Escritor como personagem (7): Kafka — Sonhos, de José Eduardo Umbelino Filho

Gregor Samsa sonhou que era outra pessoa, falava inglês, tinha um rosto juvenil e pálido, e repousava semiacordado à sombra de uma choupana de feno, perto de um rio

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Kafka — Sonhos

José Eduardo Umbelino Filho

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” “A Metamorfose”, de Kafka

Antes de se encontrar em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso, Gregor Samsa teve uma noite de sonhos intranquilos. Sonhou que era outra pessoa, falava inglês, tinha um rosto juvenil e pálido, e repousava semiacordado à sombra de uma choupana de feno, perto de um rio, numa tarde quente de verão. Ao seu redor, sentadas sob os vestidos, três meninas tomavam chá em pequeníssimas chávenas de faiança inglesa. A mais viva, Alice,  implorava: – “Senhor Dodgson, conta outra história!”. Gregor não era o senhor Dodgson, ou talvez fosse, mas o sono e a embriaguez do calor o impediam de discernir e ele se deixava levar pelas palavras que a boca sozinha produzia: “- Outra história? Vocês não se cansam?” Talvez fosse mesmo o senhor Dodgson e, para garantir, passou as mãos nos cabelos e fitou as próprias ideias, descobrindo com certo alívio que havia se esquecido do trabalho de caixeiro-viajante, da família parasita, da irmã, do chefe, do horário do trem. Ao invés da umidade cinzenta da Europa central, estava envolto no verde civilizadamente despretensioso de um verão inglês. – “Uma história, então. Sei de uma a respeito de certa menina que não gostava de livros sem figuras.” “– Assim como eu” – comentou Alice. – “Assim como você e a maioria das meninas de sua idade. Mas a menina da história certa vez adormeceu à beira de um rio, à sombra de uma choupana de feno, depois de ter tomado chá com sua irmã.” – Assim como eu, mas eu não adormeci. Pelo menos, até onde sei, não adormeci” – disse Alice. – “Será que não? Pois essa menina adormeceu e teve um sonho maravilhoso.”  – “O que ela sonhou?”

O senhor Dodgson então contou-lhes que a menina sonhara com um país distante e estranho, em que os reis eram cruéis, tinham haréns e eunucos, e  que um rei particularmente cruel se casara com sua irmã mais velha. “– Qual era o nome dela?” – perguntou Alice. – “Da menina? Era Dinazade.” – “Dinazade? Minha gatinha se chama Diná! Seriam parentes? E qual o nome da irmã que se casou?” – “Essa era Xerazade. Ela se casou com um rei chamado Shariar.” – “É um bom nome para um rei.” – comentou Alice. – “Você vai me deixar contar a história, Alice?” – “Ah, por favor, continue.” – “Agora, o problema desse rei é que ele tinha o péssimo costume de passar apenas uma noite com suas novas esposas. Depois, ao amanhecer, mandava que as decapitassem, gritando: Cortem a cabeça! Cortem a cabeça! Dinazade até tentou convencer sua irmã a não se casar, mas Xerazade era uma moça inteligente e tinha um plano. Na noite de núpcias, ela e Dinazade estavam nos aposentos do rei…” – “Espera! As duas estavam com o rei na noite de núpcias?” – “ Sim, isso era costume naquele país maravilhoso.” – “Maravilhoso e nada civilizado.” – comentou, muito britanicamente, Alice. O senhor Dodgson então contou a Alice como Xerazade entreteve por mil e uma noites o marido e a irmã caçula com histórias fabulosas, mas que nenhuma daquelas histórias jamais seria mais fabulosa que a sua própria. A tudo ouviu Alice encantada. Depois não pôde deixar de se inquietar: -“Mas senhor Dodgson, se por mil e uma noite ouviram histórias, quando então dormiam? É preciso dormir também. Ficaram esse tempo todo sem dormir?” –“As duas dormiam assim que o rei saía e o sol tocava as vidraças do palácio.” – “Dormir de dia nunca é bom. Mas e o rei? Como dormia o rei?” – “Alice, o rei ficou tão encantado com as histórias de Xerazade que não dormiu por todo esse tempo. Depois da milésima primeira noite, findada a história e a vontade de cortar cabeças, ele finalmente adormeceu e caiu num sonho profundo e estranho.” – “O que sonhou o rei?” O senhor Dodgson então contou-lhes que Shariar, o rei, sonhou que era outra pessoa, que falava alemão e nascera em Praga. E que nem mesmo era rei ou nobre, mas antes um moço judeu, um tanto esquisito, com o rosto vagamente fabuloso, de orelhas pontudas e o cabelo repartido ao meio. Vestia-se com aprumo e trabalhava numa companhia cinzenta, onde centenas de outros moços como ele batiam carimbos e assinavam documentos. Mas no seu tempo livre, gostava de escrever cartas a suas amigas e amantes. Talvez se tornasse escritor um dia, houvesse chance. Em suas cartas, falava muito dos sonhos que tinha. “Sonhei certa vez que era um caixeiro-viajante”, escreveu o moço a uma de suas amigas. “Acordava de sonhos intranquilos em minha cama e havia me transformado num caixeiro-viajante. Não mais assinar e carimbar documentos, não mais essa vida mesquinha e sedentária em Praga. Não! No meu sonho, eu viajava o mundo. Sabia o horário de cada trem, e o cheiro de todas as estações: Praga, Viena, Berlim, Amsterdã, Paris! Sabia a cotação dos marcos e das libras.” Sua amiga não se impressionou, e escreveu-lhe de volta: “Franz, meu querido, até em sonhos você é um burocrata. Ao invés de pirata ou aventureiro, sonha que é caixeiro-viajante. Ao invés do cheiro das  Antilhas ou da Austrália, sonha cheirar Berlim ou Viena” Aquelas palavras machucaram profundamente o jovem Franz, como apenas palavras de amigas e amantes podem machucar, e ele permaneceu por longo tempo sem escrever. Esperava o sonho ideal, o sonho que provasse a todos que ele não era um burocrata mesquinho, e que poderia, sim, sonhar com piratas e ilhas do Caribe. Não queria mentir e, portanto, esperava a noite em que sonhasse, de fato, uma história maravilhosa. Até que, finalmente, foi acometido não por um sonho, mas por um terrível pesadelo. “Querida amiga, hoje escrevo-lhe para contar o pesadelo mais maravilhoso que tive. Nele, eu era o rei de uma história de reis e princesas, de palácios e cimitarras. Sonhei que me casei com uma moça perspicaz, e que me enganou por mil e uma noites, até que eu me apaixonasse por ela. Minha história fantástica foi contada por um inglês – logo um inglês – que entretinha crianças num verão especialmente quente. Mas este homem que contava minha história não passava, ele próprio, de personagem de um sonho. Quem o sonhou foi um caixeiro-viajante – sim, um caixeiro-viajante; não me julgue, querida amiga – cujos pais eram parasitas, cuja irmã tocava violino, e que, numa certa manhã, ao despertar desses sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Aqueles sonhos intranquilos povoaram a noite de Gregor Samsa que, finalmente, despertou.

Uma resposta para “Escritor como personagem (7): Kafka — Sonhos, de José Eduardo Umbelino Filho”

  1. Avatar Talissa disse:

    Foi otimo ler essa história….

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