Faroestes made in Brazil – Parte 2

Após se render à pornografia, na década de 1970, o faroeste brasileiro bateu em retirada. Nos últimos anos, entretanto, vem reaparecendo cautelosamente

Cartaz do filme “A vingança de Chico Mineiro”, de 1979

Herondes Cezar de Siqueira
Especial para o Jornal Opção

Os italianos vinham há anos tentando copiar o faroeste americano sem sucesso. O público só ia ao cinema ver spaghetti western para dar risada. Então Sergio Leone, com mais conhecimento de cinema e do gênero, resolveu dar sua contribuição. Convidou, para protagonizar o filme, o ator americano Clint Eastwood, que deu seus pitacos no roteiro. O resultado foi “Por Um Punhado de Dólares” (1964), que fez sucesso no mundo inteiro, inclusive nos EUA, menos no Brasil. Aqui, o primeiro filme do gênero a conquistar o público foi “O Dólar Furado” (1965).

O cinema brasileiro logo seguiu a onda. O primeiro a mirar no bangue-bangue italiano foi o paulista Luís Sérgio Person, com a sátira “Panca de Valente” (1968). Levou mais longe o escracho das chanchadas cariocas, mas soube fazer o contraste com momentos sérios: uma bela sequência de dança, uma de maus-tratos ao suposto herói, uma de suspense com o trem de ferro. Detalhe: numa cena, alguém assovia o tema de “O Dólar Furado”.

Do mesmo ano, “O Tesouro de Zapata” (1968), do carioca Cí­ce­ro Adolpho Chadler, pode ter sido o primeiro faroeste brasileiro co­lorido. Não há como afirmar taxativamente, dada a precariedade das nossas fontes de informação.

No cinema paulista, o polonês faz-tudo Edward Freund realizou três faroestes sérios, “Enquanto Houver uma Esperança” (1968), “Um Pistoleiro Chamado Ca­viú­na” (1971) e “Quatro Pistoleiros em Fúria” (1972), além do satírico “Trindade É Meu Nome” (1973).

Ozualdo Candeias fez um dos mais relevantes exemplares do gênero, “Meu Nome É Tonho” (1969). Ele aprendera o ofício, co­mo era usual para os diretores pau­listas, exercendo diferentes fun­ções no cinema. Seu filme é de um realismo brutal, com imagens cho­cantes de humanos e de animais. Há cenas de crueldade, sa­dis­mo e, até, de incesto. Mas sua in­tenção, segundo disse, era retratar o que vira e ouvira quando an­da­va com tropeiros do Mato Grosso.
Mazzaropi, por sua vez, avacalhou com o faroeste em “Uma Pis­to­la pra D’Jeca” (1969), aplicando sua fórmula bem-sucedida de humor e sentimentalismo. Como tinha público cativo, ainda fez “O Grande Xerife” (1972).

Carlos Augusto de Oliveira, irmão de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (o Boni da TV Globo) fez o mais belo, talvez, dos faroestes espelhados no spaghetti western, “Lista Negra para Black Medal” (1971). Experiente em publicidade e na TV, ele realizou um filme diferenciado, com visual requintado. Além de diretor, foi ainda roteirista e diretor de fotografia, tendo Walter Carvalho como operador de câmera.

José Mojica Marins voltou ao gênero mais experiente em “D’Gajão Mata para Vingar” (1972). Fazen­dei­ros massacram grupo de ciganos e um sobrevivente jovem parte para a vingança. O fotógrafo Edward Freund explorou bem a paisagem do Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa (PR).

O veterano Carlos Hugo Chris­tensen filmou no Mato Grosso seu “Cain­gangue – A Pontaria do Diabo” (1973), produção carioca vagamente inspirada em “Os Brutos Também Amam” (1953), mas com os cacoetes dos faroestes italianos. Um forasteiro taciturno enfrenta um grande criador de gado para defender agricultores, que são, na verdade, posseiros. Os preceitos da lei e da ordem ficaram confusos.

Ator e diretor Tony Vieira

A paulista Lenita Perroy foi a única mulher a se aventurar no gênero com “Noiva da Noite – O Desejo de 7 Homens” (1974), exemplar acima da média. Homem condenado injustamente, quando se vê livre, sequestra a filha do responsável por sua prisão, no dia do casamento dela. Ele a conduz rio abaixo e mata adentro, enquanto o noivo e seis asseclas os perseguem rumo a um desfecho, infelizmente, previsível.

Na década de 1970, a produção de faroestes se expandiu, sobretudo no círculo da Boca do Lixo paulistana, onde eram gestadas também as pornochanchadas. A exemplo de Ozualdo Candeias, o mineiro Tony Vieira e o paulista Rubens da Silva Prado, dois dos diretores que mais realizaram faroestes, aprenderam a fazer filmes exercendo as mais diversas funções, no cinema ou na TV.

Tony Vieira atuou como coadjuvante em “Panca de Valente” e “Uma Pistola pra D’Jeca” e, depois, foi o mocinho de “Um Pistoleiro Chamado Caviúna” e “Quatro Pistoleiros em Fúria”. Nos filmes que dirigiu, fazia sempre o papel principal. Começou com faroestes interessantes, mas, como os alternava com pornochanchadas, findou no faroeste pornô. São dele “Gringo, o Último Matador” (1972), “A Filha do Padre” (1975), “Os Violenta­dores” (1978) e “Condenada por um Desejo” (1981).

Rubens da Silva Prado estreou no gênero com “Gregório 38” (1969), cujo personagem-título morre no final, segundo o pesquisador Rodrigo Pereira. Mas, em razão do sucesso do filme, ele o reviveu em “Gregório Volta para Matar” (1974) e outros filmes. Pra­do, que também alternava faroestes e pornochanchadas, dirigiu ainda “Sangue em Santa Ma­ria” (1971), “Sadismo de um Ma­tador” (1974), “A Vingança de Chi­co Mineiro” (1979), “A Febre do Sexo” (1981), que ganhou ce­nas de sexo explícito e foi relançado como “Sexo Erótico na Ilha do Gavião” (1986), e “A Pistola que Elas Gostam” (1981), que, com enxertos de sexo explícito, virou “O Gozo da Pistola” (1988).

O fundo do poço, porém, deu-se com “Um Pistoleiro Chamado Papaco” (1986), de Mário Vaz Filho, outro militante da Boca do Lixo.

Após se render à pornografia, o faroeste brasileiro bateu em retirada. Nos últimos anos, entretanto, vem reaparecendo cautelosamente. O paulista Jeremias Moreira Filho refez “O Menino da Porteira” (2009), que ele mesmo filmara em 1976. O cinema carioca também revocou o passado em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (2011), de Vinícius Coimbra. Por último, o carioca Marcelo Galvão realizou “O Matador”, inspirado em uma figura dos primórdios do cangaço. Produção internacional da Netflix, o filme acaba de ganhar os prêmios de melhor fotografia e melhor trilha musical, no Festival de Gramado.

Herondes Cezar de Siqueira, crítico de cinema, é colaborador do Jornal Opção.

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