Estamos nos afogando em informação e famintos por sabedoria
23 fevereiro 2026 às 12h23

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Abílio Wolney Aires Neto
A reflexão que dá origem ao presente artigo surgiu a partir da leitura de uma entrevista concedida por Zygmunt Bauman ao jornal O Globo, na qual o sociólogo, evocando uma observação do biólogo Edward O. Wilson, assinala que a humanidade contemporânea se encontra “afogando-se em informação e faminta por sabedoria”. O conteúdo dessa entrevista mostrou-se particularmente sugestivo no contexto da abertura de mais um semestre da Faculdade de Filosofia, momento naturalmente propício à retomada das grandes questões acerca do conhecimento, do sentido e da formação humana. A frase, simples na formulação e profunda nas implicações, revela-se capaz de condensar uma das mais agudas tensões da experiência contemporânea: a coexistência entre a abundância quase ilimitada de dados e a crescente dificuldade de transformá-los em compreensão significativa, orientação moral e visão de conjunto.
O século XXI inaugurou uma condição inédita na história humana: jamais se produziu, armazenou e circulou tanta informação. Redes digitais, bancos de dados, sistemas de comunicação instantânea e dispositivos móveis converteram o conhecimento em fluxo permanente, disponível a qualquer hora e em qualquer lugar. Entretanto, essa abundância não se traduziu em maior compreensão do mundo, tampouco em amadurecimento moral ou civilizacional. Ao contrário, observa-se frequentemente uma sensação difusa de desorientação, como se a multiplicação de conteúdos tivesse superado a capacidade humana de assimilá-los. A dissociação entre informação e sabedoria emerge, assim, como fenômeno estrutural do nosso tempo.
A informação, instantânea e descartável, satisfaz a lógica da velocidade; a sabedoria, lenta e cumulativa, exige duração. O conflito entre ambas reflete a transição de uma modernidade sólida — fundada na permanência e na estabilidade institucional — para uma modernidade líquida, marcada pela fluidez, pela volatilidade e pela ausência de referenciais duradouros. Nessa nova configuração histórica, vínculos, instituições e identidades tornam-se provisórios; o tempo fragmenta-se em instantes de consumo; o conhecimento deixa de ser processo de formação do sujeito para converter-se em produto de uso imediato. A informação circula como mercadoria simbólica: consome-se, substitui-se, esquece-se, ao passo que a sabedoria pressupõe memória, experiência, interiorização e responsabilidade — dimensões incompatíveis com a pressa e com a lógica da atualização incessante.
Esse cenário já poderia ser intuído à luz dos clássicos das ciências humanas, que visitamos no Doutorado do IDP. Como às vezes faço em meus artigos, imaginei por exemplo que Émile Durkheim talvez reconhecesse nessa saturação informacional uma nova forma de anomia, na qual o excesso de estímulos impede a interiorização de valores comuns capazes de sustentar a coesão social. Max Weber veria o aprofundamento do processo de racionalização que tornou o mundo tecnicamente administrável, mas espiritualmente desencantado, incapaz de responder às questões últimas de sentido. Karl Marx, na sua visão particular, poderia interpretar a informação como mercadoria avançada, inserida numa economia que transforma até a atenção humana em valor de troca, produzindo novas formas de alienação simbólica.
No plano filosófico, Hannah Arendt advertiria que o acúmulo de dados não equivale ao exercício do pensamento, pois pensar exige pausa e julgamento, não mera reação contínua. José Ortega y Gasset talvez identificasse nesse quadro a radicalização da figura do “homem-massa”, tecnicamente habilitado, porém culturalmente desenraizado. Walter Benjamin reconheceria o declínio da experiência partilhada, substituída por informações efêmeras que já não se sedimentam em narrativa significativa. Jürgen Habermas analisaria a situação como colonização do mundo da vida por sistemas técnico-econômicos, nos quais a comunicação deixa de buscar entendimento para se tornar circulação estratégica de conteúdos. E Michel Foucault perceberia que a proliferação discursiva não elimina o poder, mas o reorganiza em novas formas de controle, classificação e normalização.
A revolução digital intensificou esse processo ao instaurar uma verdadeira economia da atenção, na qual o valor das mensagens não repousa na sua verdade, mas na sua capacidade de circular. Pensar torna-se mais raro do que reagir; compreender exige esforço incompatível com a dinâmica da dispersão permanente. A avalanche informacional cria a ilusão de conhecimento, mas frequentemente impede sua sedimentação. A sequência clássica — informação, conhecimento, sabedoria — parece invertida, confinando o sujeito ao primeiro degrau.
Paradoxalmente, quanto mais conectadas as pessoas estão, mais fragmentada se torna a compreensão do real. A informação digital aproxima dados, mas separa narrativas; multiplica opiniões, mas dissolve critérios. A sabedoria exige continuidade, maturação e confronto com o limite, experiências que não se comprimem no ritmo da instantaneidade. O sujeito contemporâneo não percorre caminhos de compreensão; ele salta entre estímulos, acumulando impressões sem formar sínteses.
As consequências manifestam-se de modo particularmente agudo no campo ético. A informação oferece meios; a sabedoria orienta fins. Sem ela, cresce o relativismo moral, enfraquece-se a responsabilidade e decisões passam a ser tomadas por impulsos momentâneos ou pela pressão do ambiente informacional. Estruturas que antes educavam o julgamento — tradição, comunidade, convivência prolongada — dissolvem-se, deixando o indivíduo simultaneamente emancipado e desamparado.
Se a informação é abundante, a sabedoria deve ser cultivada deliberadamente. Ela não emerge do fluxo; nasce da resistência ao fluxo. Reabilitar a sabedoria implica reconquistar o tempo lento, restaurar a experiência reflexiva, revalorizar a herança cultural e educar para o sentido, não apenas para a funcionalidade informacional. A educação contemporânea, muitas vezes orientada para a produção de operadores de dados, necessita reencontrar sua vocação formativa: formar intérpretes do mundo.
A advertência lembrada por Bauman, originalmente formulada por Wilson, não constitui nostalgia de um passado pré-tecnológico, mas diagnóstico rigoroso de uma civilização que confundiu acesso com compreensão. Nunca soubemos tanto; nunca compreendemos tão pouco. A crise atual não é de informação, mas de interiorização; não é de dados, mas de discernimento. A humanidade alcançou o ápice da capacidade de comunicar — sem garantir a capacidade de entender. A tarefa decisiva do nosso tempo, portanto, não é produzir mais informações, mas reaprender, com paciência intelectual e responsabilidade cultural, a transformá-las em sabedoria.

