Por telefone, um dos vocalistas da banda, Gabriel Vaz, contou sobre a banda, de como se formou, de seu som e também do primeiro álbum, o “Quebra Azul” | Divulgação
Por telefone, um dos vocalistas da banda, Gabriel Vaz, contou sobre a banda, de como se formou, de seu som e também do primeiro álbum, o “Quebra Azul” | Divulgação

“Minha casa é simples/Mas é forte todavia
Chove todo dia/Uma calma solidão
Vento que arranca/dos varais uma lembrança
Tudo que me alcança/Era sonho, agora, não
Ninguém nunca vê a minha casa/Ninguém nunca entra
Onda que me lança/Nunca quebra, só avança
Faz da dor bonança/Soa o sino, agora, sim”
Baleia

Yago Rodrigues Alvim

Cantam assim os primeiros versinhos pelos quais me apaixonei: “Máqui­na de escrever/Boneca velha lembra a plástica/De remendar, colar o braço do jiraiya”. E mais o refrão, que pedia: “Me desculpe essa dor do encanto/Pois encanto é alucinação/Trocaria figuras colantes por comandos em ação/Que me calem com um bombardeio”. Se não a ti, a mim me lembrava da infância de datilografar em tinta vermelha e salvar Power Rangers, deixando os em hospitais, salvando os com chaves philips ou de fenda do caixa de ferramentas do pai. Ainda que amarelada de início, a paixão foi ficando cada vez mais azulada, enquanto descobria a infinidade das letras e arranjos de “Quebra Azul”. Baleia me pegou de vez. Piscou também para mim. Na sexta, 4, o grupo apresentaria toda sua maré musical nos palcos do Festival Vaca Amarela. Gabriel Vaz, que batuca percussões, arranha violões e cuida de estabilizadores, e junto da irmã, Sofia Vaz, assume os vocais, me contou da banda. Contou de Cairê Rego e seu baixo, de David Rosenblit com suas teclas em preto e branco, das guitarras e violinos de Felipe Ventura, dos pratos e baquetas de João Pessanha. Gabriel Vaz me contou de Baleia.

Conheci Baleia recentemente e me apaixonei muito pelas canções e letras. Primeiro, pergunto sobre vocês. Baleia é um coletivo; como é isso? E quando e como a banda começou, já que “Quebra Azul”, o primeiro álbum, é de 2013? Como tem sido a jornada desde então?
Nós começamos um pouco informais, uma brincadeira entre amigos. Éramos músicos órfãos de banda e começamos algumas versões de música sem pretensão alguma. Tocávamos em festa de amigos, estas coisas. E, aos poucos, despertamos que cada um tinha influências muito interessantes, cada um conseguia colocar uma personalidade legal nas músicas e, assim, começamos a criar um material autoral. Foi isso, fomos descobrindo as músicas que queríamos fazer ao longo dos primeiros anos de banda, que culminou, em 2013, no “Quebra Azul”. A questão do coletivo é por não ter uma liderança, cada um tem seus pontos fortes, todos influem em todos os aspectos. Cada um toca um instrumento e, mesmo assim, todos acabam metendo a mão no trabalho de todos e não tem muito aquela coisa da individualidade.

Vocês, então, eram músicos órfãos de banda e trazem influências que são muito interessantes. Quais são as influências de Baleia? E, quanto à questão de músicos, fale um pouco mais da instrumentalidade que marca muito a banda, que tem um som orquestral e, ao mesmo tempo, pop e rock. Como é isso?
A banda, como um todo, tem um gosto sem amarras. Nós gostamos tanto de Beyoncé quanto de Radiohead. Tem os dois lados. Conseguimos reconhecer ambos os universos. Gostamos muito de fazer uma música pop, de ter uma linguagem pop e também gostamos muito de experimentar e explorar novos caminhos, de forçar os limites dos gêneros, porque é aí que você consegue fazer uma coisa nova, reconstruir uma coisa nova e que, ainda assim, comunica. Vai seguindo essa linha; nós não temos certeza de caminho nenhum. Nós gostamos de fazer música bonita e que, ao mesmo tempo, instigue e mobilize. Uma música que provoca e que não deixe de ser acessível e ser humana, para que possamos dividir com todos.

“Quebra Azul”, o álbum de estreia do Baleia. Pode falar um pouquinho sobre ele?
Claro, o “Quebra Azul” é uma combinação da exploração de grupo, que começamos a fazer desde o início da banda. Nós não sabíamos muito o quê iriamos fazer, que rumo iriamos tomar; nós estávamos apenas fazendo as músicas, que se diferem muito em estilos, de certa forma, e, ao mesmo tempo, estão amarradas por algum tipo de proposta que eu não sei explicar exatamente. Nós buscamos uma coisa que seja nossa, genuína. Então, “Quebra Azul” acabou sendo um disco meio desamarrado de um gênero específico e que tem uma explosão, algo de atirar para todo lado, que tem o que nós gostamos, dos caminhos diversos, de juntar os gêneros. É um disco que, no final das contas, nos ajudou muito a entender o caminho que queremos tomar e que ditou muito o lugar para onde estamos evoluindo, agora, no segundo disco. O segundo disco, que lançaremos provavelmente em novembro, é um “Quebra Azul” mais seguro, porque nós estamos mais seguros, mais com os pés no chão. É um disco mais sólido e confiante. Ainda não tem nome (sorri). Estamos tentando descobrir.

Como foi gravá-lo ao vivo no Maravilha8?
O ao vivo foi uma experiência muito legal, pois as músicas adquiriam uma roupagem muito diferente do álbum em estúdio, que foi gravado na Biscoito Fino. Nós queríamos registrar essa dimensão das músicas, pois nós gostamos muito do resultado; ficou mais rock, mais pesado e, assim, muito interessante. Muita gente não tem a oportunidade de ir a um show nosso e nós queríamos gravar, de uma forma legal, a experiência do show para as pessoas, também, verem esse outro lado da banda, que é diferente. Baleia ao vivo é bem diferente do que é Baleia em estúdio.

Como que nascem as letras que parecem dizer de tantos lugares, de tantas coisas diferentes?
A letra da música “Jiraiya”, por exemplo, quem escreveu foi o Cairê. O nome vem do desenho japonês, do super-herói. Eu e a minha irmã escrevemos a maior parte das letras, mas elas nascem de todos da banda. “Sangue do Paraguai” é do baterista. Com as letras, nós fomos criando um universo da banda. Nós não costumamos fazer letras muito diretas, sobre coisas cotidianas; estamos sempre explorando coisas mais poéticas e filosóficas. Nós gostamos de falar de coisas maiores e não sobre “Quando você me deixou/E não sei o quê” (sorri).

Baleia vem pelo Vaca Amarela, na sua primeira apresentação em Goiânia. Qual o valor, a importância dos festivais de música independente para vocês?
Para nós, é o melhor ambiente para apresentar o nosso trabalho, principalmente em festivais como o Vaca Amarela. Nós percebemos que existe uma força tão grande, um movimento artístico, que está crescendo cada vez mais no Brasil, no meio independente. Tem gente que propõe saídas para a música brasileira, que está estagnada. Festivais assim são os melhores, pois junta público de todas as bandas e as bandas trocam entre esses públicos e os públicos entre si e as bandas também trocam entre si. E, assim, começamos a construir este cenário tão importante, que é o cenário da música independente brasileira. Não é um mercado grande, mas é um mercado médio e que existe fortemente nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, ainda é um pouco frágil. Portanto, os festivais são um presente para nós. Eles são o lugar onde queremos estar, onde queremos fazer o nosso melhor.