Estreia ‘Ópera Secreta’, novo filme de premiada documentarista goiana

“Ópera Secreta”, novo filme de Viviane Louise, destaca poder de comunicação da música

 

A solidão e o isolamento das pessoas na sociedade contemporânea e o poder de comunicação da arte são o tema de Ópera Secreta,  novo curta-metragem de Viviane Louise, que também marca a estreia da diretora goiana no campo da ficção. O curta tem como protagonista o jovem Alexandre (Guilherme Rodrigues), um rapaz do interior de São Paulo que veio para Goiânia para estudar Medicina. Sem amigos e parentes na capital e muito tímido, ele tem uma rotina exclusivamente voltada para os estudos e passa grande parte do tempo trancado no seu apartamento de quarto e sala no Centro da capital, isolado do mundo exterior.  Esse cotidiano, no entanto, sofre um abalo quando Alexandre passa a escutar uma mulher na vizinhança que canta árias como Habanera, da ópera Carmen, de Bizet.

Seduzido pela potência e beleza daquela voz, Alexandre acaba apaixonando-se por essa mulher sem rosto que embala as suas noites solitárias. Na tentativa de descobrir quem é ela, o estudante se vê obrigado a sair do seu isolamento e começa a interagir com outros personagens, como  um morador de rua (Rodrigo Cunha), que também fica fascinado pelo canto da artista desconhecida, além de outras vizinhas e da síndica do prédio onde mora, as quais, por seu turno, se sentem incomodadas por essa música que soa tão incomum aos seus ouvidos. No final da sua jornada, Alexandre descobre que a musa que idealizara é uma mulher madura (Valéria Braga), tão solitária quanto ele, mas que ainda conserva seu poder de sedução.

A pré-estreia do curta está programada para o início do próximo ano, assim que o Cine Cultura, que permanece fechado por conta da pandemia, reabrir suas portas ao público.  Para realizar o projeto, que foi bancado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) de Goiás, Viviane Louise, por meio da sua produtora Armazém Du Film, se cercou de profissionais experientes. Além do premiado ator Rodrigo Cunha e da atriz e diretora Valéria Braga, que não só atua no filme, mas também foi responsável pela preparação do elenco, a produção contou com a participação muito especial da cantora lírica Ângela Barra, que empresta a sua voz à cantora misteriosa do curta, interpretando as árias Habanera (Carmen), Quem Sabe (Carlos Gomes) e Ave-Maria (Gounod).

Rodrigo e Valéria  contracenam com o estreante Guilherme Rodrigues, um músico que foi selecionado para viver o protagonista depois que o ator inicialmente escalado para interpretar o personagem teve que ser dispensado às vésperas das gravações por questões de segurança sanitária, uma vez que um membro da sua família havia manifestado sintomas da Covid-19. Completam o elenco as atrizes Eliza Araújo, Simone Dezzen e Lara Carvalho, no papel das vizinhas do estudante de Medicina.

Já o roteiro é assinado pela cineasta Jaqueline Farid, com diálogos de Farid Tavares, que também responde pela direção de produção.   A direção de fotografia é de Paulo Rezende; a produção executiva, de Paula Vandenbussche, e a montagem, de Reinaldo Volpato. A equipe de produção do filme contou ainda com  Wagner Gonçalves (direção de arte), Vitor Pimenta (som direto), Zele Volpato (desenho de som e mixagem) e Antônio Maciel (assistente de produção).

Filmagens

As filmagens de Ópera Secreta ocorreram no mês de agosto de 2021, durante quatro dias,  e tiveram como cenário dois apartamentos em prédios vizinhos situados na Rua 16, no Centro de Goiânia, que também serviu de palco para algumas tomadas externas. A cantora Ângela Barra cedeu o apartamento onde vivem os seus pais, também localizado no Centro da capital, para servir de ambiente da cena final do filme, onde se pode ver um imponente piano na sala de estar. Já as sessões de gravação das árias foram realizadas no Centro Cultural Martim Cererê. “A Angela foi extremamente generosa. Sua voz continua muito potente. O resultado ficou muito bom”, elogia a diretora Viviane Louise.

Documentarista premiada, diretora de filmes como Anjo Alecrim (2005), que enfoca a trajetória do violeiro e cantador Domá da Conceição; Café com Pão Manteiga Não (2007), sobre a história da estrada de ferro em Goiás;  O Vento da Liberdade (2011), cujo tema é a vida da comunidade cigana no Estado, e A Dama do Cerrado e o Exército de São Francisco (2015),  sobre a vida e a obra da artista Yashira, Viviane Louise há muito tempo tinha o projeto de filmar uma narrativa ficcional, embora, nos seus projetos anteriores,  tenha sempre trabalhado com uma linguagem híbrida, entre o documentário e a ficção. A oportunidade surgiu quando Jacqueline Farid e Farid Tavares lhe apresentaram o roteiro de Ópera Secreta. Atualmente, ela se dedica à produção de outra ficção, mas em longa-metragem: o filme Joana Boba, que terá como cenário a cidade de Goiás.

Para Viviane, a música é o personagem principal do filme, por seu poder de tocar e aproximar as pessoas. Na seleção das árias, ela fez questão de incluir Quem Sabe, de Carlos Gomes, não só para garantir uma presença brasileira na trilha sonora, mas também como forma de homenagem a seu pai, que adorava cantar boleros e era um grande apreciador desta canção em particular. Ao lado da música, Viviane chama a atenção para outros temas que o filme explora, seja de forma mais evidente, seja de forma mais sutil: a solidão urbana e a falta de comunicação entre os indivíduos, problemas da contemporaneidade que se agravaram em tempos de pandemia; a situação dos moradores de rua, exemplificada pelo personagem vivido por Rodrigo Cunha, e a própria questão da violência contra as mulheres, uma vez que a figura mítica da Carmen da ópera de Bizet foi vítima de feminicídio.

A atriz e diretora de elenco Valéria Braga, parceira de longa data da diretora Viviane Louise,  conta que foi um desafio trabalhar com os atores no contexto da pandemia, observando todos os cuidados sanitários. “O trabalho artístico requer o contato humano. Então, tivemos de nos adaptar a essas novas condições.” Sobre os personagens, ela afirma que, como as pessoas na sociedade contemporânea, eles vivem “em bolhas, cada um com sua verdade, com sua insegurança”. Apesar da pequena participação na história, Valéria destaca que a personagem que interpreta, a misteriosa cantora lírica, carrega uma profunda complexidade. Por ser uma pessoa deslocada, que não se adapta à época atual, “ela criou um tempo próprio para viver”, observa.

Premiado internacionalmente pelo espetáculo Espécie, com direção de Valéria Braga, Rodrigo Cunha já tinha atuado em outro filme de Viviane, O Vento da Liberdade, em que interpreta um cigano. Ele afirma ter gostado muito da experiência de ter participado de Ópera Secreta e, para compor o papel do morador de rua que vive no curta, fez um exercício de observação dos mendigos que perambulam pelo Centro de Goiânia, seu modo de falar, seus gestos. Na sua opinião, seu personagem, apesar de viver na rua, não é uma pessoa frustrada e triste com a vida e também é cercado por um certo mistério, assim como a cantora da trama. 

Referência no canto lírico em Goiás, a cantora e professora Ângela diz que foi “uma grata surpresa” ter recebido o convite para participar do curta. Habituada aos palcos e à sala de aula, ela nunca tinha integrado antes um projeto na área do audiovisual. Ao emprestar sua voz à cantora do filme, Ângela conta ter realizado também um sonho antigo: cantar a ária Habanera, de Carmen. Por ser soprano, Ângela nunca foi foi convidada para interpretar as árias da sedutora cigana da ópera, que exigem um timbre de mezzo-soprano. Contudo, Ângela considera que sua voz hoje, mais madura e encorpada, alcançou a densidade e o volume necessários para o papel e ficou muito satisfeita com o resultado. Para ela, mais do que a música em si, o que seduz no curta Ópera Sagrada é a voz feminina que tanto encanta o protagonista, uma “voz mágica, como um feitiço”.

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