Essas mulheres maravilhosas e suas composições inspiradoras

Da terra que veio o fenômeno Marília Mendonça, continuam a brotar vários talentos; nomes dessa nova safra de compositoras podem ser ainda desconhecidos do grande público, mas definitivamente já conquistaram seu séquito fiel de fãs

“Cabou café
Cabou feijão
Cabou
Cabou o arroz
Cabou
Cabou o batom
Lá em casa cabou tudo
Não tem nada não
Só tem eu, só tem eu
Só tem eu e minha solidão”,
Bebel Roriz | Foto: reprodução/Facebook

A presença de compositoras na música brasileira está longe de ser algo inédito. Muito pelo contrário. Já em sua gênese, o estilo tem uma dívida histórica com mulheres que, ainda em tempos bem menos permissivos para a condição feminina, ousaram, lutaram e não permitiram que preconceitos pusessem limites à sua arte. Lá nos primórdios tivemos o exemplo da grande pioneira, a pianista e maestrina carioca Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935), que foi su­ces­so tanto nos saraus e salões da mú­sica erudita quanto nas ruas, com canções que caíam na boca do povo. Pendido “Ó, abre alas, que eu quero passar!”, ela passou, mas logo o caminho se fechou novamente e precisou ser constantemente desbravado por aquelas que o trilharam em seguida.

O legado de Chiquinha Gonzaga passou muito tempo no ostracismo e só foi “resgatado” muitos anos depois, com a minissérie que recontou ao público sua trajetória. Assim como Chiquinha, tivemos posteriormente casos de semelhante envergadura, como o de Ivone Lara, compositora carioca que teve de ocultar a autoria feminina dos primeiros sambas que compôs para impor, aos poucos, a obra dela nos terreiros dos anos 1930 e 1940. Pouco tempo depois, Maysa (1936 – 1977) quebrou tabus em 1956 ao gravar e lançar um primeiro álbum com repertório inteiramente autoral. São inúmeros casos ao longo da história.

Voltando à nossa contemporaneidade, o fenômeno que atende pelo nome de “Marília Mendon­ça” sacudiu o Brasil inteiro e voltou a colocar em evidência o universo das mulheres compositoras. Sim, há um grande contingente de artistas que se destacam não somente pelas interpretações, mas também por sua veia criativa. Marília Mendonça é um caso emblemático por ter reaberto espaço em um universo totalmente dominado pelos homens: a música sertaneja. Claro que antes dela houve muitas, como a paraibana Roberta Miranda, que primeiro teve de se impor como compositora no universo sertanejo para somente então conquistar o direito de gravar álbuns autorais que a tornaram uma das campeãs de vendas de discos no Brasil na segunda metade dos anos 1980. Desde então, o nicho estava adormecido e a goianiense soube muito bem explorar e dar uma nova roupagem, o que fez com que Marília Mendonça se tornasse uma das artistas de maior expressão e prestígio nacional.

Mas na terra em que o sertanejo quase sempre é a principal referência, há vários exemplos de compositoras que bebem de outras fontes e transitam por outros estilos, destacando-se com um trabalho de ex­pressividade e vigor. Elas estão na MPB, no samba, no rock indie, entre outros, expressando o que são e o que pensam neste lugar de “diva”, do qual, com muita poesia, desafiam a supremacia e prerrogativas masculinas. O intuito desta matéria é elencar alguns destes nomes, pois não será possível traçar o inventário completo das compositoras goianas. Os nomes aqui apresentados são apenas uma “amostra” da qualidade e variedade dos talentos que contribuem para a efervescência do cenário musical goianiense. Podem ser ainda desconhecidos do grande público, mas definitivamente já conquistaram seu séquito fiel de fãs.

Bebel Roriz

Se a paixão pela música está no DNA ou se a pessoa é influenciada pelo ambiente em que é criada não há como determinar, mas Bebel Roriz preenche aos dois requisitos. Filha de mãe pianista e pai maestro, a menina cresceu em meio a instrumentos, orquestras e grupos de câmara. “A música para mim veio como uma coisa muito natural”, afirma. Durante a adolescência, se aventurou no violão, na bateria, no violoncelo. Passou por grupos de rock, de samba, MPB e até mesmo punk. Com todo esse histórico, o caminho da futura artista não poderia ter sido outro. Bebel se graduou em Com­posição Musical na Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (Emac/UFG). Posterior­men­te, começou a Licen­cia­tura em Piano, período que coincidiu com sua primeira gravidez.

Pode-se dizer que foi, literalmente, um período bastante fértil desta ar­tista, que já se destacava por sua voz de timbre delicado e “aconchegante”. Ela passou a gerar ideias e melodias em sua cabeça ao mesmo tempo em que gestava uma criança em seu ventre. Foi quando se descobriu, efetivamente, uma compositora de MPB. “Quando meu filhinho nasceu, comecei a inventar coisas diferentes, para não pirar! (risos) É uma fase boa, mas muito difícil. Eu saia com ele para passear de carrinho e vinham muitas ideias musicais na cabeça. Logo ao chegar em casa, punha letras no papel, gravava melodias ao violão… Foi nesta época que surgiram as duas primeiras músicas que chegaria a gravar no estúdio do Gustavo Vazquez, no local onde hoje atualmente é o Complexo (ao lado do Parthenon Center)”, recorda-se.

Mais madura como mulher e como artista, Bebel Roriz colhe atualmente os frutos de sua mais recente cria, “Azaguaia”. O termo dá nome a uma árvore da África cuja madeira é utilizada na fabricação de lanças e batiza seu mais recente CD, lançado em junho deste ano. O disco foi gravado em São Paulo, Goiânia e Pirenópolis. Sob a direção musical do cantor, compositor e produtor musical Paulo Monarco, com a participação de músicos de Goiânia e de São Paulo. O disco traz dez faixas, todas autorais, amparadas por melodias que transitam pela MPB e rock, com alguns arranjos mais experimentais e eletrônicos. Obra que tem tido boa recepção do público e de outros artistas, como Paulinho Moska, que elogiou publicamente o álbum.

Em conversa com o Jornal Opção, Bebel Roriz revela que desenvolveu um método próprio de composição. “Meu celular é cheio de coisas que gravo ao longo do dia, que cantarolo. Às vezes sai até mesmo uma música inteira, já com letra e melodia. E não descarto nada. Acho que toda ideia que surge é válida. No máximo elas ficam guardadas por um tempo.” Do novo trabalho, ela revela que entre as suas faixas favoritas estão “I Am” (I am/You are/ They are/ Fabuloussss/Meus olhos nos teus/Teus olhos nos meus/O espelho, a boca) e a faixa que abre o disco, “Marcha para Bidiu” (letra em destaque). “É sobre uma senhorinha que pedia esmola em Pirenópolis e que dizia que na casa dela havia acabado tudo… Eu fiz para ela”, explica.

Bruna Mendez

A noite do último dia 21 de julho, no Centro Cultural São Paulo, tinha um protagonista definido. Mas antes da atração prevista, a banda Carne Doce, uma outra goiana subiu ao palco e atraiu para si toda a atenção dos holofotes e das lentes dos celulares de toda a nova MPB brasileira, que inebriada na plateia, fazia ques­tão de aprisionar aquele mo­mento por meio de gravações e re­gistros nas redes sociais. A razão para tamanho interesse era Bruna Mendez, compositora e interprete que pode não ter alcançado o “mainstream”, mas no cenário musical al­ternativo o nome de Bruna Mendez já virou marca registrada. O prestígio da artista é tamanho que Bruna chegou a dividir o palco com ninguém menos que Caetano Veloso no festival Bananada de 2015.

A incursão da jovem nascida e criada em Goiânia pelo universo da música começou em meados de 2008, de forma autodidata, com um projeto chamado “À trois”, onde apresentava canções autorais juntamente com o produtor musical carioca Mark Martin. Na mesma época, integrou ainda o projeto Sleepstars e logo depois com o término, no projeto “Lo”, ambos do produtor Mark Martin. No final de 2009, Bruna se juntaria ao Coletivo Musical, ao qual dedicou a maior par­te de seu tempo. Apesar do curto período de vida, a banda se destacou no cenário musical goiano, tendo tocado com principais artistas da “Nova MPB”, como Thiago Pethit, Tiê e Lulina, e por ter subido ao palco de festivais como o Grito Rock Goiânia e Bananada. Foi em 2012, com o convite para o projeto “Canto de Ouro”, que Bruna Mendez pôde mostrar o seu trabalho como compositora e arranjadora.

“Esse olhar pede todo o tempo que vier
Passa tanto sonho na retina
Lágrima já não tem mais rastro nesse peito
Eu até pensei em cair praí
Quero mesmo me jogar no seu corpo
Sem pedir licença pra ficar na sua vida”,
Bruna Mendez | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Em 2014, Bruna lançou o EP “Pra Ela”, com seis faixas que mesclam as influências que a artista buscou em gêneros como MPB, bossa nova, reggae, samba, baião e rock em nomes como Bob Marley, Peter Tosh, Caetano Veloso, João Gilberto e Vinícius de Moraes. Em 2016 veio o efetivo debut musical de Bruna, com o lançamento de “O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à Sua Calma”, disco que reúne 11 faixas que são fruto de uma junção entre compor, criar melodias, produzir e gravar. Produzido por Adriano Cintra, considerado como um dos nomes mais prestigiados da geração de músicos-produtores de São Paulo, o álbum foi gravado no Estúdio Rocklab, na cidade de Pirenópolis e conta com participações de Thiago Ricco no baixo, a guitarra de Eduardo Goiaba, Lucas Tomé na bateria e o teclado de Adriano Zago, criando toda uma atmosfera particular com a voz singular de Bruna.

Dois anos depois deste mo­men­to na carreira, Bruna diz que sente que o “tempo de vida” de seu último disco se aproxima do fim e revela que já tem pensado em um próximo registro. Justamente por esta razão tem evitado fazer shows para dedicar seu tempo ao planejamento para viabilizar um novo álbum. Salvo exceções, como a apresentação do último dia 12 de agosto, no Cafofo Estúdio. “Foi uma apresentação especial porque era alguém que gosto muito (Mau­ricio Pereira) e na casa onde passo boa parte dos meus dias”, explica.

Apesar do prestígio que alcançou em seu nicho, Bruna afirma que ser goiana e estar aqui tentando produzir é um desafio e uma resistência. “A gente consegue ver isso nas próprias políticas públicas de incentivo à cultura. O nosso FAC, que seria a lei com maior capital de incentivo, é frágil, não é levado a sério”, reclama. Bruna também confidencia que se sente desconfortável com o papel da “diva-interprete-cantora” que na grande maioria das vezes é atribuído à mulher na música, ainda que isso pareça surpreendente e hoje talvez de uma forma velada. “Eu não me encaixo em nada disso. Sempre se referem a mim como a cantora Bruna Mendez e a última coisa que faço e por consequência é cantar. Antes disso eu componho, arranjo e produzo minhas próprias músicas há anos. Hoje a gente tem tantas mulheres incríveis produzindo (Mahmundi, BadSista, Flora Matos). Nos negam até reconhecimento”, lamenta.

A goiana também releva certo incômodo com as comparações. Não é raro de se ver o nome de Bruna Mendez sendo equiparado ao de Maria Gadú. Bruna diz desconsiderar esses comentários por entender que essa é forma mais fácil de “encaixotar” as pessoas. “Se tivessem um pouco mais dispostas e sensíveis a ouvir, conseguiriam entender que a única coisa que temos em comum (ela e Gadu) é ser mulher e o timbre de voz mais característico, porém nada parecido”, afirma.

Mas então, quem são as referências para Bruna? A artista revela: “Elas são muito mais sinestésicas do que propriamente musicais, então eu não consigo dizer o que me inspira, mas eu tenho amigas e amigos que me inspiram muito no dia-a-dia e que admiro muito na música: Sofia Freire (Pernambuco), Tuyo (Paraná), LaBaq (SP), Vítor Brauer (Belo Horizonte), André Whoong (SP), Adriano Cintra (SP) e todas essas pessoas eu ouço diariamente também”.

Flávia Carolina – Ave Eva e Cocada Coral

Apesar da origem paulista, Flávia Carolina já transpira goianidade, pois foi em pleno cerrado que sua carreira musical começou. “Na verdade, até eu às vezes falo que sou goiana” (risos), comenta descontraída. Em 2006, ela veio para Aparecida de Goiânia e iniciou como backing vocal na banda de reggae Hibris do Gueto. Graças à infância regada aos bons sambas e pagodes de primeira, Flávia conta que começou a compor sambas por ser sua principal referência, o que tinha o hábito de ouvir, mas na época ela acreditava que suas canções expunham seu lado frágil.

Foi com o estímulo de Leon Junqueira, que conheceu nesta época e de quem viria a tornar-se amiga, é que ela superou essa insegurança, mas um malfadado encontro que se sucedeu quase pôs tudo a perder. “Ele (Leon) convidou um sujeito que tocava nas noites goianas para me apresentar. O homem disse que adoraria mostrar as músicas para outras cantoras cantarem, que ficaria ótimo na voz delas. Pôxa! Eu estava ali cantando, mas ele disse que ‘esteticamente’ eu não me enquadrava para cantar MINHAS PRÓPRIAS MÚSICAS! O cara me achou sem ‘muito brilho’. Na verdade, ele queria dizer que eu não era bonita e branca o suficiente. Na hora fiquei um pouco sem entender e nunca mais quis saber disso”, recorda-se.

Mas além do apoio amigo, que fez questão de insistir que Flávia era já uma cantora, a artista também encontrou o estímulo que faltava quando se juntou à Escola de Circo do Martim Cererê e iniciou uma experiência de tocar na rua, nos semáforos, cantando e tocando zabumba. “Continuei a escrever e em 2009/2010 conheci a turma do Cererê, que me apresentou o xote, baião, maracatu. Fiquei encantada e fui conhecer mais de mim, da terra, da mata e quando vi eu estava com a necessidade de falar, cantar e escrever sobre aquilo tudo que eu nunca tinha visto. Então as músicas começaram a aparecer, letra e melodia, quase que uma mágica.” Estava escrito que a música iria sim fazer parte de sua vida e em um novo encontro com o mesmo sujeito, ela pode provar como ele estava redondamente enganado.

Flávia conta que seu processo criativo é muito espontâneo e que não tem um momento específico para compor suas canções. “Elas vêm e saem da boca, como uma conversa de calçada. Registro melodias no celular ou escrevo no papel que estiver na frente. Posso dizer que minha inspiração vem da própria vida. Às vezes fico um tempo sem escrever nada, e antes isso me desesperava; hoje em dia tenho calma e sei que logo menos o peito ‘supita’ de novo e nasce outra canção.”

“Nesse mundo eu vou plantando amor
Pra esse povo que tá de maldade
Quando olhar nos olhos e sentir o tremor
Das mentes quando abertas
Mais um cego gritou com a visão
E os humanos seres na Terra pagando a ela com ingratidão
Oyá, oyá, oyá, oyá, oyá”,
Flávia Carolina | Foto: Vytor Brios

Com o passar do tempo e a necessidade de se expressar de outras formas, Flávia se juntou a outras mulheres, com as quais criou o Batuque Meus Amô, um grupo de estudo e pesquisa no samba de roda, incentivado pelo Mes­tre Alemão e a Mestra Geo­va­n­na, do Coró de Pau. Daí surgiram outros grupos que a cantora faz parte, como Ave Eva, Cocada Coral e Forró De Saia. O Cocada Coral é formado por Brunna Curupira, Flávia Carolina, Nathalia Kaule, Thaisa Santos e Sarah Menezes. A base dos instrumentos é percussiva e, como o nome já diz, o coco é o ritmo predominante. Com muita animação, energia e potência, o quinteto canta, batuca e encanta na celebração aos mestres e mestras da cultura brasileira em toda a sua diversidade.

Já em Ave Eva, Flávia toca zabumba e forma dupla desde 2014 com Paula de Paula na viola. Além de cantar e compor, ambas se dedicam à pesquisa de manifestações tradicionais da música. Em março deste ano, o dueto laçou seu disco de estreia em plataformas digitais como YouTube, ITunes e Spotify e depois fez o show oficial de lançamento em maio, no Centro Cultural da UFG (CCUFG). O álbum traz dez faixas autorais, cinco de cada, retratando o universo feminino, seja com um olhar mais doce e delicado, seja em letras mais ácidas e arredias, em ritmo de forró, xote, maracatu e baião, com as participações especiais do músico cearense Evânio Soares (rabeca, viola, pife), responsável pela produção musical do álbum, e das instrumentistas goianas Sarah Menezes (xequerê, ganzá) e Nathalia Kaule (alfaia). “Poeira”, “Santo Antônio Sem Cabeça” e “Oyá” são algumas das letras de autoria de Flávia.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Adalberto de Queiroz

Parabéns! à Marília Noleto e a “Essas mulheres maravilhosas e suas composições inspiradoras”!!