Ex-governador de Goiás traduz livro de filosofia inédito em língua portuguesa

Irapuan Costa Júnior escreve ao Opção Cultural para explicar como foi o processo de tradução de “First Principles”, livro do filósofo inglês Herbert Spencer

Engenheiro de formação, Irapuan Costa Junior passou exitosamente pela política e, em 2014, lançou o livro de contos “Teimosas Lembranças”

Engenheiro de formação, Irapuan Costa Junior passou exitosamente pela política e, em 2014, lançou o livro de contos “Teimosas Lembranças”

Traduzir um livro não é tarefa simples, sobretudo quando se trata de um filósofo, pois exige um trabalho laborioso e de vasto conhecimento intelectual. E é isso o que mostra o ex-governador de Goiás Irapuan Costa Júnior ao traduzir o filósofo inglês Herbert Spencer. “Primeiros Princípios”, publicado pela Cânone Editorial, é o nome do livro, cuja renda do lançamento, a ser realizado no dia 7 de dezembro no Palácio Pedro Ludovico Teixeira, será destinada ao Hospital Araújo Jorge.

Na oportunidade, Irapuan lança também o livro de crônicas “Jogo da Memória — lembranças, livros e história”. E é para falar de sua tradução que o escritor e articulista do Jornal Opção escreve, nesta semana, para o Opção Cultural.

Irapuan Costa Junior
Especial para o Jornal Opção

O principal culpado, nesta história da tradução para o português do livro “Primeiros Princípios”, de Herbert Spencer, é o novelista americano Jack London. Em Goiás, minha geração, quando chegou à adolescência, não conheceu a televisão, que só apareceu por aqui no início dos anos 1960. Era na leitura, principalmente, e ainda no rádio e no cinema que nos aculturávamos e nos divertíamos — os que éramos jovens nos anos de 1940 e 1950.

Acontece algo comum, que o leitor deve ter já experimentado: muitas vezes, lê-se na juventude um livro pelas aventuras que narra e o que nele então nos atrai são estas passagens ricas em peripécias, em regiões isoladas ou extremas; quando adultos, voltamos a lê-lo, agora com outra visão, encontrando lições filosóficas, morais e existenciais que antes não havíamos percebido.

Os jovens de minha geração foram empolgados pelas narrativas de Jack London, principalmente as da corrida do ouro no Alaska, onde os perigos da natureza, dos animais e dos outros homens estavam sempre à espreita dos intrépidos mineradores, em meio à solidão gelada, que nós, tropicais, apenas podíamos imaginar ou contemplar, de maneira imperfeita, nos filmes em preto e branco. Amadurecido, continuei a lê-lo. Ou passei a relê-lo, agora com outra visão, mais aprofundada, como costuma acontecer.

Nessas releituras, uma constatação: London usava citar pensadores ou escritores que o haviam influenciado em seu trabalho narrativo e um deles, que aparecia com frequência, era Herbert Spencer, por seu livro “First Principles”. Isso me fazia curioso e, em meados da década de 1960, resolvi ler esse livro, tão valorizado por um dos meus escritores prediletos. O leitor mais jovem não imagina hoje o que era então encontrar uma publicação mais antiga. Antes da aparição da internet, com seus sites de busca e publicidade, para achar um livro, tínhamos que garimpar nas livrarias, consultar por telefone ou então enviar cartas, que muitas vezes sequer mereciam resposta.

Buscando o livro, gastei horas nas livrarias e nos sebos cariocas e, sempre em vão, percorri quilômetros de estantes. Em uma ou outra, encontrei velhos exemplares do original em inglês, que não me dispus a ler, por falta de fluência na língua. Queria mergulhar no livro e não apenas passar por sua superfície. Fiquei bastante intrigado, pois já sabia que a publicação que eu buscava era um “best-seller” na Europa em fins do século XIX e isso só aumentava meu desejo de encontra-lo e lê-lo. Fiz algumas cartas para as principais livrarias de São Paulo, com resultado também decepcionante: nenhuma delas conhecia tradução do livro de Spencer para o português e apenas uma mencionava uma tradução para o Francês.

 Jack London, pseudônimo do novelista estadunidense John Griffith Chaney, descreveu inúmeras aventuras em suas obras, mas nunca escondeu ser leitor assíduo de filosofia. Entre seus autores favoritos, o inglês Herbert Spencer, filósofo que influenciou uma geração

Jack London, pseudônimo do novelista estadunidense John Griffith Chaney, descreveu inúmeras aventuras em suas obras, mas nunca escondeu ser leitor assíduo de filosofia. Entre seus autores favoritos, o inglês Herbert Spencer, filósofo que influenciou uma geração

Lembrei-me que um companheiro de república estudantil, Carlos Craveiro, tinha no Rio um parente filósofo e professor de Filosofia, chamado Ívano Craveiro de Sá, e pedi que me apresentasse, pois pretendia me informar com ele. Por coincidência, o professor se encontrava de férias em Goiânia e fomos, então, apresentados. Ívano era uma pessoa agradabilíssima, um refinado intelectual, que logo me esclareceu o motivo do fracasso de minhas buscas: o livro de Spencer, um dos maiores sucessos de vendagem, primeiro na Inglaterra, depois em toda a Europa e posteriormente nos Estados Unidos, não havia até então sido traduzido para o português, não sabia o porquê, embora conhecesse versões em francês, italiano e espanhol.

Ívano conhecia bem Spen­cer e mencionou a tradução, para o português, de outro trabalho dele: “Do Progresso, suas leis e sua causa”. Perguntou-me se eu lia em francês, pois poderia conseguir um volume do “First Principles” nessa língua em uma livraria especializada no Rio. Nem as traduções espanholas eram encontradas no Brasil e, só em meses chegariam, se encomendadas.

Com viagem marcada para o Rio, lá me encontrei com Ívano, dias depois. Com seu cavalheirismo, que não esqueço, me fez presente do ambicionado livro, que guardo até hoje. Era uma tradução da segunda edição do “First Principles”, feita pelo filósofo francês Émile-Honoré Cazelles. Ívano me contou que Cazelles, tendo lido o livro de Spencer, quando do lançamento, resolveu imediatamente traduzi-lo para o francês e, nesse sentido, escreveu para o autor. Spencer pediu a ele que aguardasse a segunda edição, que viria com algumas correções e alterações. Era essa a tradução que eu tinha em mãos e que comecei a ler naquele mesmo dia. Embora outras edições tivessem saído na Inglaterra, a segunda, aquela que eu agora possuía, quase não havia sofrido alterações posteriores.

Spencer superou minhas expectativas. Abordava com facilidade cristalina os mais diversos enigmas que se fazem presentes em nossa consciência quando amadurecemos para a existência, sejam eles do universo, da ciência, da religião ou da vida e da morte. Iluminava alguns recônditos da mente, até então obscuros. Mostrava os limites da capacidade do conhecimento. Não era um livro de filosofia para filósofos, mas um elaborado livro de filosofia para todos.

Lê-lo não eliminou a indagação da razão de sua não tradução para o português. Pelo contrário, avivou-a. Mas ela permaneceu fora de qualquer explicação. Pode ser que se deva à injusta hostilidade que Spencer enfrentou, como “darwinista social”; pode ser que se deva à deficiência intelectual de nossa língua, que levou um velho professor meu (de Geologia, mas um eclético intelectual, que inclusive citava Spencer) a classificá-la certa vez como “túmulo do conhecimento humano”, pela falta de livros técnicos em português — algo que amargávamos na escola de engenharia. O certo é que, brasileiros e portugueses, estávamos em falta com nossos estudantes e nossa cultura.

Em vez de tentar explicar essa falha de 150 anos, achei melhor eliminá-la, tão logo me julguei temporalmente hábil a fazê-lo, e resolvi traduzir o livro para o português. É grande a responsabilidade de traduzir um clássico da envergadura de “First Principles”, ainda mais considerando que nunca fui tradutor, mas a tarefa foi facilitada pela formação técnica que obtive na escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pela experiência do magistério superior e pela atividade jornalística e redacional. Foi trabalhoso, mas gratificante.

Não há trabalho perfeito e algumas falhas hão de surgir, até porque me vali da tradução espanhola (do professor José Irueste, da Universidade de Granada), sobre a segunda edição de Spencer, a par do original britânico dessa mesma edição. E a tradução espanhola apresenta algumas divergências (de pequena monta, na verdade), com o original, que me dispus a descobrir e eliminar no texto em português. Classifico-as, na introdução do livro como “pecadilhos”, apenas, e procurei fazer o texto em português o mais fiel possível ao texto original, ao longo de um elaborado cotejo.

Um parêntesis: como os tempos mudaram! Durante a tradução, consegui, pedindo pela internet, várias traduções do “First Principles”, nas mais variadas línguas, bem como edições posteriores em inglês. Tive, para essa tradução, a inestimável ajuda de Euler de França Belém, que leu e corrigiu a parte inicial da mesma, e me estimulou a continuá-la. Também minha mulher, Suely Costa, foi de muita valia, tendo, por mais de uma vez, lido todo o livro, já traduzido, em busca de erros ou impropriedades.

Bruno Costa, da Editora Ex Machina, que o editou, é um cidadão incansável: percorreu todo o texto, encontrando as falhas que me haviam escapado e fez com que agregássemos notas de rodapé que melhor o esclareciam e cuidou de toda a parte estética e gráfica. Não fosse por ele, teríamos um livro que não estaria à altura do cuidado e da exatidão conceitual que Spencer sempre cultivou.

Essa tradução independente, como deixo bem claro na nota de introdução, não foi feita por encomenda, nem visa lucro; nasce do prazer intelectual; usa o domínio público em que se situa a obra e tem em vista os estudantes de filosofia, professores ou quaisquer pessoas que queiram ler “Primeiros Princípios” em português. Falo em “quaisquer pessoas”, pois o livro é de fácil e útil leitura. Trata de temas como o que podemos com nossa mente compreender e do que se encontra além de nossa compreensão; de Ciência e Religião e do conflito entre uma e outra.

Religiosos e ateus encontrarão nele bons ensinamentos e me atrevo mesmo a dizer que, compreendidos esses ensinamentos, o religioso será um melhor religioso, como o ateu será, então, um ateu mais compreensivo de sua não crença e mais indulgente com as crenças alheias. E todos verão com uma profundidade maior aquilo que existe no universo, na Terra e em nosso interior.

2 respostas para “Ex-governador de Goiás traduz livro de filosofia inédito em língua portuguesa”

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