Esculturas em bronze, colagens e desenhos de modelo vivo dão vida à Vila Cultural Cora Coralina

As mostras “Elementos”, de André Baiocchi; “Résumé”, de Salvess; e “Modelo vs. Artistas”, de Gutto Lemes, ficam em exposição até o fim de agosto

“— O peixe também é meu amigo –– disse em voz alta. Nunca vi ou ouvi falar de um peixe desse tamanho. Mas tenho de matá-lo. É bom saber que não tenho de tentar matar as estrelas. Imagine o que seria se um homem tivesse de tentar matar a lua todos os dias”, pensou o velho. ‘A lua corre depressa. Mas imagine só se um homem tivesse de matar o sol. Nascemos com sorte.’”
Excerto de “O Velho e O Mar”, de Ernest Hemingway,
citado no texto de Maria Abadia Silva

“Água” (2014) levou o tempo de uma gestação para que, com seus 2 metros de envergadura e 120 kg, ficasse pronta. A escultura, de 1.002 escamas, compõe “Elementos”

“Água” (2014) levou o tempo de uma gestação para que, com seus 2 metros de envergadura e 120 kg, ficasse pronta. A escultura, de 1.002 escamas, compõe “Elementos”

Yago Rodrigues Alvim

Foi numa manhã de terça modorrenta que caminhou por ali. Punha-se agachado e mexia-se de todo jeito, tentando aprender com os olhos cada escama que via. Perambulava em círculos em torno das obras espalhadas pela sala Antônio Poteiro. Via nadadeiras de pirarucu, dentes de capivara, calda de tamanduá, boca de sapo, copas de árvore. Via floresta inteira, até que o moço lhe disse que podia tocar. “Pode?” E, assim que os dedos tocaram o frio do bronze, fechou os olhos e viu doutro jeito aqueles elementos todos.

Descendente de italianos, o escultor e também restaurador André Baiocchi cria e produz peças em bronze há mais de 32 anos

Descendente de italianos, o escultor e também restaurador André Baiocchi cria e produz peças em bronze há mais de 32 anos

Pode sim tocar cada escultura da exposição que colore em bronze a Sala Antônio Poteiro da Vila Cultural Cora Coralina. “Elementos” deslumbra quem olha e quem toca. De André Baiocchi, a mostra é um pouco do seu amor pela natureza. O artista, das nove às 15h, não arreda o pé da sala de exposição, a não ser para pegar um cartão ou folder para entregar a quem por ali visita. Foi o que fez a Gaià Paradiso.

Italiana, viveu em Brasília no ano de 2012. Hoje, trabalha como relações internacionais e reside na Espanha. Estava a passeio na capital goiana naquela manhã, quase tarde de terça. Ficaria uma semana e, por isso, aproveitava para visitar alguns centros de cultura da cidade. Ficou encantada pelo trabalho de Baiocchi. Parte da exposição, peças e fotografias das diferentes etapas de criação e produção de uma das obras, a intitulada “Água”, lhe chamava a atenção. Não só bastasse a estupefata dificuldade de produzir as 1002 escamas de bronze que compunham o pirarucu de dois metros de envergadura, com seus 120 kg, a explicação era do guia, o também artista Baiocchi.

Tirou foto com a moça, dum jeito que se encantava por quem se encantava por seu trabalho. Foi o que pareceu quando disse das crianças de um colégio, que viriam no dia seguinte e mesmo as que tinham corrido para lá e para cá, naquela manhã. Gostava das visitas. Alardeou preocupação apenas com a segurança. É que os seguranças estavam de greve, contou e emendou que o pessoal da limpeza da Vila também não aparecia por ali. Na hora do almoço, um amigo segurança ficava próximo das três salas para vislumbrar certa áurea de segurança a quem visitasse ali, naquele horário.

As demais salas eram de diferentes artistas. Na Poteiro, Baiocchi. Ele nasceu em maio de 1958, na capital goiana. Tem descendência de italianos, que migraram para o país há mais de um século. Seu avô materno, Colômbo Baiocchi, disse certo dia, ao entregar-lhe um presente: “Esse estojo de ferramentas é seu, você vai ser escultor” e já fazem 32 anos que ele tem criado e produzido esculturas em bronze. Seus estudos começaram ainda na adolescência. Atraído pelas formas humanas, as estudava e também modelava em argila elementos da natureza.

A passeio, a relações-internacionais italiana Gaià Paradiso, que reside em Brasília há três anos, elogiou “Elementos”, de Baiocchi, como um trabalho primoroso

A passeio, a relações-internacionais italiana Gaià Paradiso, que reside na Espanha, elogiou “Elementos”, de Baiocchi, como um trabalho primoroso

Na década de 1980, foi estudante do Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás (UFG), no curso de licenciatura em Desenho e Plástica. Um de seus projetos de destaques é o “Etnias”, desenvolvido junto a Federal goiana. No ano de 1994, intensificou os trabalhos de pesquisa sobre a plasticidade da fauna e flora do cerrado brasileiro. Em 1997, ministrou o curso “Processo de Fundição”, na UFG. Dali, o monumento em homenagem ao primeiro prefeito de Goiânia, o professor Colemar Natal e Silva, saiu e se instalou na Praça Universitária. De 2002 a 2004, desenvolveu o projeto “Animais do Cerrado”, um estudo que embasa seus trabalhos até hoje. Por dez anos, ele se dedicou a restauração de monumentos históricos na cidade do Rio de Janeiro. De volta a capital, idealizou o Estúdio Bimbino, apelido do avô, onde desenvolve projetos de artes plásticas e fundição, atraindo iniciantes para a arte de esculpir.

A poetisa Maria Abadia Silva escreveu, de sua visita a exposição, bem na época do vernissage, realizado no primeiro dia de julho, que “‘Elementos’ vem para falar da organicidade, da vida pura, da relação homem e matéria, homem e labor, homem criatura e criação. Trata-se do lavorato a mano, do labor da vida, segundo André, de trazer e mostrar o espírito do ser ao dar-lhe forma”. Ela continua com as seguintes palavras:

–– “Elementos” é um repensar, um rever do longo percurso de conquista e domínio de mercúrio, do fogo no âmago da terra, fluídico em 1.860 graus, em simbiose com as mãos e a lixa em negociação constante até a transformação da matéria, o derreter em pleno acordo. É a simbiose, como André gosta de dizer, do viver em fogo, terra, água e ar até se agigantar e chegar ao bronze, quando se recobra e se reconecta, verdadeiramente ao quinto elemento, a essência, a centelha de luz, ao próprio ser humano vivo em criação.

Modelo vs. Artista

O artista Gutto Lemes destaca que não há modelos vivos em Goiânia, cujo exercício  é parte da didática antropométrica

O artista Gutto Lemes destaca que não há modelos vivos em Goiânia, cujo exercício
é parte da didática antropométrica

No mês de junho, o modelo vivo Gutto Lemes propôs um happening a Vila Cultural. Vinte e oito artistas se reuniram numa sala, da Vila mesmo, para quatro seções distintas de trinta minutos. Em duas horas, se fez inverno, outono, primavera e verão. É que Gutto vestiu diferentes trajes, enquanto os artistas o esboçavam fosse em carvão, grafite, giz de cera colorido. Ele posou em conceitos de climas diferentes. Do happening lúdico, surgiu “Modelo vs. Artista” –– mostra também em exposição numa das salas da Vila.

Gutto nasceu na cidade de Morrinhos. Filho de fotógrafo retratista, tem raízes que bem explicam sua vocação. Ainda na década de 1980, ele iniciou seus estudos como autodidata no Brasil. Foi aluno-ouvinte, ainda permitido, na universidade federal goiana. Ele também se graduou como turista nacional. Na Bélgica, já em 1997, trabalhou como modelo vivo. Pela Europa, ainda viveu em tempo noutra cidade, diferente de Bruxelas; viveu Londres, por um tempo.

O artista fala desse profissional que falta por aqui, em Goiânia e no Brasil. E, como explica Gutto, existe diversas técnicas e reflexões sobre modelo-vivo; por exemplo, a pose e seu tempo de duração, pois o corpo pode sofrer câimbra, dentre outros desconfortos físicos que podem surgir no modelo e, consequentemente, atrapalhar os artistas retratistas.

Quanto à proposta, que deve ganhar outros espaços culturais goianos nos próximos meses, Gutto explica que ela nasceu de uma vontade muito comum às boas e velhas academias de belas artes, cuja experiência artística com modelo vivo faz parte do exercício didático antropométrico.

Por sua vivência em países europeus, onde a divisão climática, por suas características mais marcantes, é de fácil percepção, ele acresceu ao projeto “Modelo vs. Artista” o conceito de diferentes climas. “Aqui em Goiânia as estações do ano não são bem definidas, as pessoas não se atentam a isso, como na Europa ou Estados Unidos. Eu quis trazer isso para o trabalho”, conta.

Se você se demora por ali, ou mesmo numa passagem sutil dos olhos sobre os desenhos, muitos detalhes sobressaem, assaltam, trazendo diferentes apreensões do fazer artístico visual. Diferentes técnicas dispostas somam aos olhares que fazem do mesmo momento, artes diferentes. Alguns tateiam escolas como o realismo, outros até fogem do figurativismo, alcançando um quase abstracionismo.

O modelo comemora a exposição dos desenhos por todo um envolvimento tanto dos artistas convidados a participarem do happening, quanto do público que perambula pela Vila Cultural, trazendo um feedback. Ele destaca que, de um ano para cá, a cena das artes visuais teve um boom! O próprio artista geriu o projeto “Galeria Noturna”, que teve início em agosto do último ano. A ideia era transformar portas de estabelecimentos comerciais da Avenida Goiás com painéis de artistas goianos. Deu certo.

Résumé

O trabalho “Résumé”, de Salvess, reúne  colagens realizadas com diversos coletivos. A pornografia-poética permeia as obras

O trabalho “Résumé”, de Salvess, reúne colagens realizadas com diversos coletivos. A pornografia-poética permeia as obras

De Salvess, a exposição Résumé também ganha a Vila Cultural Cora Coralina. As colagens do artista se reúnem sob dois conceitos: primeiro, a do coletivo. Salvess traz diferentes trabalhos comuns do resultado coletivo. É que o processo criativo de cada obra se entrelaça com vivências em grupos distintos. São “transições de imersão cooperativa individual” ou, mais simplificadamente, resultado de diálogos. Résumé, do francês, é o segundo conceito: o de resume, de todos os processos.

Salvess, nome artístico de um moço que pediu que guardasse o nome próprio. De família mineira, foi autodidata tal qual Gutto. Iniciou os estudos aos 15 anos, até que se fez aluno de Ciências Contábeis. Ele participa de diferentes coletivos que integram Résumé: Grupo Colagem Coletiva Brasil, Colagem Coletiva 12ª & TEDxGoiânia, Grupo Colagens & João, Grupo Vaudeville e Coletivo Vaudeville. Ele brinca quanto aos nomes em francês, antes não notados: “É que passei um tempo na França”.

Tendo como principio a colagem tradicional, os trabalhos apresentam diferentes técnicas. Fotografia colagem em processo digital é uma, colagem mista sobre tela outra, e as dimensões são variadas. Na sala da mostra, também estão em exposição fotografias-documentais de cada processo.

A sexualidade é nítida. O artista Salvess fala do pornográfico poetizado em seus trabalhos. O corpo, o fetiche são temas comuns. “A sexualidade é muito tabu ainda”, destaca. A pornografia, antes em revistas, é perceptível por seus signos nas obras, cujo todo produz outras projeções e apreensões a quem aprecia. Ele se diz contente com a exposição e com a valorização do espaço, que tem recebido público, ainda que timidamente. Salvess espera que as pessoas se apropriem da Vila enquanto um centro cultural de fato. “Tem um gramado lindo, onde as pessoas poderiam fazer piqueniques, trazer crianças, enfim dar mais vida a Vila”, diz.

Recente, a Vila já respirou muita arte. Baiocchi, Gutto e Salvess são alguns doas artistas que avivaram o espaço tão dúbio de sua utilidade, enquanto em construção. Hoje, é notável que a arte está ali, basta caminhar ou dirigir de cada canto da cidade goiana até o centro, descer as escadas e tatear seja com os olhos, dedos e, quiçá, ouvidos e boca, para que nada termine por ali, numa simples visita.

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