Espetáculo mergulha em Guimarães Rosa, escorrendo literatura e dança pelos palcos

Do diretor e bailarino da Quasar, o mineiro João Paulo Gross, “O Crivo” reflete os vazios das relações e essência humanas

Com uma leitura para vestibular nasceu, em 2002, a vontade de vivenciar o universo de Guimarães Rosa na dança; “O Crivo”, de João Paulo Gross, estará no palco do Teatro Sesc Centro, no próximo sábado / Foto: Lu Barcelos

Com uma leitura para vestibular nasceu, em 2002, a vontade de vivenciar o universo de Guimarães Rosa na dança; “O Crivo”, de João Paulo Gross, estará no palco do Teatro Sesc Centro, no próximo sábado / Foto: Lu Barcelos

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai
                      A Terceira Margem do Rio
                      Caetano Veloso

Yago Rodrigues Alvim

Ainda menino, procurando caminhos para amadurecer, João Paulo se encasquetou com a pro­sa literária. A culpa era de ninguém mais senão do bendito vestibular que cobrava na prova de português uns cinco livros para algumas questões literárias. Queria porque queria dançar na vida adulta. O crivo ferrenho e vistoso vinha, então, do engenho de Rosa, o famigerado Guimarães. Vinha em encadernação de Primeiras Estórias, amarrado em contos que aprumaram ideias. Tantas que saborearam em João a vontade de dançá-las; pô-las em regência, escritura rítmica, num silêncio de sertão.

Queria por o escritor na coisa já criada, “No Crivo de Rosa” –– mas era muito grande o título. E intitular o último verbo, até que as luzes do teatro se apaguem e as tais ideias se alumiem em movimento. Crivo tinha muitos significados; cairia bem. No caso, deu bom caimento. É bordado, além o sentido de ser aprovado sob vistas ferrenhas e vistosas.

–– Só é possível ver um bordado porque existe um espaço entre um ponto e outro; assim, é possível enxergar um desenho. Sem o espaço é só uma trama muito fechada. O trabalho, dentro de um conceito, traz a ideia de relação um com o outro. E o espaço da relação se dá entre uma coisa e outra. A relação não é minha e tampouco sua. Ela é nesse espaço do “entre”, que a gente tem. A palavra é um acabamento final da ideia.

Acabamento que começou lá mesmo, num vestibular do Rio de Janeiro. Já nos primeiros passos para viver da dança, o estudante da Federal carioca cursou também em meio às margens da Escola Angel Vianna. A primeira leitura só despertou em João mais leituras: queria entender o que o amontoado de palavras dizia.

O coreógrafo João Paulo já conhecia os contos de Guimarães; agora, os bailarinos Daniel Calvet e Andrey Alves dão vida aos movimentos em Rosa / Foto: Lu Barcelos

O coreógrafo João Paulo já conhecia os contos de Guimarães; agora, os bailarinos Daniel Calvet e Andrey Alves dão vida aos movimentos em Rosa / Foto: Lu Barcelos

–– Inicialmente, eu não gostei. Achei muito difícil; talvez pela idade. Eu tinha uns 18 anos. Fiquei com o livro na cabeça. “Tenho que lê-lo outra vez.” Numa disciplina de composição coreográfica, era necessário criar um solo com base em algum estímulo. Eu quis trabalhar com a literatura. O conselho do meu professor, lá em 2002, foi para eu ter cuidado, para que eu não criasse uma imagem concreta; algo mimético.

Foi então que, das 21 estorietas, três possibilidades de leituras enlearam-se numa reflexão nova. A inventividade de Rosa com as palavras traduziu-se em João maneira própria de coreografar sentidos. Daí que “A Terceira Margem do Rio”, “O Espelho”, “Nada e Nossa Condição” alinhavaram o que seria “O Crivo” –– o novo espetáculo do bailarino das terras mineiras.

–– É possível fazer uma ligação entre as ideias principais de cada conto. A terceira margem é um mistério, pois o rio é feito de duas margens. O espelho é a segunda imagem; é o se autoconhecer, o movimento de olhar para si mesmo. “O espelho é o olho do outro”, costumamos dizer. Quem me dá o espelho é a relação que eu tenho com o outro, onde descubro quem eu sou. Por último, a imagem já está no título “O nada e a nossa condição”. O nada e nossa condição é a mesma coisa. Nossa condição é nada. O que me intrigou, no título, é o “e” –– o elemento de ligação. O “e” que une está entre um e outro. Daí que vem a ideia do “Crivo”. Entre essa terceira margem, como eu vejo na minha relação com o outro, no espaço entre uma coisa e outra.

Entre

Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
A Terceira Margem do Rio
                                                                                                                    Guimarães Rosa

Antes que o benefício que o Fundo Estadual de Cultura, do Estado de Goiás, e que a Lei Municipal de Incentivo à Cultura garantissem agenda nos palcos do Teatro Sesc, no Centro, o espetáculo foi ganhando ares de espetáculo e foi quase que brisa de manhã alaranjada. É assim que ambientou o que nasceu sob o nome de “Ter-ceira Margem”, apenas. O filho preso ao silêncio do pai levou João a “Migrações”, um evento em Niterói ao qual foi convidado. Dali, frutificou um jogo cênico com a bailarina Maíra Maneschy e com a atriz Verônica Prates, que tinha como mote trabalhar as fronteiras do teatro e da dança.

–– Eu queria trabalhar com teatro, devido à minha formação primeira. Eu fui de grupos de teatro e, depois, comecei com dança. Muitas vezes, quando vou compor uma cena, eu penso no jogo cênico que o próprio movimento pode ter. E essa ideia do solo do Guimarães ficou presente.

A vida correu nos dias de João. O sobrenome, aos poucos já fazia do menino bailarino. João Paulo Gross dança na Quasar Cia de Dança. Foi no linóleo da Cia, que os ensaios com Daniel Calvet e Andrey Alves arremataram a ideia. Os também bailarinos da Quasar são amigos de João. Por afinidade, veio o convite; por apropriação, veio a admiração.

–– Eu queria usar o espaço de criação para mergulhar nesse lugar de criador, de olhar para o que está sendo feito. Eu não queria estar dentro, como um bailarino-intérprete. Eram muitas responsabilidades. Eu preferi, então, estar de fora e fiz um convite para dois bailarinos que acho excepcionais e estou apaixonado pelo trabalho deles. Estão super entregues e dedicados. Eles mergulham e me propõem coisas. É uma super troca.

Da pesquisa de movimento, 80% foi João quem desenhou e, no corpo dos bailarinos, foi investindo em algumas potencialidades. A liberdade de compor, dentro de uma escrita de movimento, aliava respiração, tempos particulares. “Existe ali a assinatura do bailarino”, diz o diretor. Daniel e An­drey não são apenas bailarinos, na ideia daqueles que executam; eles são intérpretes e colaboradores; dão vida. Em outubro se debruçaram sobre as estórias, a fim de se apropriarem do material de movimento. A liberdade de composição veio da naturalidade de dividirem, hoje, o mesmo universo rosa.

–– Existe a diferença em trabalhar com um profissional que te dá uma resposta muito rápida, mas não só de agilidade; de entendimento e apropriação. Você propõe uma coisa e já vê aquilo acontecendo no corpo. E existe uma intimidade, uma aproximação, por trabalharmos na Quasar há tempos e tem esse entendimento de discurso e de aproximação de afinidades. Nós temos uma afinidade com a própria estética, então, tudo vai fruindo no espetáculo de uma forma muito boa de ver.

Processo

O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade — um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. In­clusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
O Espelho
                                                                                                                                         Guimarães Rosa

“O Crivo” tem o apoio do espaço da Quasar, que foi berço do projeto final. João se lembra de um evento da Cia, “Cesta de Dança”, que aguou seus primeiros quereres e realidades.

–– A Quasar estimula os bailarinos a criar, a ter outras ideias e a se desenvolver como bailarino de outras coisas. “Cesta de Dança” era como um balaio mesmo, sem julgamento de valor. Os bailarinos dividiam, ali, suas vontades de trabalho. Pela agenda da Cia, os horários foram ficando difíceis. Ainda assim, eu continuei com a ideia do Guimarães. Convidei uma bailarina, a Carolina Ribeiro. Ela topou.

João tentou, primeiramente, o prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna. Não deu certo. Era um projeto bem desenhado o que precisava por em prática. E já em 2013, ele combinou com Carolina de ir aos poucos, dentro do possível. Foi então que, com uma cena dançada por ambos, a produtora da Quasar, na época Giselle Carvalho, propôs tentarem outro edital. O Fundo de Cultura de Goiás e a Lei Municipal de Cultura de Goiânia possibilitaram que a pesquisa avançasse, fosse mais bem explorada.

–– Um bailarino dedica muitas horas de trabalho, mesmo fora da sala de ensaio, em um projeto. Existe a literatura, filmes, fotografias e nós trabalhamos em um universo bem natural. Quando começamos, eu propunha, ao Daniel e ao Andrey, uma sequência coreográfica e, depois de a terem feito e apreendido, eu propunha experimentações: como fazê-la grudados para saber o que isso produziria. Podia ser incômodo ou qualquer outra coisa, que gerava sensações. Íamos compartimentando, – não que o trabalho seja compartimentado. Isso não é só uma característica do meu trabalho; isso acontece muito em dança, pois o movimento é muito rico.

Na dança, um mundo de possibilidades se abre. Existe a repetição, que agrega valores e diferenciações ao gesto, transformando-o, até, em outra coisa – algo comum na dança-teatro ou, por exemplo, nos trabalhos de Pina Bausch; existe o movimento puro, desprovido de sentidos. João põe em palavras: isso é algo natural, pois o ser humano tende a construir sentidos, ainda que não tenha sido isso com “O Crivo”.

–– Nasce o movimento puro e ele tem tanta força que cria sentido. Aos poucos, vamos afinando esses sentidos. E algo que está impresso devido uma intensidade de força ou de muita delicadeza, que vão trazendo diferentes sensações. Nós fomos afinando esses sentidos que, aos poucos, surgiam. Afinal, o movimento provoca sentidos que, diferentemente da mímica, não remete a um espaço muito claro e determinado. É como se fosse um devaneio de ideias e sensações e, aos poucos, quando vemos, estamos imersos naquilo.

Ausências preenchidas

Parecia-lhe como se o mundo-no-mundo lhe estivesse ordenando ou implorando, necessitado, um pouco dele mesmo, a seminar-se? Ou –– a si –– ia buscar-se, no futuro, nas asas da montanha. Fazia de conta; e confiava, nas calmas e nos ventos.
Nada e a nossa Condição
  Guimarães Rosa

A partitura de movimentos de “O Crivo” não nasceu de uma musicalidade. É como o bailarino tende a criar. Ainda que quem assista ao espetáculo perceba ambos bem tramados, bem tecidos, o movimento veio pelo ritmo que ele tem, pelo gesto que precisou ter, pela dinâmica do próprio movimento. Existe, ali no palco, uma apropriação do universo sonoro aliado à movimentação.

–– O processo não foi assim “eu ouvindo a música e ela ir regendo o trabalho”. Foi depois. Eu procurei uma música que trouxesse a tensão que a cena tinha ou em oposição. Há muito esse jogo do volume do som e a intensidade do movimento. Exis­te o contraste. Algo que teve e se manteve. Foi um trabalho com um universo sonoro que nós, bailarinos, chamamos de “Natu­reza”. É como se fosse o passar de um dia.

A estória se passa ao som fazendeiro, de galo cantando, vento batendo em folhas. Mas o sertão é outro. Não está em Minas, na Bahia ou em Goiás. O ser-tão, ali, é o vazio em meio aos resquícios de pianos de Villa-Lobos, de Mignoni e Rachel Grim. “O sozinho que todos temos, o mundo de cada um”. E, então, a terceira margem reflete num espelho de si próprio: “eu me vejo”. Na descontinuidade do tempo, meio se faz fim e o rio escorre em corpos físicos até a exaustão de ser quem se é: entre o nada e alguma coisa, a mais ínfima e completa condição do ser humano.

OCrivo

 

O Crivo
7 de março (sábado): 18h e 20h
8 de março (domingo): 20h
9 de março (segunda-feira): 20h
Ingressos: R$10 (inteira) / R$ 5 (meia)
Local: Teatro Sesc Centro

3
Deixe um comentário

3 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
3 Comment authors
Ana Paula Mota

Que texto surpreendente! Parabéns ao Opção por criar esta justaposição entre jornalismo e arte. Parabéns ao jornalista, por tecer um texto que não se prende ao narrativismo de algo que vai acontecer.

O Nariz Teatro de Grupo

Gostaria de obter mais informações acerca do espetáculo.
Disponibilidade para vir a Portugal
PF contate O Nariz Teatro
Grata
Vitoria Condeço

Ednair Barros

Que delícia de texto. Você contextualizou de foma extremamente criativa o universo Roseano ( O Crivo) que inspira o Espetáculo do diretor mineiro João Gross. Não é todo mundo que mergulha com propriedade no universo de Guimarães Rosa… ainda mais, pra abordar o espetáculo que mescla dança e literatura. Parabéns Yago Rodrigues!