Este corpo que não te pertence: o Conto da Aia e o machismo nosso de cada dia

Escrito em 1985, romance distópico da canadense Margaret Atwood voltou a causar alvoroço com lançamento da série televisiva, que chegou à sua segunda temporada. História vislumbra um futuro inquietante, que revela muito sobre comportamentos com os quais ainda lidamos em nossa sociedade, como a objetificação do corpo feminino

“O Conto da Aia” na versão para TV: série chegou a sua segunda temporada, ainda mais impactante | Foto: Divulgação

Durante algum tempo houve uma linha de raciocínio em vários campos do conhecimento humano, inclusive no território da historiografia, em que se acreditava que a humanidade percorria um caminho linear e ascendente rumo ao um utópico futuro permeado pelo progresso e pela evolução em todos os sentidos: material, social e espiritual. Trata-se Progressismo, um conceito que eclodiu com o advento do Iluminismo, mas bastante associado também ao Evolucionismo e o Positivismo. A própria disposição cronológica dos períodos históricos seria uma clara demonstração deste percurso: a Pré-História, História Antiga, Medieval, Moderna e, por fim, nossa contemporaneidade, pós-modernidade ou qualquer outra nomenclatura que se queira adotar. No âmbito individual, essa compartimentação da vida em etapas encontra subterfúgio no próprio desenvolvimento orgânico do organismo: nascemos, damos os primeiros passos e crescemos. Adquirimos habilidades físicas, mentais e mais conhecimento a cada ano de estudo. Surgem conquistas pessoais e profissionais. Vamos “melhorando” à medida que o tempo vai passando. Pelo menos até uma certa época….

Seguindo essa lógica, o fluxo progressista também permeia as relações sociais, com a conquista e ampliação dos direitos humanos, civis, a defesa de bandeiras de grupos minoritários. Ainda que com que com alguns tropeços, ou mesmo alguns intervalos, essa ascensão em direção ao eldorado humano seria inexorável, segundo essa premissa. Esse pensamento já não encontra tanto vigor, principalmente após a revolução epistemológica causada pela Escola dos Annales, e é contraposto por vozes dissonantes, a partir do pressuposto de que essa linearidade do tempo seria uma “ilusão”, bem aos moldes daquela mencionada por Pierre Bourdieu. Os indivíduos têm a necessidade de tecer narrativas que atribuam um sentido maior à sua existência terrena, impregnada pelo vazio existencial que advém de sua própria finitude. Daí a necessidade de organizar o tempo e os acontecimentos de forma linear, tecendo uma trama que conduza a todos nós a um “grand finale” que faz com que tudo faça sentido.

A despeito de termos ciência deste artifício da ilusão biográfica, estas noções de progresso e de linearidade do tempo, são tão profundamente introjetadas em nossa concepção de mundo e em nossa percepção enquanto indivíduo, que deparar-se com situações tachadas como “regresso” causam profunda estranheza e incômodo. Ficamos espantados com alguém que não queira, em pleno 2018, numa época de uma sociedade multiconectada, fazer uso de celular ou não queria ter um perfil no Facebook, por exemplo.

Imagine então deparar-se com um cenário totalmente anacrônico, com indivíduos que parecem terem sido pinçados de uma sociedade inegavelmente arcaica, desprovida de todas as conquistas e garantias alcançadas nas sociedades ditas democráticas? Pois é com este contexto que nos deparamos e para o qual somos tragados no romance “O Conto da Aia”, da escritora canadense Margaret Atwood. Escrito em 1985, o livro voltou a causar alvoroço especialmente no ano passado, com o lançamento da série televisiva inspirada na obra. A repercussão foi tamanha, que o seriado ganhou uma nova temporada e segue “causando” entre o público.

O incômodo que a história gera provém do fato de que ela fala do futuro, mas não daquele preconizado a rigor pela ficção científica, que em seu balaio já trouxe ao nosso imaginário desde os carros voadores de “Os Jetsons”, os androides de “Blade Runner”, a inteligência artificial de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Macacos supra-humanos, alienígenas fazendo contato… Nada disso foi contemplado pela imaginação de Margaret. O futuro, aos olhos desta autora, é um futuro que “regride”. A história se passa na fictícia na República de Gileade, que surge das ruínas do que outrora havia sido os Estados Unidos da América, devastado por uma obscura guerra, da qual não se tem informações muito concretas, que pode ser real ou não. É apenas um conflito entre um desconhecido “eles” contra “nós”, que precisa recorrer a todos os meios possíveis para “restaurar a ordem”.

Escritora Margaret Atwood | Foto: Reprodução

Em meio a este cenário bélico, um ataque terrorista culmina no massacre do presidente norte-americano e da maioria do Congresso dos Estados Unidos. Esse caos engatilha o nascimento de um movimento fundamentalista de reconstrução cristã, pautada por regras do Antigo Testamento, autointitulado “Filhos de Jacó”, que lança uma revolução e suspende a Constituição dos Estados Unidos. O fundamentalismo se desdobra nos vários tentáculos da opressão: execuções, leis suntuárias, queima de livros, escravidão, tortura, censura, roubo de filhos e por aí vai. A história nos é contada sob a perspectiva testemunhal de Offred, uma aia que vive sob o teto do Comandante Waterford e “A” Esposa, Serena Joy.

Na República de Gileade, os “cidadãos” são desprovidos de qualquer individualidade, especialmente a classe das aias. Elas não passam de uma propriedade do sistema ou, como é bem definido por uma delas em uma das passagens do livro, “são úteros com pernas”. O Conto da Aia leva ao extremo a objetificação do corpo da mulher. Corpo este que não lhe pertence. As aias são mulheres que foram perseguidas, aprisionadas e doutrinadas para servirem ao novo sistema, com um único propósito: copularem com seus Comandantes e procriarem, permitindo assim a sequência do regime e da própria humanidade, que durante a tal “guerra”, se viu praticamente dizimada pela ameaça radioativa.

São mulheres férteis que irão gerar filhos para as Esposas; estas, dignas o suficiente para estarem ao lado dos maridos, mas incapazes de conceber uma criança. As aias não possuem qualquer liberdade, a não ser as migalhas concedidas por seus superiores. São sombras que vagam pelas ruas, todas iguais, com suas túnicas vermelhas e tiaras brancas. Completam ainda essa sociedade as Marthas, as Tias, os Anjos e os Olhos, estes responsáveis por coibir quaisquer elementos subversivos, que se articulam em um movimento paralelo de resistência, o Mayday.

O Conto da Aia
Autor: Margaret Atwood
Editora: Rocco
Preço: R$ 27,00

Ao contrário do que ocorre no livro, o roteiro para a TV nos dá a sensação de que há uma distância temporal bem menor entre nossa temporalidade e o futuro de Atwood, pois na série há a presença de situações e elementos que estabelecem uma familiaridade maior com nossos dias. Uber, Tinder, feminismo e causa LGBT contextualizam os episódios e colocam o espectador diante da seguinte dúvida: mas será possível isso? Chegaríamos a tal ponto, a tamanho retrocesso?

A distopia de Atwood nos parece até mesmo inverossímil em primeiro momento, mas utilizando as palavras da própria Offred, você não percebe que a água está fervendo com o aumento gradual da temperatura. É de forma sutil que a barbárie se instala. É em pequenos gestos. É nas “brincadeiras”. Brincadeiras tais qual a que serviu como desculpa estapafúrdia para um grupo de (aff!) brasileiros assediar e submeter uma repórter russa nesta Copa do Mundo a uma situação extremamente vexatória, com comentários absolutamente constrangedores sobre suas partes íntimas. Mais uma vez, a dinâmica foi a mesma: homens que se aproveitaram de uma condição desigual (neste caso, a falta de entendimento da russa sobre o idioma português) para expor uma mulher à humilhação.

O episódio na Rússia foi só mais um. O mais recente, o mais em evidência no momento, nem por isso menos emblemático, pois revela que, por mais que tenhamos progredido em alguns setores, a civilidade infelizmente não marcha na mesma velocidade que o aprimoramento empírico. Um comportamento que deveria estar totalmente superado, anacrônico, mas que na verdade mostra-se presente, revelando nossa faceta nada evoluída. O grau de boçalidade ainda é perigosamente permissivo a situações de desrespeito, preconceito e subjugação. Justamente a subjugação que desnivela relações de poder em sociedades totalitárias, reais ou imaginárias.

Outra conclusão à qual podemos chegar é que, a despeito de todo um histórico de luta por afirmação de seus direitos e de seu posicionamento enquanto agente social, as mulheres são ainda um dos grupos que mais sofrem na pele as consequências desse pensamento retrógrado. Dada as devidas proporções, tal qual no referido romance, somos, ainda, constantemente acopladas em castas de Aias, Esposas e Marthas. Somos estereotipadas, julgadas, objetificadas, humilhadas, castradas. É o peso de nossa condição feminina, que a despeito de qualquer “evolução”, ainda faz com que deparemos com esses lampejos de uma a República de Gilead que está no meio de nós. Sob os olhos ‘deles’.

Serviço:

Livro: O Conto da Aia

Autora: Margaret Atwood

Editora: Rocco

Preço: R$ 27,00

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Catolico

É possível uma Aia ser feliz?