desde o início o meu intuito, teria sido menos árdua a tarefa. Mas, com certeza, muito menos gratificante.

Nunca cheguei, nem tenho esperança de vir a chegar, a um veredicto conclusivo se a teoria da produção, da perda, da conservação e do aparecimento do manuscrito é mesmo genuína. Ou se não passa de um tremendo blefe de uma suposta arqueóloga com surtos delirantes de fantasia, produzindo, ela própria ou por intermédio de outrem, uma ardilosa falsificação ou uma bem encadeada distorção dos fatos. Ninguém tira da cabeça de minha mulher de que, cedo ou tarde, vou acabar sendo vítima de alguma caçoada ou até mesmo de um constrangimento mais severo. Apesar da busca acirrada, de tudo isso sei apenas que consta da História Geral das Bandeiras Paulistas, de Afonso d’E. Taunay que, de fato, o linhagista e bandeirante Pedro Taques de Almeida Paes Leme se achava em Lisboa por ocasião daquele terremoto de proporções bíblicas, que teve seus originais engolidos pelo cataclismo e ele próprio por pouco não é sepultado nos estragos. Mas daí concluir que levava consigo tais manuscritos feitos por um bastardo contemporâneo seu, vai uma distância de infinitas léguas. Tal distância, porém, começa a se encurtar quando o próprio escriba faz referências a alguém que teria algumas características de Pedro Taques de Almeida Paes Leme, primo distante do Segundo Anhanguera, ao afirmar: “Assimilei também qualquer coisa de jurisprudência, cânones, filosofia, redação de atas e as operações de matemática prática com um camarada que havia estudado no Colégio Inaciano em São Paulo de Piratininga (embora jure que foi na afamada Universidade de Coimbra) e que uma vez ou outra perambulava com as monções do Anhanguera, anotando com entusiasmo e método fatos e ideias: como sal seco, que posto em contato com sal molhado, acaba por pegar umidade”. As pistas, no entanto, morrem por aí. Seja como for, a dúvida persiste como tempero que realça o sabor da realidade.

Edival Lourenço e Fausto Valle: escritores | Foto: Divulgação

O escritor Fausto Vale, místico experiente e cavaleiro iluminado de uma ordem contemplativa de inclinação aristotélica (não há efeito sem causa anterior), que vem¹ acompanhando meu trabalho e minhas peripécias com generoso interesse, sustenta uma lucubração de simplicidade assombrosa. Para ele, este manuscrito insólito não passaria de um engendro perpetrado em surdina pelas forças laterais de minhas próprias compulsões.

Penso logo no reverso: Não seria eu mesmo um engendro urdido pela pertinácia de um escritor anônimo, que teria vivido nos primórdios de nossa colonização? Será que minha existência não passaria de mero instrumento, um fantoche orgânico, cujo papel principal na Terra seria retornar ao curso normal este trabalho que ficou, contrariando o desejo do autor, sepultado nos entulhos de um terremoto colossal à beira de um quarto de milênio?  Esta suposição não é de todo desprovida de propósito. Minha irmã, que é estudiosa da filosofia espiritualista de Alan Kardec, está convencida que de duas uma: ou que eu venho sofrendo uma obsessão imposta pelo espírito do vetusto amanuense com o propósito de cumprir seus desígnios, ou, o que é mais estarrecedor, eu seria o próprio autor reencarnado.

Conjecturas à parte, o que de mais real existe em toda essa história é que, perto de uma década depois de me propor a escrever um romance que se passasse nos momentos germinais do estado goiano, – e por extensão, do estabelecimento estendido da pátria brasileira –, depois de reunir uma montanha de informações confusas e até paradoxais, depois de tantas idas e vindas, de euforias e descrenças, de avanços e retrocessos, venho a público com uma obra que me deu um trabalho monumental e que por um triz não me fez louco de pedra.

E o que é mais intrigante: a rigor não fui eu que a escrevi.

Edival Lourenço é escritor.

Nota

¹ Fausto Valle morreu em 2010, depois da escrita do ensaio acima.

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