“Falar de amor também é uma forma de salvação”

O poeta gaúcho Rafael Iotti fala sobre a sua estreia literária com o livro “Mas é possível que haja outros”

Rafael Iotti, autor do livro de poesias “Mas é possível que haja outros”

Márwio Câmara,

Especial para o Jornal Opção

O amor ou a busca por ele é um dos temas centrais do livro de estreia de Rafael Iotti, o harmonioso “Mas é possível que haja outros”, editado pela 7Letras. Natural de Porto Alegre e residente em Caxias do Sul, o poeta de 25 anos desenvolve em sua obra um mapa sentimental onde se enveredam as múltiplas personas de si entre os três capítulos que dividem a seleta em “Poemas indecisos ou cinco poemas infantis”, “Poemas frágeis” e “Poemas insensíveis”.

O tom prosaico dos poemas de Iotti pode remeter o leitor, muitas vezes, a uma voz que se esquiva dos embaraços da metaforização poética – da descaracterização do significante que resulta em um novo significado –, embora abrace uma linha intimista que triunfa o livro de belos achados, como em trecho de “tu”: “penso em ti porque preciso. / sinto que o tempo me en­lou­quece, como rugas expostas ao / ca­lor ameno dos anos. quando eu sin­to a loucura pesar / sobre mim, penso em ti. talvez tu faça parte dela./”

Os versos do estreante variam de formato, travando em alguns deles brincadeiras estilísticas. Embora aparentemente despretensioso, fica registrado em seu primeiro livro uma seriedade pelo método e a preocupação pela forma: “não quero encontros casuais / é preciso de vez em quando / bater sem ser chamado / ou ligar dez vezes até ser atendido /”. Uma estreia que traz em cena uma das novas revelações da poesia brasileira contemporânea, com toques de Drummond, embora num estilo bem particular e gauchesco interessante: “se eu me visse na / rua / eu atravessaria / fingiria telefone / ou uma pedra pra chutar / qualquer reflexo me dói / medo mesmo eu só tenho / de me enxergar como enxergo / todo mundo /”.

Em entrevista exclusiva para o Jor­nal Opção, Rafael Iotti fala sobre o processo de criação do livro, as di­fe­rentes formas de publicação no mundo das redes sociais e alguns tó­pi­cos pertinentes sobre o seu trabalho:

Em que momento a literatura chega em sua vida e de que forma a poesia em específico é entendida como um gênero literário onde a linguagem, de alguma forma, pode dar conta das suas inquietações e observações sobre o mundo enquanto artista?

Antes mesmo de aprender a ler eu já gostava de contar histórias, de fabular e escrever, com uma linguagem única e ilegível. Quando aprendi a ler descobri que a imaginação podia ganhar forma. A poesia demorou mais para se integrar no meu mundo, mas quando veio foi com uma força descomunal que não tive como ir contra. A literatura sempre teve uma importância grande na minha vida; porque fui uma criança tímida e um adolescente apaixonado. Até o fim da minha adolescência eu adorava ler. Mas não pensava em fazer isso. Eu escrevia de brincadeira, sem nenhuma preocupação estética, formal, etc. Quando, no meio do ensino médio, me deparei com os livros de John Fante eu descobri que eu não só precisava daquilo mas como também fazia parte de tudo. Então comecei a escrever e ler como um maníaco.

Você está lançando o seu primeiro livro “Mas é possível que haja outros”, pela Editora 7Letras, mas antes disso você já publicava os seus versos na internet e também nas ruas da sua cidade, com edições feitas à mão. Eu queria que você falasse um pouco sobre isso, do seu contato com as pessoas nas ruas e também da forma como você encara um texto em versos sendo trabalhado na internet, sobretudo em blogs e redes sociais.

O trabalho feito na rua é diferente do que está no livro e também do que é publicado na internet. Nas ruas é o seguinte: faço, manualmente, alguns cartões que, de um lado, vai escrito “tenha um dia bonito” e, no outro, há um poema e um desenho, geralmente um poema feliz, alegre. Eu os distribuo na rua como alguém que entrega panfletos. Não converso, não dialogo, não digo nada; só entrego o papel e vou embora. Há outro tipo de compromisso nisso. É algo mais preocupado com o bem-estar. Os poemas que escrevo, por outro lado, que estão nos livros ou nas redes, não têm compromisso nenhum. Talvez, diferentemente dos da rua, sejam mais melancólicos, escatológicos, etc. Não sou um bom entendedor do que escrevo. É possível que eu não faça a menor ideia do que esteja escrevendo.

Como foi chegar até a unidade deste livro em específico? Existe uma disciplina para se escrever um livro de poesia? Caso sim, de que forma é trabalhada essa rotina?

Reunir os poemas, tentar encaixá-los em alguma or­dem, requer, sim, um trabalho; uma “rotina”. Escrevê-los, por outro lado, só foi pos­sível a partir do caos. É muito comum, hoje em dia, alguns escritores ou professores em suas oficinas afirmarem que não existe “inspiração”; ou que ela é tão supérflua que podemos prescindir dela. Comigo, posso dizer, não funciona assim. Os poemas que contêm meu nome assinado não são escritos por mim; mas sim por uma entidade invisível que paira sobre minha consciência e o meu único dever é transformar o que me é dito em linguagem. Com a prosa, funciono de outra forma. Também dependo da inspiração, mas não tanto.

“Mas é possível que haja outros”, de Rafael Iotti | Editora 7 Letras, 2017.

Eu notei que você dividiu o seu livro em três capítulos, que podem ser encarados também como estágios, intitulados: “Poemas indecisos ou cinco poemas infantis”, “Poemas frágeis” e “Poemas insensíveis”. Pode falar sobre essas demarcações?

A primeira parte trata de poemas que, em algum momento, me lembra a infância. Eu fui uma criança muito indecisa, então isso diz respeito à minha formação. Os poemas frágeis falam de amor, na maioria das vezes. Os insensíveis são mais o pós-amor; ou a “ressaca” de tudo.

Pelo que eu pude perceber enquanto eu lia o livro é que os seus poemas estilisticamente falando trabalham numa linha bastante prosaica, há um tom quase de narrativa mes­mo, e que me lembra Drummond, em alguns momentos. Eu tenho a im­pressão também que além do poeta existe um prosador aí nessas vozes que conduzem o leitor às linhas de seus versos. É isso? Mas é possível que haja um prosador dentro dessas inúmeras entidades literárias que, quando reunidas, formam esse Rafael Iotti?

É possível, sim. Eu, particularmente, gosto muito da prosa. Dos po­etas prosaicos. Meu poeta preferido, vivo, é o Nicanor Parra. Drum­mond, como tu lembrou, também é um totem gigantesco pra mim. O melhor da prosa está na poesia, e vice-versa.

O amor é a grande tônica de grande parte dos poemas de “Mas é possível que haja outros”. Existe uma bus­ca também por esse amor ou por uma verdadeira e intensa experiência amorosa. O amor é um dos temas fundamentais na escrita do poeta?

Da minha poesia é sim. Acho que o Caio F. Abreu (e mais uma legião) di­zia que escrevia pra ser amado. No fun­do, também há uma busca desse tipo. Então falar de amor também é uma forma de salvação. O amor, as­sim como grandes temas, tipo a mor­te, a existência, o tempo, etc. são passíveis de infinitas variações. Por exemplo, talvez possa ser dito que alguns po­emas tratem de amor, mas o amor não será o mesmo de um poema a outro.

Quais são os autores que mais mexem com a sua cabeça?

Vivos: Rafael Escobar, Nica­nor Par­ra, Marco de Menezes, Matilde Cam­pilho, Laura Liuzzi e David Lynch. Mais que vivos: Antonio Cisne­ros, Octavio Paz, Murilo Mendes, Herberto Helder, Manuel Antonio Pina, Hilda Hilst e Safo.

A poeta Ana Cristina Cesar chegou a declarar uma vez que escrevia poesia com o objetivo de imobilizar o leitor. E o poeta Rafael Iotti escreve poesia por quê e para quê?

Imobilizar e passar uma rasteira.

Você estreou recentemente como colunista do portal Homo Literatus. Pode falar um pouco sobre essa coluna?

Fui convidado por um grande amigo a escrever sobre algumas leituras que faço. Na primeira coluna escrevi sobre o poeta Marco de Menezes. Agora, na próxima, pretendo escrever sobre Thomas Pynchon.

Sei que ainda é cedo para falar sobre um novo trabalho, mas é possível que o poeta já esteja escrevendo um novo livro? Caso sim, pode falar um pouco sobre ele?

Sim. Já estou organizando o segundo livro de poemas e escrevo um romance que pretendo acabar em breve.

O que é poesia para Rafael Iotti?

É uma pergunta simples para uma resposta complexa e, com certeza, incompleta. Muitos já falaram bem sobre isso. Prefiro, no entanto, sair pela tangente e dizer que eu não faço a menor ideia do que seja poesia.

Márwio Câmara é escritor. Autor do livro “Solidão e outras companhias” (Editora Oito e Meio).

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