“Falar de amor (e fazer amor) é a coisa mais revolucionária que existe”

Goiano do Itatiaia, o hoje professor da UnB Augusto Niemar lança seu quarto livro, o escrito em terras portuguesas “100ª Página”

Além de “100ª Página”, Augusto é autor de “Niemar”, “Onde As Ruas Não Têm Nome” e “Do Livro de Carne” | Foto: Luiza Garonce

Além de “100ª Página”, Augusto é autor de “Niemar”, “Onde As Ruas Não Têm Nome” e “Do Livro de Carne” | Foto: Luiza Garonce

“Um conto de fados

centésimas estórias

1001ª noite 1002 dias

(…)

as algas, passarezas de céu, areavam

as arraias, em nomes, respiravam

e as estrelas marinhas, dizem, constelavam.” — Augusto Niemar

Yago Rodrigues Alvim

Autor de muitas cidades, de um mundo só, Augusto Niemar voltou ao seu berço — o setor Itatiaia, na região Norte de Goiânia, tratado por ele como “cidade satélite” — para lançar seu quarto livro: o de poesias “100ª Página”, escrito durante seu pós-doutorado em Braga, Portugal. Professor de Literatura Barroca na Universidade de Brasília (UnB), o goiano ensina com seus versos como ser político, apenas olhando para o mais puro do dia a dia. Nascido Augusto Rodrigues, hoje o escritor agregou a si o valor de sem mar, em prol de uma luta justa: a de fazer algo no mundo, engajando-se mais explicitamente — afinal, ser escritor do cerrado é desbravar quilômetros para pertencer ao mundo, por mais que o mundo seja qualquer lugar.

Conte um pouco sobre sua jornada.

Aos três anos, eu me mudei para o Itatiaia. Foi na época da fundação do bairro, construído para os funcionários da Universidade Federal de Goiás, onde meu pai trabalhava. Entre o centro de Goiânia e o Itatiaia, tudo era muito vazio; fizeram a universidade naquela região por conta do militarismo, pois queriam os estudantes longe. E eu passei praticamente a minha vida toda dentro do Itatiaia.

Eu queria jogar futebol. Joguei futebol de várzea a vida toda. Entrei para o Atlético Goianiense ainda menino, mas não deu muito certo. Foram as incontingências do futebol. Com isso, passei um tempo no Rio de Janeiro, fui para aprender um pouco da vida. Eu mesmo cresci com muitos leitores. Meus pais, minha vó, madrinha, todos eram leitores e, por isso, em minha casa, tinha muitos livros. É como toda história de escritor (risos). “Teve a infância difícil, leu muito.” Enfim, aos poucos, parei de jogar de futebol e comecei a ler e escrever muito. Foi algo entre os 15 e os 18 anos.

Escrevia sempre poesia. Até que pequenas prosas surgiam, como algumas crônicas, mas não duravam muito. Elas iam se acabando em uma autofagia. A minha formação é toda em leitura de romance, que era o “normal” para minha época. Eu fui um leitor inveterado de romance por muito, muito tempo. Comecei a observar que a minha prática literária, meu olhar para o mundo, depois que estudei, era como a de um romancista. Olhava para as pessoas, para a cidade. Escrevo sempre a partir do espaço. Tenho algumas referências brasileiras, claramente as europeias, mas sempre olhei ao redor como prosador. Por isso, em minhas poesias existem personagens, narrador.

Nisso, já tinha se enveredado na vida acadêmica?

Eu fiquei um tempo lendo, sem me vincular à escola. Teve um momento que na própria escola não cabia ler, precisava estudar muita matemática e não dava. E eu precisava de mais, por isso entrei em uma maratona de leitura. Impus-me o desafio de ler cem romances por ano. Fazia jejum para passar horas acordado; lia seis, sete romances ao mesmo tempo. Descobri que, sem dormir, ficaria mais tempo acordado para fazer algo interessante (risos). E descobri ainda que, se você trocar de livro de meia em meia hora, sua cabeça não cansa. Por isso, eu pegava tantos livros. Claro, uma hora a ficha caiu, e eu tinha que estudar. Fiz um ano de Escola Técnica — atual Instituto Federal de Goiás (IFG) — e prestei para Letras, em Goiânia, e para Sociologia, em Florianópolis (SC), mas acabei ficando por aqui. A literatura foi minha “coluna cervical”. Dentro da universidade, me centrei nesta energia poética. Lá, nunca estudei poesia, pois meu tempo de leitura de poesia é muito diferente. Tem um poema que eu leio há, mais ou menos, vinte anos. O tempo de ler poesia é diferente. Claro que li muitos poetas quando jovem. Muitos dos que estão no nosso imaginário, como Drummond, Bandeira, João Cabral.

Minha especialização foi também em prosa, especificamente em literatura comparada. Eu gosto de ler um autor para pensar o outro. Sempre fiz esta relação. Cursei Letras por causa do Machado de Assis. Eu o estudei durante toda graduação. No mestrado, descobri o Ítalo Calvino e guardei Machado na gaveta. “Cidades Invisíveis”, uma prosa poética, é um livro bem interessante, um dos livros da última metade do século XX que melhor trata a nossa época, a relação que temos com a cidade e o mundo enquanto cidade — algo do projeto do “100ª Página”. No doutorado, eu fui para Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ). Entrei para estudar Calvino, mas acabei voltando para Machado de Assis. Calvino foi muito importante para entender nossa época, pois sempre li muito do século XIX. Não lia nada do século XX. Cursei o doutorado com Paulo Bezerra, que é o tradutor de Dostoiévski e de Bakhtin. No pós-doutorado, em Portugal, completamente diferente, ainda que muito próximo, eu estudei Padre Antônio Vieira e José Saramago, dois grandes prosadores da Língua Portuguesa. Foi um pouco da experiência acadêmica que me influenciou, pois acabei virando professor de Barroco na UnB. Padre Vieira é um grande prosador e eu me preocupo com a história cultural do país; por exemplo, por que nosso romance é tão tardio em relação à França e Espanha? Nós não temos romancistas, o prosador que temos é Padre Vieira.

Como foi se ver escritor? No caso, quando resolveu publicar o que escrevia?

Entre 15 e 34 anos, idade em que o meu primeiro livro foi publicado, sempre escrevi poesia. Isso, em vários fluxos. Tenho uma pilha de cadernos com poesia inédita, que está guardada e eu preciso revê-la. Entendi que não estava pronto para ser publicada, pois era uma poesia em processo. Assim, continuei estudando. Entre 2007 e 2008, no fluxo de ir ou não para Brasília, pois havia surgido uma proposta para me mudar para a capital nacional e eu tinha acabado de voltar do doutorado, eu por fim comecei a conviver com Brasília efetivamente e decidi o que queria escrever. “Esta é minha forma poética: quero escrever como Lúcio Costa [arquiteto e professor de Oscar Niemeyer] fez Brasília.” Assim surgiu o projeto dos três primeiros livros.
O “Niemar” é o primeiro, com todo este jogo. Eles me perguntam onde nasci e eu digo que no mesmo lugar que Brasília, em Goiás. No primeiro livro, tem o mito de Goiás, pois é o único estado que se dividiu em dois, Goiás e Tocantins, e que se implodiu para gerar Brasília. Ela tem toda uma estrutura modernista, mas, meio que antropofagicamente, se imbrica com o cerrado. É esse o jogo: tudo muito urbano e, ao mesmo tempo, cerradense, cerrateiro. O livro nasce desta transição. Faço pesquisa na comunidade quilombola calunga, que é muito cerrado, daquele puro ainda — expressando-me poeticamente, embora academicamente nada disso funcione, pois as relações já são outras.

Eu escrevi poesia em fluxo a vida inteira, sem projetos bem definidos. Tinha algo de heterônimo [o termo significa que não há ortônimo, ou seja, são seres exteriores; ou ainda outrônimos], figuras que escreviam comigo. Portanto, eu não assinava as poesias em fluxos; eles que as assinavam e voltaram em Portugal, no último livro, o que fez muito sentido por causa de Fernando Pessoa, com todo o fluxo heteronímico que existe por lá. A partir do “Niemar”, eu passei a escrever livros. Eu só publico quando eu escrevo livro e não publiquei ainda um conjunto de poesias. Eu gosto de projetos, aprendi isso com Calvino. Os seus livros são muito matemáticos, muito bem montados. Eu encontro um núcleo poético e desenvolvo 40, 50 poemas, o que é a história dos primeiros três livros. “Niemar” e “Onde As Ruas Não Têm Nome”, o segundo livro, têm um diálogo muito forte. São quase o mesmo livro, mas com projetos um pouco diferentes e que se imbricam. O futuro deles, em segunda edição, é ser um livro só. Cortar os poemas que já não me agradam muito e ficar um livro só.

“Onde As Ruas Não Têm Nome” segue o mesmo fluxo, mas agora como um habitante de Brasília, decididamente habitante de lá. Escrevi durante alguns concursos acadêmicos que fiz para entrar na Universidade de Brasília (UnB) e tem uma história muito interessante, pois foi escrito em uma manhã. Não era uma da tarde e o livro já estava pronto. Depois enviei para um concurso, o qual venci, e por conta da negociação para publicação, ele demorou quase um ano para ser publicado. Com isso, eu praticamente retrabalhei o livro todo. O autor da orelha chegou a me escrever que estava diante de dois livros completamente diferentes. Eu me agreguei a um grupo de designers de Brasília, o Brasília Faz Bem. É um grande grupo que faz azulejos, projetos de design de interior, artes plásticas. Do nosso diálogo, nasceram as capas dos dois livros seguintes. No segundo, tem as placas e aquela coisa de Goiânia e Brasília disputarem qual é a capital do rock. O título mesmo faz referencia à música do U2, “Where The Streets Have No Name”. Tem ainda a coisa de ser um poeta velho ou jovem, pois se você publica com 35, aos 40 anos já é um poeta tardio. Para poesia, a meu ver, é uma boa idade. Eu e o editor, uma editora importante brasiliense, pensamos os títulos dos poemas como se fossem pichações políticas. Certa vez, alguém pichou na Biblioteca Nacional “Fora Dilma”. Outra pessoa foi lá e fez do “F” um “B”. Algo genial. “Bora Dilma”. No livro, tem muito cerrado, muito do céu, do azul; o projeto gráfico faz referência ao artista Mondrian. Eu o escrevi em 2009 e foi publicado em 2010.

No terceiro, “Do Livro de Carne”, faço referência explicita a Calvino com o subtítulo “Brasílias Invisíveis”. Ele tem o jogo da tesourinha brasiliense. Por isso, o leitor vira o livro. Quando me mudei para lá, nem dirigia. Tive que aprender. Às vezes, você tem que dar três voltas na tesourinha para pegar a direção que você quer. Você nem sabe se está indo para Norte ou Sul, não sabe nem para onde está indo. Tem a Asa Norte e a Sul, mas que são subjetivas. Ao mesmo tempo, andei pelas quadras da Asa Norte para construir a cidade do livro, elas são quadras invisíveis, pois não têm diferença. Uma moradora da Asa Sul me disse “415 é igual à minha quadra”, mas eu nem tinha ido lá. Existe, portanto, o real e o não-real. A parceria com o Brasília Faz Bem me permitiu isso, pelo projeto gráfico. Você vai passeando, a cada página, pela cidade. Elas parecem todas iguais, mas têm um projeto diferente, único. É um trabalho muito cuidadoso e de muita liberdade de criação. O livro mesmo, em seu formato, é um azulejo.

Seu quarto livro se chama “100ª Página”. Como foi esse processo, esse fluxo de escrita?

Depois do “Livro de Carne”, fiquei quatro anos sem publicar. Dediquei-me muito também, neste ínterim, à escrita acadêmica, que tem outro fluxo. No entremeio, continuei escrevendo, mas sem projeto de livro, por isso não publiquei. Quando me mudei para a Europa, eu tentei um livro, o qual seria “mais engajado”, ao menos mais explicitamente. Escrevo uma poesia que tem elementos políticos, mas descobri que fazer poesia sobre o mais cotidiano é o melhor ato político que posso fazer, afinal é no cotidiano que aparecem todas as questões humanas.
No começo de janeiro, escrevi os primeiros poemas do livro e percebi, então, que tinha um livro, que tinha encontrado um projeto de soneto, de montá-lo e desmontá-lo, de construir um conto dentro do poema ou o poema mesmo ser um grande conto ou, ainda, microromances, pois alguns poemas contam a história de uma vida no tempo e espaço. Fiz estes exercícios. Escrevi, como sempre, 40, 50 poemas e tinha uma base. Dentro do fluxo, eu decidi me impor o desafio de compor cem poemas a partir de várias historinhas, como o centenário de Orpheu, responder a essa geração do modernismo português. Para mim, Portugal não é um país, é uma cidade. Lá tem 10 milhões de pessoas. Você atravessa o país em doze horas. Isso, para nós brasileiros, é como se fosse uma cidade. É São Paulo, Rio de Janeiro; este eixo. Portanto, são dimensões muito diferentes da nossa e, ao mesmo tempo, com uma incrível capacidade narrativa. E eu queria essa coisa exagerada da capacidade narrativa portuguesa.

Também tive a vontade de responder aos primeiros livros, que eram mais contidos, com um projeto de 40 e poucos poemas. Muitos escritores modernistas, como o Bandeira, escreveram livros de 30 poemas. Mas existe uma diferença para nossa época, pois o papel era muito grosso, já hoje o papel muito grosso é muito caro para o escritor. Ao mesmo tempo, eu queria também me livrar da marca lusitana. Queria sim pensar um grande projeto, mas pensar o mundo como janela, afinal, o mundo está à nossa janela, que é o computador. As pessoas acessam o mundo de qualquer lugar. Os fluxos são completamente diferentes. As grandes migrações geram também situações diferentes. Era também o que eu estava aguardando que me tomasse. Tanto é que tenho um segundo livro já com 70 poemas, o qual pretendo fechar até fevereiro. Quero a cada semestre publicar um livro, manter esse trabalho. Claro, com propostas diferentes.

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Quanto à territorialidade presente no trabalho, como é isso?

Pensando rapidamente em alguns processos, trazer a cidade para dentro da obra é muito forte. Se você pensa em Cervantes, com “Dom Quixote”, existe a andança pela Espanha, a de algumas localidades, mas que refere a Espanha de um todo, que ainda estava se definindo enquanto nação. Se você pensa no nosso Arcadismo, vê que ele é muito arraigado em Minas Gerais, cujo epicentro é Ouro Preto. Já o grande movimento do XIX, que chamamos de “Romântico” e “Realista”, é muito ligado ao Rio de Janeiro. A literatura francesa do século XIX é muito mais ligada a Paris. James Joyce, em “Ulisses”, é ligado a Dublin, na Irlanda. Enfim, chegamos ao Calvino, que amplia este fluxo, por conta do tempo dele. Embora ele eleja algumas cidades, temos então o mundo como uma grande cidade. Nesse processo, eu faço um jogo também, pois minha cidade natal é o Itatiaia. Morei no Norte Ferroviário, em Goiânia, quando era bebê, portanto não tenho nenhuma memória. Tenho memória a partir do Itatiaia, que eu considero uma “cidade-satélite” de Goiânia, pegando a lógica brasiliense. Mas é sempre tudo muito afetivo. O espaço também me ajuda a organizar meu trabalho poético.

Quando penso o livro, eu penso espaço, pois ele tem de fato uma espacialidade. Tem um começo, meio e fim; um caminho pelo qual tem de andar. Na cultura ocidental, você lê de cima para baixo, da esquerda para direita. Isso é espacial, o livro em si é um objeto espacial. A partir deste espaço organizador, que é artístico, poético e também cotidiano, eu posso construir minhas poesias pelas andanças que faço pelo espaço. Quando encontro uma organização, eu passo a caminhar por ela e vou criando novas organizações, pois a cidade também é isso. Mesmo Brasília, uma cidade que já nasceu tombada, vai criando novas formas de estar na cidade. Existem novas ciclovias, novos atalhos que não estavam no plano, pois a cidade vai mudando. No livro, isso também aparece. Eu escrevo até um ponto em que preciso entender onde somos, na escrita e projeto. Eu imprimo todos os poemas e vou buscando conexões. Monto-o todo, pensando uma nova ordem. Nós escrevemos no A4. Eu faço todo esse trabalho e, depois, quando vou para o livro é outro trabalho. Quando os editores não me deixam sentar para pensa-lo, como os portugueses não me deixaram, no computador deles é muito angustiante, pois não entendem como eu o quero. Já trabalhei como revisor, editor e gosto de fazer toda esta matemática. O espaço me dá toda uma possibilidade ao mesmo tempo que me dá uma construção.

Por que “100ª Página”?

Eu gosto de escrever com o que se chama de “trapaça”. O título, além de todos os elementos que falei, é nome de uma livraria em Braga. Existe um lugar que se chama “100ª Página” no mundo. É uma livraria que eu frequentei, pois eu morava no centro de Braga e a universidade era um pouco afastada. Como não existia uma obrigatoriedade de estar na universidade, eu fui buscando estes espaços. Havia também uma biblioteca aquecida, o que era importante, pois fazia muito frio. Eu ia para lá ficar trabalhando, escrevendo. Tem também esta atribuição.

“Niemar” é sem mar, cerrado. “Onde As Ruas Não Têm Nome” é Brasília e é também Itatiaia. “Do Livro de Carne” faz referência a um açougue, o T-bone, um polo cultural hoje, pois o açougueiro fez um projeto de colocar livros nos pontos de ônibus. Se você ler o livro, percebe que as pessoas perdem as paradas ou ônibus, pois estavam lendo. No fundo, os títulos estão muito ligados a esses espaços, eles estão o mais próximo do realismo e, ao mesmo tempo, exploram o máximo a fantasia. Com “100ª Página”, por exemplo, existe a história que, para transpor “Grande Sertão Veredas”, você tem que passar a centésima página. E, se você “gugar”, vai encontrar a livraria e meu livro.

Então, existem estes cruzamentos, que são os cruzamentos da vida, pois vou colhendo os detalhes da vida. Temos impressão que, cada vez mais, essas coisas vão ficando invisíveis, porque estamos sempre nas máquinas, no caos, nas crises. Temos nos concentrado muito na crise, mas em qualquer época elas existem. São diferentes, mas estão ali.

Quanto à temporalidade, sua percepção do tempo na poesia, como funciona?

O tempo sempre foi a minha obsessão na escrita. Se pegarmos a minha poesia inédita, o que a configura é o tempo. Já a publicada é o espaço. Eu lembro para escrever e escrevo para esquecer. O tempo está neste percurso. Ao mesmo tempo, nas crônicas, isso está muito forte. Em uma delas, um personagem é suicida. Ele está em um hospício, caminhando para morte. A escrita é a própria morte e sua sobrevivência, pois o tempo está acabando. Sempre entendi que a iminência de morte está o tempo todo latente — tanto entendi isso que criei uma teoria para pensar a morte; uma teoria acadêmica que se chama tanatografia, que é a escrita de morte e envolve todo um processo temporal, de memória.

Hoje, o espaço me ajuda a trazer o tempo para o pensamento. Eu trabalho com estas camadas. Se hoje estou vivo, continuo percorrendo pelo tempo, vou agregando conjuntos de tempo ao meu presente e, ao mesmo tempo, escrevo pensando no próximo poema. Eu não me leio. Se precisarmos falar da minha poesia, por exemplo, eu não os decoro. Porque sempre estou no próximo poema, no próximo livro. Quando não estou fazendo livro, estou fazendo poesia. Às vezes, me recorro a elas, outras vezes não.

Uma amiga me enviou um poema de 1995 que tem a mesma estrutura, as mesmas personagens de um poema de 2015. Poxa, vinte anos! Eu vivo de literatura e para literatura já há vinte anos. Estou aos 41 anos, portanto, são vinte anos dedicados de fato a literatura.

Como suas histórias quanto à gênero? E o que o influencia/influenciou nisso?

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Escrito e lançado em Portugal, o livro é a quarta obra do escritor goiano, onde ele brinca de montar e desmontar sonetos, de ser um romance em versos ou ainda um conto poético versado

Eu tenho algumas obsessões que, durante algum tempo, funcionaram; inclusive, funcionam como frustrações. Por exemplo, a coisa de jogar futebol foi um agente organizador para mim. O futebol é um jogo, onde onze jogadores precisam funcionar juntos para ganharem o jogo que não dura mais que noventa minutos. Mas, domingo tem outro jogo, independente do resultado. Sempre vemos um jogador, quando perde, dizer “vamos para casa, domingo tem outro jogo”. Eu escrevo com o mesmo sentido, o de acertar no próximo. Na coisa do trabalho escrito, da arte, de rascunhar e rascunhar, treinar e treinar, chega uma hora em que jogo. Isso também é um organizador quanto a gênero. Um dos livros que quero escrever se chamará “Camisa 10” e tratará do futebol, da história do futebol. Quero fazer uma pesquisa sobre o futebol do nosso imaginário. O futebol de quando o Romário jogava, por exemplo, e que tudo era uma novela. Toda semana tinha uma história nova nos jornais. Sempre tinha uma polêmica, algo novo e, atualmente, temos perdido isso. Cadê o Túlio Maravilha, o Edmundo? Cadê as figuras polêmicas e interessantes? O futebol é um organizador da nossa cultura. Por muito tempo, eu levei como uma frustação não ter sido jogador de futebol; ainda me dói, mas vou resolvendo com a poesia.

O segundo agente foi ser leitor de romance, pois me provocou o processo de escrita. E mais uma vez, durante muito tempo, tive a frustação de não conseguir escrever romance. Eu só escrevia poesia. Então, tive que passar por isso. Muito da minha poesia inédita é narrativa. Algumas não têm estrutura de verso, são páginas inteiras que formam um poema. Como escrevia em cadernos pautados, os poemas têm, muitas vezes, vinte, trinta versos. É a página do caderno e não a A4. O local em que você escreve muda as relações que você tem com a escrita. Como leitor de romance, fui aos poucos entendendo isso, que construo grandes narrativas, com meus personagens, mas com uma estrutura, uma energia criadora que é a da poesia. A nossa época permite isso. O último livro, por exemplo, eu poderia ter dito que era de contos, mas ainda não era a hora de dizer, pois são contos poéticos e, afinal, tudo é muito aberto. Mas é importante que o poeta conheça, estude. Eu já estudei muito as formas poéticas, as formas de verso, desde os antigos aos mais atuais. Só que aprendemos, trabalhamos e vamos esquecendo.

O “100ª Página” traz a estrutura mais antiga, que é a do soneto e eu vou de encontro com o conto, um pouco menor, de pequenos contos. O verso livre já caminha para isso. Se você faz um exercício com a poesia do Drummond e vai puxando os versos, você encontra uma pequena história. Existem estes exercícios. O “100ª” é fruto disso, pois o mundo também tem a sua matemática invisível, você a vai assimilando e assumindo.

E claro, é uma construção em labirinto, você pode ler o poema em diversas sequências e partes. O livro dá tal possibilidade. Pode haver uma mudança de estrutura. O soneto, mesmo, pode ter um terceto a mais.

Os personagens muitas vezes reaparecem. Por exemplo, os meninos do primeiro beijo, tanto do ponto de vista do menino, da menina, e que depois vão embora. Existe uma relação homoafetiva, do patinho feio e de um cisne. Tem a história de um casal de velhinhos, a senhora branca e preta. Braga é uma cidade que tem muitos idosos e eu ficava em frente à Igreja Nossa Senhora das Neves, que é a senhora branca, observando-os. Já o preto é daqui, dos Secos e Molhados. Eles ficam juntos. Então, no livro, existem estes cruzamentos, que são os cruzamentos da vida. Eu vou colhendo os detalhes da vida. Tenho a impressão que, cada vez mais, coisas como essas vão ficando invisíveis, porque estamos nas máquinas ou no caos, nas crises. Temos nos concentrado muito na crise, mas em qualquer época elas existem. São diferentes, mas estão ali.

Qual a mensagem da sua poesia?

É uma pergunta que, normalmente, eu não me faço. O que é estar no mundo? É fazer alguma coisa. A minha teoria, inclusive, diz que o trabalho não aliena; pelo contrário, nos faz avançar. O que aliena é a exploração um do outro e por aí vai. Entendo que se estou no mundo, preciso fazer alguma coisa. Por muitos anos, fui leitor e fiz essa coisa chamada poesia, e eu a fazia pois era o que eu conseguia fazer. Depois, eu tive a consciência de que eu deveria fazer. Hoje mesmo, penso que a única coisa que posso fazer no mundo é arte e falar de amor. Pois, eu entendi que falar de amor e fazer amor é a coisa mais revolucionária que existe, afinal o mundo está ficando cada vez mais careta. O que tem de gente careta na universidade é impressionante. Nós somos constituídos disso. Ou você tem amor ou você tem ego e por aí vão os mal-entendidos que existem pelo mundo. Nesse processo, à medida que encontrei este substrato poético de escrever livro, encontrei também uma pulsão de escrita que me é muito interessante e gratificante. O cansaço e o prazer de ter escrito poesia, de poder compartilhá-la me é muito interessante. Olha só, estar no mundo fazendo isso… Temos uma estrutura que nos faz levantar da cama e nos sentirmos seguros, vivos, que estamos caminhando. Mas no fundo somos muito sensíveis, muito efêmeros. Existe a coisa do tempo. Então, todo dia você tem que começar. Você tem um grande amor aos 20 e tem um grande amor aos 30. Pensou que estava preparado e não estava. Tem aos 40 e também não estava preparado. Passamos a vida nos preparando, nos começando. Minha poética é isso. Eu preciso escrever. A partir do momento que estudamos, percebemos que existem bilhões de pessoas que não convivem com os livros. É uma população específica que vive com a escrita e, por isso, ao mesmo tempo em que busco o universo da escrita, que é o do gabinete, das bibliotecas, busco também o universo oral, que é o das ruas, das festas populares, do campo, com as pessoas. Eu estudo, assim, a língua indígena, a dos quilombolas. Estudo e faço parte. Vou sempre misturando. Aprendo a poesia oral. O cânone ainda é muito voltado para o mar e quem o define ainda é São Paulo, Rio de Janeiro. Nós que somos do cerrado ainda temos que fazer um esforço maior, para romper barreiras dentro de nós mesmos. Temos que ficar nos abrindo, indo contra nosso ensimesmamento.

Uma resposta para ““Falar de amor (e fazer amor) é a coisa mais revolucionária que existe””

  1. Parabéns pela entrevista, Yago.
    Para ter nota dez, faltou a ficha catalográfica ou (pelo menos) os dados básicos. Editora, onde comprar, preço, nr. de páginas do livro em foco – 100a. página – do que sabemos apenas… Escrito e lançado em Portugal.

    Att.
    Beto.

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