Escritor como personagem (31): José J. Veiga — O encantador de cavalos, de Joaquim de Azevedo

Avistei Veiga com um livro, lendo para um cavalo desgarrado e bravio, que empacara atravessado na passagem para a estrada, impedindo o escritor de romper caminho

Joaquim de Azevedo

Naquele final de semana, Anacleto demonstrava mais ansiedade do que de costume. É que esperava, na sede do seu sítio, a visita do proprietário da fazenda dos Veiga, onde a presença do dono era rara e esporádica, devido ao seu ofício no exterior.

O senhor José Veiga chegara para o recesso de três semanas e dera a certeza que o visitaria no próximo domingo. “- Vou chegar no primeiro cantar do galo…” – confirmou, espirituoso.  Para o sitiante anfitrião, ainda restara uma sombra de dúvida, pois, quando se conheceram, houve a mesma promessa, que não se cumprira devido a exíguo tempo de permanência do vizinho no país.

Ao ensejo, o encontro se deu por ocasião em que Anacleto fora à loja de ferragens numa Vila dos arrabaldes da cidade, para comprar uma bola de arame farpado e grampos galvanizados para o conserto de uns lanços da cerca que destruíram no pasto. Por feliz coincidência, lá estava o vizinho escorado no balcão, na companhia do Firmino, seu capataz, para comprar também do mesmo material para conserto das cercas de sua fazenda.

Com efeito, o capataz já havia relatado ao patrão a questão do vandalismo recorrente da destruição de cercas fronteiriças, com animais soltos invadindo propriedades alheias para pastar. Anacleto afirmou que passava pelo mesmo problema e desconfiava de quem seria o infrator, mas deixou a dúvida no ar, pois não era de falar pelas costas.

Anacleto estava se sentindo importante ali na presença do senhor Veiga, pois tomara conhecimento ser um ilustre e renomado escritor, com berço na cidade de Corumbá de Goiás. Isto lhe fora passado pela filha Ana Júlia, na ocasião em que o romancista gentilmente aceitara participar de um encontro literário que sua Escola promovera, onde fora palestrante.  Agora a celebridade estava ali na sua frente, em carne e osso, mas um tanto quanto lacônico, era verdade. Porém, quando falava, suas frases eram pérolas. Deixou claro que desta vez, com a aquiescência divina, cumpriria o trato: “- Pode esperar, senhor Anacleto, que vou lá, se Deus quiser, dar um desfalque nas panelas…”

Quando tomaram a porta da loja para sair, viram o alvoroço de cavalos na praça da Vila, cujos cavaleiros desapearam das montarias e entraram no bar da esquina, soltando baforadas dos seus palheiros e dando gargalhadas. Ao se sentirem soltos, livres do peso humano, os cavalos ficavam à vontade, dando voltas na praça e pastando vorazmente a grama. Com a licenciosidade, os animais tornavam-se altivos e presunçosos: relinchavam em exageros de decibéis, perturbando a prosa que ia animada já na calçada da loja. Após, formavam um grupinho, cabeças encostadas, parecendo maquinar alguma conspiração atroz. Ato seguinte, viram quando um deles escoiceou fortemente a estátua de uma autoridade, vindo a mesma a espatifar no solo. Do bar, onde tomavam cerveja, os cavaleiros aumentavam as gargalhadas, rindo ao ponto de esguicharem o líquido um no outro.

Com efeito, os transeuntes ficavam apreensivos e irritados, tendo de desviar constantemente aos saltos dos pinotes e coices no ar, correndo alto risco de serem atingidos. Havia muito constrangimento das famílias que por lá passeavam, quando os viam urinar nas plantas e flores dos jardins, ou se os pilhavam em pleno ato soltando seus excrementos e os espalhado nas calçadas. Também ficava difícil transitar entre rabos em movimentos pendulares para espantar moscas.

José J. Veiga: um mestre do conto | Foto: Reprodução

Por fim, atendendo a um assovio do ficcionista que se aproximava deles, os equinos levantaram as vistas para ele e, procurando a segurança dos donos, trataram de escafeder por uma rua lateral à praça, para serem novamente montados, deixando pra trás seus fumegantes bolos defecados.  “Estranho como eles se incomodaram com a sua presença…”, disse o senhor Anacleto ao senhor Veiga. E emendou: “Este seu assobio deve ter um realismo mágico, pois normalmente estes os cavalos não costumam ceder a interpelações de estranhos. Sem um freio autoritário, estão cada vez mais libertinos, trotando de peito estufado, relinchando de crinas levantadas e esboçando risos sardônicos.” O escritor, antes de se despedir, soltou a frase enigmática, que deixou o senhor Anacleto passar batido: “- Parece até, prezado amigo, que a realidade está imitando a ficção…”.

Chegou afinal o esperado domingo, dia da ilustre visita aparecer para o almoço, conforme o combinado, por ocasião do encontro na loja de ferragens. Assim que tomei conhecimento do fato, ainda na quinta-feira, solicitei, através da Ana Júlia, minha aluna na escola pública da cidade de Corumbá, onde eu lecionava Língua Portuguesa, que o senhor Anacleto, seu pai, desse-me permissão para passar o domingo com eles, pois não poderia perder a oportunidade de estar perto do eminente ficcionista goiano. “- Meu pai mandou dizer que é uma honra a sua presença no sítio, professor, que é para ir para o almoço.” – Disse-me sorridente a aluna, ao me ver solitário na sala dos professores.

Estacionando cedo no sítio, tomei ciência de que, no dia anterior, o leiteiro deixara recado da parte do escritor, que este viria a pé pela ponte do rio Corumbá, a fim de que pudesse exercitar as canelas, coisa que lhe era quase impossível no seu trabalho de ficar sentado numa cadeira atrás da mesa.  Afinal, as sedes não distavam tanto assim uma da outra que não pudesse romper caminho apreciando as belezas naturais da região. Logo que cheguei, informaram-me ser o homem apreciador de um bom trago de restilo, mas que fosse de engenho. Os peões do sítio, em prosa pelos cantos, estranhavam o fato, pois a aguardente, para eles, era mais afeita ao homem da lida rústica e pesada.

Sacrificado há pouco, o frango caipira era sapecado nas labaredas do fogão à lenha por dona Fátima, esposa do Anacleto. Enquanto este acomodava carinhosamente sobre a mesa uma garrafa de caninha de engenho, curtida no murici, que vinha apurando o ponto há tempos. Como era época do pequi, o mesmo não poderia faltar no almoço, nem a guariroba, para completar a boa comida goiana domingueira.

Como o ilustre escritor tardava a chegar, o Anacleto se preocupou, porque a chuva da noite anterior fora intensa. Era bom o menino Quinzinho, filho do capataz, ir até a ponte, cujo rio contornava as fronteiras das duas propriedades, para dar uma espiada. Podia ter ocorrido algum imprevisto. Então me prontifiquei a acompanhar o menino, pois queria fazer uma caminhada também, além, é claro, da ansiedade de ver a celebridade do mundo ficcional. Para tanto, perguntei-lhe se gostaria da minha companhia. Ele me respondeu, eufórico: – “E muito, professor.”

Acompanhado de dois vira-latas, Izé e Catu, iniciamos o trajeto pelo trilheiro sinuoso que circulava a serra rumo ao rio Corumbá, com o Quinzinho tendo de assoviar de vez em quando para os cães não se desgarrarem de nós.

Tia Fátima, num rompante de lembrança, ainda gritou para o menino: “- Quinzinho, recolha mais uns pequis que encontrar nos pequizeiros da estrada… Estão muito minguados estes…” Este voltou correndo até a soleira da porta para pegar um saco plástico de supermercado que ela lhe entregou.

Quando avistei o rio, percebi que seu leito estava bastante cheio, pois havia chovido muito na cabeceira. A água corria caudalosamente, quase a encostar nas tábuas da ponte. Sobre esta, na saída da que dava para o sítio do meu tio, avistei o senhor Veiga com um livro aberto, lendo para um cavalo desgarrado e bravio, que empacara atravessado na passagem para a estrada, impedindo o escritor de romper caminho. Trotando sem sair do lugar, bufava e tremelicava. Porém, à proporção que a leitura evoluía, ele dava sinais de sono e aplacamento.

Diante da inusitada cena, perguntei ao senhor Veiga o que estava fazendo, ao que me respondeu: “-Estou tentando domar o cavalo, que não o deixava passar.” Esclareceu ainda que costumava dar certo quando fazia isto com os cavalos da sua fazenda. A maioria tornava-se, sem dúvida, mais dócil. Mesmo alguns refratários, que não absorviam de imediato o recado, tiravam algum proveito para cochilar, pelo efeito sonoro da leitura.

Os cães se alvoroçaram, correram e foram latir ao redor do cavalo, que, num galeio de corpo, derrapou barranco abaixo, vindo a cair na corrente do rio, que o levou. De longe só era possível ver seu corpo rodopiando nos vórtices da correnteza, cabeça boiando e as narinas levantadas para não morrer afogado.

Então, sem meios de intervir, nos dirigimos à sede do sítio do meu tio, eu todo orgulhoso da companhia de tão ilustre figura do mundo literário. Foi então que o menino Quinzinho estacou ao se deparou com um pequizeiro, dizendo para que esperássemos um pouco que ele ia “catar pequi”. Eu perguntei-lhe se podia ajudá-lo, o que se prontificou também o escritor. Arrisquei dizer, buscando intimidade, que aquela era tarefa inapropriada a um escritor de refinadas mãos…” Porém, ele me retrucou, um tanto saudoso e poético: “- Engano seu, professor. Era uma das tarefas que mais me davam gosto, quando minha mãe me incumbia de realizar. É como voltar um pouco à infância que os anos não trazem mais…” –

Custou-nos muito encontrar um pequizeiro com alguns frutos caídos, que é quando já estão aptos a serem colhidos. Por baixo da maioria dos pequizeiros estava pisoteado, o que esmagara os frutos, certamente obra dos cavalos bravios que por ali vadiaram. Tão certo era isto que vimos ao longe, sob um pequizeiro, alguns cavalos parados nos olhando de soslaio, balançando as cabeças e bufando vez por outra, o que fazia sair de suas narinas um ar úmido com gotículas de água. Quando o famoso escritor ameaçou ir ao encontro deles com o livro na mão, fugiram apavorados.

Quando nos aproximamos da sede, Izé e Catu, que nos acompanhavam ofegantes e de línguas para fora, ainda tiveram força para espantar umas galinhas de angola que beliscavam insetos por ali. No alvoroço que fizeram, dois cavalos que nos seguiram ao longe, sem serem vistos, trotaram em disparada de volta. Percebemos, quando viramos a cabeça, pelo som do trotar e a poeira levantada.

O ilustre escritor e vizinho, José Veiga, foi recebido efusivamente por meu tio e demais membros da casa. Alguns receosos de se aproximarem em demasia, visto a magnificência da visita. Ficavam escorados nas pilastras da varanda, ouvidos esticados para pescar partes da prosa. Enquanto tia Fátima terminava o almoço – só faltava mesmo o pequi – os dois se sentaram à mesa, no centro desta a garrafa da caninha de engenho curtida no murici. Minha tia pôs cuidadosamente em minhas mãos, para que eu levasse até eles, um prato com uma moela fatiada de frango numa porção de farinha, que era para servir de tira-gosto.

Antes, porém, o famoso escritor, que viemos saber fora nascido em Corumbá de Goiás, presenteou o Anacleto com um livro, cujo título era “A Hora dos Ruminantes”, de sua autoria.  No entanto, meu tio pediu-lhe permissão para me repassar o livro, pois não era muito chegado a leituras. “-Sem problema.” – Respondeu o escritor. “- Creio que será mais útil ao professor, para trabalhar com os alunos…” – Completou o sitiante, tentando se justificar. Porém, eu o recebi com muito entusiasmo, pois tinha queda para a literatura e sonho de um dia escrever um livro. O escritor então o autografou, assinando após a dedicatória o nome José J. Veiga e pôde notar o brilho de felicidade nos meus olhos quando o recebi de suas mãos.

A conversa, após alguns tragos do restilo, descambou para a questão dos cavalos. O escritor quis saber o motivo por que havia tantos cavalos selvagens e bravios, soltos naquelas paragens. Tio Anacleto respondeu que faziam parte do plantel do senhor mais rico da região, que possuía alqueires a perder de vista. Na verdade, alguns cavalos do fazendeiro Jerônimo Brandão foram domados, porém ele preferiu que muitos continuassem selvagens, já que era conveniente que eles vivessem soltos por questão de segurança do fazendeiro e da fazenda. Com efeito, nem sempre respeitavam as fronteiras dos sítios, parecendo mesmo que tinham as manhas de abrir as cancelas com os focinhos.

De vez em quando o dito fazendeiro saía pela região, montado em seu cavalo para conferir se o plantel selvagem estava ativo. “- Até aqui, de vez em quando, ele aparece com desculpa de tomar um café…”  Só para depois dar nova investida, querendo travar regateio: “- Então, senhor Anacleto, já resolveu vender o sítio?”.

Minutos após, eis que o próspero fazendeiro aparece em pessoa, apeando do cavalo e saudando bonachão a todos da casa. Meu tio o recebeu educadamente, apresentou-o ao senhor José Veiga, fazendo referência aos seus dotes literários. O fazendeiro esboçou um sorriso, mas disse que não era a sua praia, nunca tivera pachorra suficiente para queimar as pestanas com as letras. O negócio dele era colecionar escrituras, disse em riso trocista.

Isto posto, meu tio o convidou a sentar-se à mesa, ofereceu-lhe um trago, o que ele aceitou incontinente. Após a golada, jogou na boca um punhado de farofa com fatias de moela do frango, conversando ao mesmo tempo, espargindo farinha na roupa do ilustre escritor. Este levou numa boa, entendendo a cosmovisão e as idiossincrasias rurais. Mesmo quando o fazendeiro se referiu à estranheza que tomara conta dos cavalos, não se sabe por que agora um tanto quanto menos bravios do que o necessário, depois que o Azulão apareceu soprando pelas narinas, resfriado e tomado de uma esquisitice medonha. Vivia pelos cantos, o olhar perdido na imensidão da fazenda de sua propriedade. Assim, resolvera vir montado nele, para ver se ele tomava jeito…

Todavia, o cavalo Azulão, no qual o rico fazendeiro viera montado, mantinha-se quieto, preso que ficara no mourão da porteira pelas cordas das rédeas. Estava cabisbaixo, crina descaída, esperando pacientemente a volta do seu dono. Aproximei-me dele com o livro A Hora dos Ruminantes na mão. Deixou-se afagar pela mão que estava livre, balançando de gratidão o corpanzil alquebrado. Vi que sob suas virilhas sangrava onde havia riscos da roseta da espora e, nas ancas, sinais do chicote.

Comecei a ler para ele, que, após algumas caídas de pálpebras, veio a cochilar. A impressão que tive é que ele esboçava um sorriso para pegar no sono.

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