Estrelas que brilharam atrás das telas

Filme “Mar de Rosas”, dirigido por brasileira durante a ditadura, aborda questões sociopolíticas, psicanálise e rompe com valores da família tradicional

A flexibilização na política ditatorial do Brasil, resultante do golpe civil-militar de 1964, começou no final de 1970. Isso possibilitou maior visibilidade e, consequentemente, maior força dos grupos que se opunham ao regime. As produções artísticas, como reflexos do que acontece na sociedade, encontraram nessa oportunidades na abertura e, nesse momento, as mulheres brasileira consolidaram a atuação no mundo cinematográfico —  não como atrizes, mas como técnicas.

Com diversidade cada vez maior na direção de filmes, as temáticas começaram a ganhar outras abordagens. Algumas cineastas desse período, como Vera Figueiredo (Feminino Plural, 1976), Ana Carolina (Mar de Rosas, 1977) e Tizuka Yamazaki (Parahyba, mulher macho, 1983) se tornaram nomes de peso para representar a cultura brasileira, as minorias e outras questões políticas. Às vezes com abordagens teatrais, irônicas e provocadoras, elas trouxeram também críticas aos papéis sexistas, ao patriarcado e ao comportamento feminino.

Em entrevista ao Canal Brasil, Ana Carolina afirmou que não acredita na ideia de “olhar feminino”, já que a categorização serve, muitas vezes, para marginalizar determinadas produções artísticas. “Eu estou submetida à condição feminina, mas não existe, na minha opinião, o olhar feminino, a alma feminina. Para fazer uma reflexão sobre poder, o ponto de vista não é feminino, mas da minoria”.

Mar de Rosas

Ana Carolina Teixeira Soares nasceu em São Paulo, 1943, formou-se em medicina antes de ingressar na carreira cinematográfica e deixou seu nome registrado em diversas ficções e documentários. Ao explorar valores tradicionais na trilogia Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982) e Sonho de Valsa (1986), a cineasta propõe uma discussão sobre o contexto político-social no qual estava inserida e quebra paradigmas sobre o comportamento feminino.

No primeiro longa-metragem da trilogia, o road movie “Mar de Rosas”, Ana Carolina conta a história da família composta por Felicidade (Norma Bengell), Sérgio (Hugo Carvana) e a filha do casal, Betinha (Cristina Pereira). Logo na primeira cena, a câmera faz um close na personagem de Cristina urinando, uma amostra das contravenções que estariam por vir.

Comentários como “essa liberdade já virou anarquia, eu no seu lugar caçava essa menina”, “quando penso em ‘coletivo’ não deixo de pensar em morte” trazem para o filme alguns dos pesares deixados pela ditadura.

Jogo familiar

Durante o filme, a rivalidade entre a personagem Betinha e sua mãe, Felicidade, é nítida. Enquanto a primeira ataca os “bons modos”, a segunda procura se adaptar a eles e submeter-se aos homens. Por isso a perseguição da mãe pela filha pode ser interpretada como um conflito de ideias ou a vontade de romper com os valores opressores, principalmente os que ditam o comportamento comedido das mulheres.

Ana Carolina  também insere o conceito da teoria freudiana de, metaforicamente, “matar os pais”. Essa ruptura de Betinha com a constituição falida de sua família tradicional requer que ela os mate para seguir os seus novos valores baseados na liberdade. A teatralização e os exageros transformam as metáforas em fatos, já que assassinato e tentativas de assassinato fazem parte do “jogo familiar” da trama.

Outras abordagens da psicanálise fazem parte da construção da narrativa, como o carinho da menina com o pai em contraste com a aversão pela mãe, uma referência ao Complexo de Electra . Na mitologia grega, Electra mata sua mãe para vingar o assassinato do pai, situação semelhante com a do filme.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.