“Extraordinário” é um filme sobre a amizade e os fios que tecem o afeto

Dirigido pelo americano Stephen Chbosky, produção que traz o talentoso ator mirim Jacob Tremblay no papel de um garoto com deformação no rosto, mostra que amigos se fazem nas frestas do encantamento

Filme traz Julia Roberts, que não surpreenderia se fosse indicada ao Oscar, como mãe do protagonista, e Owen Wilson como pai: todos têm suas dificuldades interiores e suas maravilhas

Quem olha apenas para o cartaz, imagina que “Extraordinário” seja uma história sobre bullying. Mas ao assistir ao filme, o espectador verá um drama incrível, sensível e tocante, sobre a amizade e o modo como as diferenças são desfeitas para, no lugar delas, construírem-se relações de afeto.

No filme dirigido por Stephen Chbosky, com roteiro adaptado do romance homônimo de  R. J. Palacio, o canadense Jacob Tremblay faz o nova-iorquino do Brooklyn August “Auggie” Pullman, um garotinho de dez anos que nasceu com uma deformação no rosto. Até essa idade, ele fora protegido pela mãe que o educou em casa, mas agora vai para a escola pela primeira vez.

À medida que a história se desenvolve, vemos que ela vai além da adaptação de Auggie ao novo ambiente, e faz jus ao título em português, como já se viu, e em inglês. Em tradução livre, “Wonder” pode significar tanto assombro quanto maravilha, milagre, mistério, espanto. E o filme é tudo isso. Afinal, as amizades se fazem nas frestas do encantamento.

A premissa implícita de “Extraordinário” é a de que as marcas internas dizem mais sobre o que somos do que as externas. Elas são mais profundas e muito mais prolongadas, mais reveladoras de nossa personalidade, de nossas dores e de nossas fraquezas ou da força e do encanto que trazemos do que os traços expostos à vista imediata.

Alguns dos personagens terão a chance de expor suas marcas internas ao narrarem a história a partir de seu ponto de vista, como a irmã de Auggie, Via, e a amiga dela, Miranda, que compõem o quadro dramático da trama. E há sempre uma revelação que contrasta com a experiência pública, naquilo que é visto pelo outro, porque o que é visto não é o que está sensivelmente sendo construído por dentro de nós em sua inteireza, para o bem e para o mal.

Sensibilidade

Na escola, Auggie é recebido antes das aulas por três garotos da sua idade – dois meninos e uma menina, tidos como os mais receptivos e gentis –, para uma adaptação sem trauma. Cada um tem sua personalidade. A menina esconde a sua falando sem parar. Mas os meninos, Julian e Jack Will, bonitinhos e educados, revelam seus interiores ao longo da trama.

Jack Will revela-se um bom menino, apesar de as primeiras boas impressões se apagarem por serem falsas. Julian, não. Ao longo da trama, vamos vendo suas marcas sendo expostas como papéis despregando do bloco. A origem desses traços também está lá.

“Extraordinário” nos mostra que as marcas externas são esgotáveis, e nós nos acostumamos a elas. Jack Will, ao narrar sua versão sobre os conflitos com Auggie, diz que no início achou estranho a cara do colega, mas depois se acostumou com ela. É mais ou menos isso que ocorre nas relações duradouras de todo mundo.

No fim das contas, não importa se você tem um rosto com algum tipo de deformação, ou se você é gordo, muito magro, se é ptótico ou prognata num universo onde rolam preconceitos. Quando suas fontes afetivas produzem sensações agradáveis, a pessoa ao seu lado, identificando-se com elas, vai se acostumar com sua figura externa, porque os gestos agradáveis se repetirão extraordinariamente de várias maneiras.

Escamas ruins

Jacob Tremblay faz “Auggie”, garotinho de dez anos que nasceu com uma deformação no rosto: as marcas internas dizem mais sobre o que somos

De um modo inverso, o mesmo acontece quando as marcas internas são nefastas, porque são longas e capazes de produzir uma sequência interminável de malfeitos. Para cada momento, mais escamas do lado ruim sairão, ainda que a cara continue bonitinha.

Exemplo disso é Auggie recebendo uma série de insultos de Julian de vários modos: em papéis deixados sobre a carteira escolar ou no armário; nos olhares; nas palavras; nas atitudes. Quanto mais Auggie conquista admiração dos outros, mais Julian tem escamas maléficas para liberar.

O silêncio também magoa, porque a indiferença é só um modo de o outro não se envolver, de não mostrar esses traços interiores para não ser acusado de nada. Há pouco bullying na trama, inclusive. Embora sejam marcantes os que ocorrem, porque a característica do bullying é a marca deixada pela violência psicológica.

Neste sentido, o filme é sobre os tipos humanos e suas reações diante dos laços sociais que se formam, ou se destroem. Não importa se é com personagens pré-adolescentes. Os adultos também são assim. O filme está no campo dos preás por se tratar de uma fase difícil, tanto na formação da própria identidade quanto na criação de vínculos sócio-afetivos.

Jacob Tremblay já havia impressionado com sua atuação em 2016, no filme “O Quarto de Jack”. Agora, teve a chance de mostrar mais uma vez a que veio. Se a Academia não se lembrou dele naquela ocasião, talvez não passe despercebido desta vez. “Extraordinário” tem ainda em seu elenco a veterana Julia Roberts, como mãe de Auggie, outra que não surpreenderia se ganhasse mais uma indicação ao Oscar, cuja lista sairá no dia 23 de janeiro.

Stephen Chbosky, que também é romancista e roteirista, é um diretor competente. Em 2012, ele já tinha sido bem-sucedido ao adaptar para o cinema o próprio romance “As Vantagens de Ser Invisível”. “Extraordinário”, que tem uma rápida participação de Sônia Braga, pode ser a chance de Chbosky se colocar no hall dos diretores com visibilidade em Hollywood.

 

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